Por Eça de Queirós (1875)
Doutro lado eram moços verbosos, localistas excitados que declaravam contra o velho mundo, a velha idéia, ameaçando-os de alto, propondo-se a derruí-los em artigos tremendos.
E assim uma burguesia entorpecida esperava deter, com alguns polícias, uma evolução social: e uma mocidade, envernizada de literatura, decidia destruir num folhetim uma sociedade de dezoito séculos. Mas ninguém se mostrava mais exaltado que um guarda-livros de hotel, que do alto do degrau da Casa Havanesa brandia a bengala, aconselhando à França a restauração dos Bourbons.
Então um homem vestido de preto, que saíra do estanco e atravessava por entre os grupos, parou, sentindo uma voz espantada que exclamava ao lado:
- Ó padre Amaro! Ó maganão!
Voltou-se: era o cônego Dias. Abraçaram-se com veemência, e para conversarem mais tranqüilamente foram andando até ao Largo de Camões, e ali pararam, junto à estátua:
- Então você quando chegou, padre-mestre?
Tinha chegado na véspera. Trazia uma demanda com os Pimentas da Pojeira por causa duma servidão na quinta, tinha apelado para a Relação, e vinha seguir de perto a questão na capital. - E você, Amaro? Na última carta dizia-me que tinha vontade de sair de Santo Tirso.
Era verdade. A paróquia tinha vantagens; mas vagara Vila Franca, e ele, para estar mais perto da capital, viera falar com o Sr. conde de Ribamar, o seu conde, que lá andava obtendo a transferência.
Devia-lhe tudo, sobretudo à senhora condessa!
- E de Leiria? A S. Joaneira, vai melhor?
- Não, coitada... Você sabe; ao princípio tivemos um susto dos diabos... Pensávamos que lhe ia suceder como à Amélia. Mas não, era hidropisia... E ali o que há é anasarca...
- Coitada, santa senhora! E o Natário?
- Avelhado! Tem tido os seus desgostos. Muita língua.
- E diga lá, padre-mestre, o Libaninho?
- Eu escrevi-lhe a esse respeito, disse o cônego rindo.
O padre Amaro riu também: e durante um momento os dois sacerdotes pararam, apertando as ilhargas.
- Pois é verdade, disse o cônego. A coisa tinha sido realmente escandalosa... Porque enfim, repare o amigo que o pilharam com o sargento, de tal modo que não havia a duvidar... E às dez horas da noite, na alameda! Já é imprudência... Mas enfim a coisa esqueceu, e quando o Matias morreu, lá lhe demos o lugar de sacristão, que é bem boa posta... Muito melhor que o que ele tinha no cartório... E há-de cumprir com zelo!
- Há-de cumprir com zelo, concordou muito sério o padre Amaro. E a propósito, a D. Maria da Assunção?
- Homem, rosnam-se coisas... Criado novo. Um carpinteiro que morava defronte... O rapaz anda no trinque.
- Palavra?
- No trinque. Charuto, relógio, luva! Tem pilhéria, hem?
- É divino!
- As Gansosos na mesma, continuou o cônego. Têm agora a sua criada, a Escolástica.
- E da besta do João Eduardo?
- Eu mandei-lhe dizer, não? Lá está ainda nos Poiais. O Morgado está mal do fígado! E o João Eduardo diz que está tísico... que eu não sei, nunca mais o vi... Quem mo disse foi o Ferrão.
- Como vai ele, o Ferrão?
- Bem. Sabe quem eu vi há dias? A Dionísia.
- E então?
O cônego disse uma palavra baixo ao ouvido do padre Amaro.
- Deveras, padre-mestre?
- Na Rua das Sousas, a dois passos da sua antiga casa. O D. Luís da Barrosa é que lhe deu o dinheiro para montar o estabelecimento. Pois aqui estão as novidades. E você está mais forte, homem! Fez-lhe bem a mudança...
E pondo-se diante, galhofando:
- Ó Amaro, e você a escrever-me que queria retirar-se para a serra, ir para um convento, passar a vida em penitência.
O padre Amaro encolheu os ombros:
- Que quer você, padre-mestre?... Naqueles primeiros momentos... Olhe que me custou! Mas tudo passa...
- Tudo passa, disse o cônego. E depois de uma pausa: - Ah! Mas Leiria já não é Leiria!
Passearam então um momento em silêncio, numa recordação que lhes vinha do passado, os quinos divertidos da S. Joaneira, as palestras ao chá, as passeatas ao Morenal, o Adeus e o Descrido cantados pelo Artur Couceiro e acompanhados pela pobre Amélia que, agora, lá dormia no cemitério dos Poiais, sob as flores silvestres...
- E que me diz você a estas coisas da França, Amaro? - exclamou de repente o cônego.
- Um horror, padre-mestre... O arcebispo, uma súcia de padres fuzilados!... Que brincadeira! - Má brincadeira, rosnou o cônego.
E o padre Amaro:
- E cá pelo nosso canto parece que começam também essas idéias...
O cônego assim o ouvira. Então indignaram-se contra essa turba de mações, de republicanos, de socialistas, gente que quer a destruição de tudo o que é respeitável - o clero, a instrução religiosa, a família, o exército e a riqueza... Ah! a sociedade estava ameaçada por monstros desencadeados! Eram necessárias as antigas repressões, a masmorra e a forca. Sobretudo inspirar aos homens a fé e o respeito pelo sacerdote.
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.