Por Eça de Queirós (1940)
Estas petições são metidas em grandes sacos e remetidas para as fábricas de papel, onde vão ser matéria-prima para petições futuras; mas algumas, por mais curiosas, são conhecidas e fazem a felicidade dos jornais satíricos. Assim tem causado hilaridade a petição muito séria e muito grave de uma família de rendeiros que reclama ao parlamento contra o seguinte escândalo: um empregado da polícia, seu vizinho, fez uma armadilha no quintal e matou-lhe dois gatos! A família pede à câmara dos deputados que a indemnize, processe a polícia e lhe substitua os gatos!
Há agora um costume, nas inculcadeiras de criadas em Londres, de que se fala muito e que me parece suficientemente impudente. As inculcadeiras têm álbuns com as fotografias das criadas, para que o patrão, ou a patroa, possa ver se a cara lhe convém, antes de saber se lhes convêm os serviços.
Até aqui muito bem. Uma cara simpática a servir à mesa do almoço, com uma fresca touca branca, é certamente preferível ao carão macilento de uma matrona azedada. Mas – coisa suspeita! – a maior parte destas fotografias têm os braços nus e o colo decotado!!! Que lhes parece? E para que é necessário, antes de tomar uma criada, saber se ela tem os braços redondos e o seio bonito?
Sobretudo – quando este álbum é destinado a ser examinado não só pelos patrões (e então ainda se compreende) mas pelas patroas! A Inglaterra, positivamente, vai à vela!
Na Escócia, os jornais vêm cheios de detalhes sobre o caso de Miss Grant. Miss Grant era há anos filha de um pobre caseiro, numa aldeia da Escócia, que por morte de um tio, de quem ninguém já se lembrava e que vivia na Índia, se achou, uma bela manhã de Abril, senhora de uma fortuna prodigiosa: além das propriedades riquíssimas, só em dinheiro recebeu esta gentil lavradeira a bagatela romanesca de trezentas mil libras!
Era bonita e esperta. Começou a viver com grande luxo, fez um palácio para os pais, e era feliz – quando aparece em cena uma linda rapariga, chamada Miss Temple. Desde esse dia, Miss Grant começa a mostrar-se excêntrica: em primeiro lugar, consegue que Miss Temple deixe pai, mãe, rompa com todas as suas relações e venha viver com ela; em seguida, as duas gentis criaturas fazem um contrato público pelo qual se Comprometem a nunca casar e a viverem sempre juntas: finalmente, Miss Grant faz um testamento pelo qual, no caso de morrer primeiro, deixaria a Miss Temple um milhão de libras se a mesma Miss Temple nunca a deixasse e se comprometesse a repelir toda a corte e casamento. O romance seguia encantadoramente quando, o ano passado, Miss Temple, muito ingrata, muito desprendida, casou. Miss Grant não destruiu o testamento, mas caiu numa melancolia mórbida e, há meses, morreu de paixão.
Um obscuro cirurgião de uma aldeia da Escócia herdou, ab intestado, aquela colossal fortuna. Mas agora a família Temple quer que o testamento se considere válido, faz processo e esperam-se revelações extraordinárias, que farão escândalo em toda a Inglaterra.
V
Londres, 1 de Agosto [de 1877]
Desde que os Russos estão do lado de lá dos Balcãs, no caminho que leva a Constantinopla, todo o interesse da última semana se tem resumido nesta interrogação: que vai fazer a Inglaterra? Londres ficou atónita segunda-feira passada, quando soube que o Governo ia mantas tropas para o Mediterrâneo. «E a guerra!«, exclamava-se por toda a parte. Não era a guerra ainda, mas era aviso ao leitor. O leitor, neste caso, é o czar. Com efeito, depois de muitas ordens e contra-ordens, que mostravam uma grande vacilação, três mil homens foram remetidos para Malta e Gibraltar, e instruções dadas a outros corpos para estarem preparados, inclusive o Corpo de Administração Militar, que só acompanha as divisões expedicionárias. Isto tinha uma feição singularmente guerreira. Soube-se logo que na Câmara dos Lordes e na Câmara dos Comuns o ministério seria interrogado sobre a significação destes preparativos – e havia uma curiosidade pungente em escutar a resposta de Lord Derby.
Lord Derby deu a única resposta que se podia dar – diplomática e reservada. Declarou que as tropas são simplesmente para reforçar as guarnições de Malta e de Gibraltar, que, nesta ocasião em que a região mediterrânea está num estado de perturbação, necessitavam ser fortemente completadas. Esta resposta naturalmente não significava nada – senão que a verdade não podia ser dita.
Realmente Gibraltar só pode ser atacada por terra, pela Espanha, e não consta que a Espanha tenha a mínima intenção de declarar a guerra à Inglaterra; enquanto a Malta, só pode ser atacada por mar – e não é portanto de nenhuma utilidade aumentar a força de terra; sobretudo se se considerar que, entre as tropas enviadas a Malta e a Gibraltar, vai o 17º de Lanceiros, e que realmente não se concebe para que possa servir em Malta ou em Gibraltar um forte regimento de cavalaria. Não está nos hábitos da guerra opor a navios couraçados os regimentos de lanceiros. Era evidente, portanto, que a expedição ia simplesmente a Gibraltar e a Malta para estar mais perto do seu verdadeiro destino; e este destino, ninguém o ignora, é Galípoli.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.