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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro de Amélia saiu da Ricoça. Era uma manhã áspera: o céu e os campos estavam afogados numa névoa pardacenta; e caia muito miúda, uma chuva regelada. Era longe da quinta à capela dos Poiais. O menino do coro adiante, de cruz alçada, apressava. se, chapinhando a lama a grandes pernadas; o abade Ferrão, de estola negra, abrigava-se, murmurando o Exultabunt Domino, sob o guarda-chuva que sustentava ao lado o sacristão com o hissope; quatro trabalhadores da quinta, abaixando a cabeça contra a chuva oblíqua, levavam numa padiola o esquife que tinha dentro o caixão de chumbo; e, sob o vasto guarda-chuva do caseiro, a Gertrudes de mantéu pela cabeça ia desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o vale triste dos Poiais cavava-se, todo pardo na neblina, num grande silêncio; e a voz enorme do vigário, mugindo o Miserere, rolava pela quebrada úmida onde murmuravam os riachos muito cheios.

Mas às primeiras casas da aldeia os moços do caixão pararam derreados; e então um homem, que estava esperando debaixo duma árvore sob o seu guarda-chuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro. Era João Eduardo, de luvas pretas, carregado de luto, com as olheiras cavadas em dois sulcos negros, grossas lágrimas a correrem-lhe nas faces. E imediatamente, por trás dele, vieram colocar-se dois criados de farda, com as calças muito arregaçadas e tochas na mão - dois lacaios que mandara o Morgado, para honrar o enterro duma dessas senhoras da Ricoça, amigas do abade.

Então, vendo estas duas librés que vinham afidalgar o préstito, o menino do coro rompeu logo, erguendo mais alto a cruz; os quatro homens, já sem fadiga, empertigaram-se às varas da padiola: o sacristão bramiu um Requiem tremendo. E pelas lamas do íngreme caminho da aldeia foi subindo o enterro, enquanto às portas as mulheres se ficavam persignando, olhando as sobrepelizes brancas e o caixão de galões de ouro, que se iam afastando seguidos do grupo de guarda-chuvas abertos, sob a chuva triste.

A capela era no alto, num adro de carvalheiras: o sino dobrava: e o enterro sumiu-se para o interior da igreja escura, ao canto do Subvenite sancti que o sacristão entoou em ronco. - Mas os dois criados de farda não entraram porque o Sr. Morgado assim o tinha ordenado.

Ficaram à porta, sob o guarda-chuva, escutando, batendo os pés regelados. Dentro seguia o cantochão; depois era um ciciar de orações que se amortecia; e de repente latins fúnebres lançados pela voz grossa do vigário.

Então os dois homens, enfastiados, desceram do adro, entraram um momento na taberna do tio Serafim. Dois moços de gado da quinta do Morgado, que bebiam em silêncio o seu quartilho, ergueram-se logo vendo aparecer os dois criados de farda.

- À vontade, rapazes, é sentar e beber, disse o velho baixito que acompanhava João Eduardo a cavalo. Nós lá estamos, na maçada do enterro... Boas-tardes, Sr. Serafim.

Apertaram a mão ao Serafim, que lhes mediu duas aguardentes - e informou-se se a defunta era a noiva do Sr. Joãozinho. Tinham-lhe dito que morrera duma veia rebentada.

O baixito riu:

- Qual veia rebentada! Não lhe rebentou coisa nenhuma. O que lhe rebentou foi um rapagão pelo ventre...

- Obra do Sr. Joãozinho? perguntou o Serafim, arregalando o olho brejeiro.

- Não me parece, disse o outro com importância. O Sr. Joãozinho estava em Lisboa... Obra de algum cavalheiro da cidade. Sabe vossemecê de quem eu desconfio, Sr. Serafim?

Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna gritando que o saimento já ia ao pé do cemitério, e que não faltavam senão "aqueles senhores"! Os lacaios abalaram logo, e alcançaram o enterro quando ia passando a pequena grade do cemitério, ao último versículo do Miserere. João Eduardo agora levava uma vela na mão, ia logo atrás do caixão de Amélia, tocando-o quase, com os olhos enevoados de lágrimas fitos no veludilho negro que o cobria. Sem cessar o sino na capela dobrava desoladamente. A chuva caía mais miúda. E todos calados, no silêncio fusco do cemitério, com passos abafados pela terra mole, iam-se dirigindo para o canto do muro onde estava cavada de fresco a cova de Amélia, negra e profunda entre a relva úmida. O menino do coro cravou no chão a haste da cruz prateada, e o abade Ferrão, adiantando-se até à beira do buraco escuro, murmurou o Deus cujus miseratione... Então João Eduardo, muito pálido, vacilou de repente, e o guarda-chuva caiu-lhe das mãos; um dos criados de farda correu, segurou-o pela cinta; queriam-no levar, arrancá-lo de ao pé da cova; mas ele resistiu, e ali ficou, com os dentes cerrados, segurando-se desesperadamente à manga do criado, vendo o coveiro e os dois moços amarrarem as cordas no caixão, fazerem-no resvalar devagar entre a terra esfarelada que rolava, com um ranger de tábuas mal pregadas.

- Requiem aeternam dona ei, Domine!

- Et lux perpetua luceat ei, mugiu o sacristão.

O caixão bateu no fundo com uma pancada surda: o abade espalhou em cima uma pouca de terra em forma de cruz: e sacudindo lentamente o hissope sobre o veludilho, a terra, a relva em redor:

- Requiescat in pace.

- Amém, responderam a voz cava do sacristão e a voz aguda do menino do coro.

- Amém, disseram todos num murmúrio, que ciciou, se perdeu entre os ciprestes, as ervas, os túmulos e as névoas frias daquele triste dia de Dezembro.

XXV

(continua...)

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