Por Eça de Queirós (1900)
Gonçalo empurrou a portinha verde. No corredor espirrava urna lamparina mortiça, já sem azeite, junto ao castiçal de prata. E Videirinha, recuando ao meio da estrada, com um "dlindlon" ardente, fitara a Torre, que, por cima dos telhados da vasta casa, mergulhava as ameias, o negro miradouro, no luminoso silêncio do céu de verão. Depois para ela e para a lua atirou as endechas glorificadoras, na dolente melodia dum fado de Coimbra, rico em ais:
Quem te verá sem que estremeça,
Torre de Santa Irenéia,
Assim tão negra e calada, Por noites de lua cheia...
Ai! Assim calada, tão negra, Torre de Santa Irenéia!
Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que o convidava a subir e enxugar um cálice de genebra salvadora. Mas retornou logo o descante, ditoso em descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos seus versos, pelo prestígio das Lendas, enquanto Gonçalo desaparecia - com folgazãs desculpas ao trovador "por cerrar a portinha do Castelo"...
Aí! Aí estás, forte e soberba,
Com uma história em cada ameia, Torre mais velha que o reino, Torre de Santa Irenéia!...
E começara a quadra a Múncio Ramires, Dente de Lobo, quando em cima uma sala, aberta à frescura da noite, se alumiou - e o Fidalgo da Torre, com o charuto aceso, se debruçou da varanda para receber a serenada. Mais ardente, quase soluçante, vibrou o cantar do vídeirinha. Agora era a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina, sobre o monte das Oliveiras, à porta da sua tenda, diante dos Barões que o aclamavam com as espadas nuas, recusando o Ducado de Galiléia e o senhorio das Terras de Além-Jordão. - Que não podia, em verdade, aceitar terra, mesmo Santa, mesmo de Galiléia...
Quem já tinha em Portugal Terras de Santa Irenéia!
- Boa piada! - murmurou Gonçalo.
Videirinha, entusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada nessa semana - a do saimento de Aldonça Ramires, Santa Aldonça, trazida do mosteiro de Arouca ao solar de Treixedo, sobre o almadraque em que morrera, aos ombros de quatro Reis!
- Bravo! - gritou o Fidalgo pendurado da varanda. - Essa é famosa, oh Videirinha! Mas aí háReis demais... Quatro Reis!
Enlevado, empinando o braço do violão, o ajudante da Farmácia lançou outra, já antiga - a daquele terrível Lopo Ramires que, morto, se erguera da sua campa no Mosteiro de Craquede, montara um ginete morto, e toda a noite galopara através da Espanha para se bater nas Navas de Tolosa! Pigarreou - e, mais chorosamente, atacou a do Descabeçado:
Lá passa a negra figura...
Mas Gonçalo, que abominava aquela lenda, a silenciosa figura degolada, errando por noites de inverno entre as ameias da Torre com a cabeça nas mãos - despegou da varanda, deteve a Crônica imensa:
- Toca a deitar, oh Videirinha, hem? Passa das três horas, é um horror. Olhe! O Titó e o Gouveiajantam cá na Torre, no domingo. Apareça também, com o violão e cantiga nova; mas menos sinistra... Bona sera! Que linda noite!
Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala - a "sala velha", toda revestida desses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que ele desde pequeno chamava as carantonhas dos vovós. E, atravessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silêncio dos campos cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:
Ai! lá na grande batalha... El-Rei Dom Sebastião... O mais moço dos Ramires que era pajem do guião...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.