Por Bernardo Guimarães (1869)
— Ah! Inimá! Inimá! já não pareces o filho do valente e invencível Iaboré! Quem diria que não ousaste ir sozinho arrostar a sanha do estrangeiro, e que deixaste morrer teus companheiros como uma vara de caitetus às garras da onça esfaimada!... Mancebos fracos e degenerados de hoje, sois incapazes de encurvar o arco de vossos antepassados. Em outros tempos, quando a idade não tinha ainda branqueado estes cabelos nem quebrado estes pulsos, eu só ou qualquer dos meus valentes teria esmagado esse mancebo com a mesma facilidade com que espedaço este cachimbo. — E esmagou entre os dedos o canudo pelo qual aspirava a fumaça da pituma.
A este gesto, a estas duras palavras bagas de suor frio escorregaram pela testa do jovem guerreiro, que batendo os dentes como um queixada enfurecido, com voz convulsa e abafada respondeu:
— Oriçanga! Oriçanga! não profiras tais palavras!... a cólera te cega, velho cacique, e torna-te injusto. Não penses que esse estrangeiro que acabamos de garrotear era um inimigo vulgar. Não; era um enviado de Anhangá, e estou certo que com ele combatiam contra nós os manitós das trevas ocultos entre os ramos da floresta. Se lá te acharas, se presenciasses esse estranho combate e visses por que modo sobrenatural o maldito imboaba se furtava a nossos golpes, por certo nos não julgarias com tão injusto rigor. Mas seja como queres: ao que me parece esse temerário estrangeiro não está morto ainda e é bem possível que ainda volte à vida; de propósito sopeei a força de meu pulso ao vibrar-lhe o último golpe. Procurem chamá-lo à vida, curem-se suas feridas, e quando de todo tiver recobrado suas forças, que venha medir suas armas comigo. Se aos primeiros botes eu não calcar-lhe o peito debaixo de meu joelho, e não escachar-lhe o crânio com um golpe deste tacape, possam os meus olhos nunca mais se encontrar com os da formosa e incomparável Guaraciaba.
— Sejas como dizes, replicou Oriçanga; seja o estrangeiro recolhido em um dos aposentos de minha taba; os pajés pensem suas feridas, e ministrem-lhe todos os cuidados que reclama seu estado, e vejam se lhe restituem a vida. Se ele recuperar os sentidos e viver, Inimá, será um sacrifício de excelentes auspícios para o dia em que receberes por esposa em tua taba a gentil Guaraciaba.
Ditas estas palavras, como descia a noite, o velho cacique levantou-se e a passos lentos recolheu-se para o interior da cabana.
O espetáculo do corpo de Gonçalo todo ensangüentado e crivado de golpes não fez mais impressão sobre o espírito daqueles ferozes selvagens, do que o de uma fera que em uma partida de caça acabassem de matar e arrastar para as tabas.
Mas não assim para Guaraciaba, que ao ver aquele belo e garboso mancebo, em cujo rosto inanimado ressumbrava a altivez e galhardia, todo pisado e banhado em sangue, sentiu agitar-lhe o seio um sentimento insólito de interesse e compaixão.
Gonçalo, recolhido em um dos compartimentos da taba do cacique, foi ali deitado sobre um leito de macias peles e confiado aos cuidados de Andiara, o mais venerável e mais sábio dos pajés, e que primava na arte de curar golpes e toda a qualidade de enfermidades. Guaraciaba prestou-se graciosamente a auxiliá-lo, e quis ser ela mesma com encantadora solicitude a enfermeira do prisioneiro ferido. Andiara examinou com atenção o corpo de Gonçalo, e reconhecendo que a vida ainda não o tinha de todo abandonado, administrou-lhe os primeiros cuidados e concebeu esperanças de salvá-lo.
Inimá, sombrio e cabisbaixo, retirou-se no fundo de sua taba, ruminando na mente as cruéis palavras de Oriçanga e entregue aos mais sinistros pressentimentos.
Enquanto Gonçalo sem sentidos jaz entre a vida e a morte, entregue aos cuidados do pajé e da mimosa Guaraciaba, vejamos o que fizera ele depois da horrível e encarniçada luta em que matara seu amigo, e por que série de acontecimentos viera ele cair nas mãos dos ferozes Chavantes.
Gonçalo, crivado de graves e profundos golpes e perdendo muito sangue depois daquele furioso e desesperado combate, desatinado e torturado pelas dores do corpo e pelas tormentas da alma, dirigiu-se o mais depressa que pôde para sua casa. Aí tratou de estancar o sangue das feridas e pensá-las à pressa e do melhor modo que pôde; e como ali mais do que em outra qualquer parte estaria em perigo a sua segurança, arrecadou todo o dinheiro e objetos de valor que pudesse levar consigo, e sem nada dizer a seus domésticos, abandonando a casa, escravos e haveres de toda espécie, montou de novo a cavalo, e tomando por trilhos escusos e desconhecidos com grande dificuldade pôde chegar exausto de força e quase desfalecendo à casa de um velho caboclo, que lhe era muito afeiçoado e que habitava um miserável ranchinho escondido entre matos em um sítio retraído e ignorado. Aí esteve por muitos dias oculto curando-se de suas feridas e recuperando suas forças. Por felicidade o caboclo era grande curandeiro, e graças aos remédios que aplicou, e que consistiam em ervas e raízes silvestres, cujas virtudes conhecia, ao zelo e dedicação com que tratava o seu jovem hóspede, e à admirável robustez da organização de Gonçalo, este viu suas feridas irem-se prontamente cicatrizando, e seu vigor e saúde de dia a dia restabelecerse.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.