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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Um só parecia simpatizar com Cristóvão. Era um moço franzino, que tinha a sua banca junto da janela, sobre a qual caíam os caracóis dos seus cabelos louros. As suas mãos pálidas folheavam de leve um in-fólio: - e havia em ele como a gravidade de um letrado e a doçura de uma virgem.

Todos os dias Cristóvão o via chegar da aldeia com o seu tinteiro metido no cinto, o rolo de papel sob o braço: e todas as tardes o seguia com os olhos quando ele, finda a aula, regressava à aldeia, folheando ainda pelo caminho algum livro onde havia cores brilhantes. Por vezes via-o parar, colher as flores silvestres do caminho. Ou alegremente, deitando os seus longos cabelos para trás, cantava sob a doçura da tarde.

Sempre que passava junto de Cristóvão, dizia-lhe: “Deus te salve!” E Cristóvão sentia como uma carícia na alma. Muitas vezes pensava nele – e voltava-lhe à lembrança o que ouvira ao padre-mestre, dos anjos que desciam à Terra, se misturavam às ocupações humanas. Ia então colocar-se no caminho em que ele passava. E um dia que os caminhos estavam alagados pela chuva, Cristóvão ofereceuse para o passar ao colo. Desde então procurava maneiras de o servir. Nos dias de calor, tinha para ele a bilha de água mais fresca; e nos dias de frios, fazia depressa no pátio um fogo de rama, para ele aquecer os pés úmidos antes e subir aos claustros. Por fim, como o Inverno se avizinhasse, com os crepúsculos mais escuros, Cristóvão seguia-o na sua volta à aldeia, para o proteger dos lobisomens, ou dos maus encontros: e quando vieram as chuvas, ofereceu-se para o levar às costas, como um macho, até a porta da sua morada. Então pelo caminho conversavam baixo: Cristóvão contava os seus trabalhos no convento, o moço dizia os seus desejos de ser militar, conhecer o mundo, percorrer as cidades. Seu pai era o regedor das terras e destinavao para padre; mas ele queria casar com uma prima chamada Etelvina, que morava ao pé do castelo, para além do Pego das Dunas. E um dia que assim conversava, o moço contou a Cristóvão que às vezes ia encontrar essa rapariga, longe, à orla de um bosque; mas temia que a surpreendessem os arqueiros do pai, que rondavam os campos, ou o servos do castelo mandados pelo pai de Etelvina. Se Cristóvão quisesse, podia ficar à orla, vigiando os caminhos, como uma torre, e se viesse alguém chegando, avisá-los com um grito. Cristóvão disse: “Irei para onde me mandares”.

VIII

O sítio onde se encontravam era num claro de árvores derrubadas, à orla do bosque. Havia ali uma torre outrora erguida pelo conde da Ocitânia. O Diabo um dia derrubara-a; e ainda se distinguiam nas pedras tisnadas os vestígios das garras do Tentador. Um terror afastava dali os passos humanos mas a abundância das flores silvestres, a doçura dos musgos, oferecia, aos audazes que lá chegavam, um asilo fresco de paz silvana. Era ali que se encontravam Alfredo e Etelvina. Para chegarem mais depressa, Cristóvão tomava Alfredo aos ombros, e com passadas de côvados, saltando as ribanceiras, transpondo os lameiros, chegava lá primeiro, ao cair fresco da tarde. Por um caminho que contornava a colina, viam descer Etelvina, que levantava o seu vestido cinzento, por causa dos espinhos das sebes. Como voltava da igreja, trazia um livro na mão. As suas duas tranças louras caíam-lhe pelos ombros. As longas pestanas, dos seus olhos baixos, faziam-lhe uma sombra na face da cor e doçura de uma rosa branca. E junto da sua escarcela soavam as tesouras, as chaves, o dedal, pendentes da cinta por correntes de prata. O bom estudante dobrava diante dela o joelho: e tomando-a pela mão delicada, caminhava com ela pelo bosque, parando para lhe tirar, da orla do vestido, as silvas que se lhe prendiam. Ela tinha sempre para Cristóvão um sorriso, a que se misturava o brilho dos seus olhos: e ele de pé, vigiando o caminho, ficava pensando naqueles olhos que lhe pareciam estrelas. No arvoredo em torno cantavam as aves: um aroma de verduras, de pinheiros, de madressilvas, flutuava no ar: e por vezes os passos de uma corça roçavam por entre a espessura das faias tenras. E Cristóvão, apoiado a um forte cajado, lançava os olhos em redor, pelo vale. Mas ninguém se aproximava da torre derrocada. E ele, pouco a pouco invadido pela doçura da tarde, pensava em doçuras que recebera – na carícia das mãos de sua mãe sobre a grenha crespa, nas festas das crianças que por vezes sem medo lhe trepavam aos joelhos. Uma melancolia tomava-lhe o peito. E, na sua vaga ternura, desejava apertar contra si todo aquele vale, e as nuvens dos céus, e a água que fugia cantando.

No entanto Alfredo e sua bem amada vinham repousar, sentados numa pedra.



(continua...)

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