Por Eça de Queirós (1925)
Então, para egualar estes genios, poder ter uma phrase n'estas discussões, Arthur começou a devorar todos os livros de Theodosio, com uma sofreguidão confusa, indo de Petrarca á Historia da Revolução Franceza, de Soto Agostinho a Balzac, começando mesmo Hegel e precipitando•se logo para as Orientaes e para a legião dos Romanticos. E assim, pouco a pouco, perdendo o culto exclusivo pela personalidade do Cenaculo, elevou-se na admiração mais vaga de personagens da Arte ou da Historia, d'epochas da Humanidade, de ciVilisações e d 'idéas.
Enthusiasmou-o a Meia-Edade, as suas cathedraes e os seus mosteiros, e o Rheno gothico, com os seus castellos de Burgraves heroicos sobre pincaros de rochas ; encantou-o o Oriente e as suas cidades erriçadas de minaretes, onde pousam cegonhas — as caravanas no Deserto, os jardins dos serralhos onde suspira, ao murmurio da agua, a paixão musulmana ; depois, attrahiu-o a Renascença italiana, os seus decamerons galantes e as galas dos Papas ; um livro d'Arsbne Houssaye deu-lhe por algum tempo a admiração exclusiva do seculo XVIII ; depois, adorou a Bohemia de Murger e de Gerard de Nerval... E tinha outros enthusiasmos vagos por paisagens, heroismos, theorias e attitudes— os rios sagrados da India, os corsarios patriotas do Archipelago grego, a regeneração das prostitutas, S., Bernardo em Clairvaux e Danton na Convenção. Torturava-o então o desejo permanente de peproduzir as imagens de que estes enthusiasmos e as suas leituras lhe enchiam vagamente o cerebro : mas não sabia ainda que Arte empregaria. Ás vezes os seus ideaes eram tão indefinidos, que lhe parecia que só arias e melodias os poderiam exprimir ; pensava então em estudar musica e nenhum genio humano lhe parecia superior a Mozart ou a Beethoven, que nunca ouvira ; ambicionava compôr symphonias sobre assumptos que amava e para os quaes a poesia lhe parecia insufficiente, como a Morte no Calvario ou o cavalleiro Sir Galaad procurando pela terra e pe10s mares o vaso do S, Graal. Outras vezes, era a côr, a belleza das linhas que o interessava : desejava então ser pintor, lançar na tela o rico esplendor dos estofos, as decorações luminosas d'um céu d'Oriente, scenas de Shakespeare ou episodios grandiosos da Historia e nenhum destino humano lhe parecia egual ao d'um Miguel Angelo, compondo o Julgamento Final, vivendo de pão e d'agua e, nos intervallos de repouso, escrevendo um soneto ímmortal.
Já os seus compendios de Direito Natural e Romano lhe pareciam odiosos e passava as noites a escrever versos. Estes versos só os mostrava a um companheiro que vivia no quarto vizinho, mas que não pertencia ao Conaculo. Este moço, ainda parrente do Taveira e como elle de Bragança, sendo extremamente gordo e fallando com frequencia do Pote das Almas, como da rnaior impressão que trouxera de Lisboa, era conhecido no Cenaculo pelo nome de Pote-sem-Alma. Amava loucamente uma prima, que o abandonara por um morgado dos arredores de Bragança, e desde então, a occupação do Pote-sem-Atma era decorar pontualmente a sua sebenta e chorar aquelle amor perdido. Era porém sempre no calor da cama que aquella saudade o pungia ; e todas as noites, regularmente, a voz de baixo do Pote atroava a casa, bramando d'entre os lençoes :
— Ai, que rico bocado de pequena ! Ai, quem m'a dera aqui !
Este berro lubrico e doloroso escandalisava o gosto delicado dos artistas do Cenacuto. E um dia, ao jantar, Damião, muito severo, voltou-se para o Pote•sem-Àlma :
— Pote, você todas as noites lamenta a perda da sua prima Felicia, d'um modo que nos é insupportavel. Você, como homem e como pote, ó livre, e não podemos prohibir-lhe o queixume. Mas temos direito ao menos a que dê á sua saudade uma ex• pressão litteraria e nobre. E já que Deus, para. usar este termo obsoleto e convencional, lhe deu em gordura o que lhe recusou em idéa, aqui o amigo Taveira encarrega-se de lhe formular em duas ou tres estrophes correctas um grito de desespero decente. E o Pote ha-de ter a bondade d'usar, d'ora em dian.te, esta formula, sempre que o dilacere a dór d'essa paixão infeliz.
A « formula» composta por Taveira era uma imitação d'algumas estrophes de Dolcsley Hall, a pathetica elegia de Tennyson, em que o poeta revisita.ndo os prados e os areaes, onde outr'ora, com sua prima Amy, dera os passeios sentimentaes do amor harmonico, solta o grito tão celebre na tradição romantica :
Oh, my cousin shallow hearted I Oh my Amy, mine no more Oh, the dreary, dreary moorland I Oh the barren, barren shore !
E a composição de Taveira, depois de fallar com amargura dos prados e areaes de Bragança, onde Felicia e Pote se tinham amado, na humidade da relva, junto ás espumas do mar, terminava com a mesma apostrophe dilacerante :
Oh t minha prima Felicia I Nem minha, nem nunca mais I Desertos: desertos prados I Tristes, tristes areaes I
Agora todas as noites, o Pote-sem-AZma, depois de ter arranjado a cama, com o gabão aos pés, a capa por cima, deitava-se, entalava a roupa nos hombros, dava um ah ! regalado de gozo e com o nariz fóra dos lengoeg, soltando toda a voz, bramava no silencio :
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.