Por Camilo Castelo Branco (1862)
Fiquei entre o palerma e o estupefacto.
- Anda, Caetano - tornou ela -, que estou a arrefecer! Tu não te mexes? Estás amuado?
- Vossa Mercê engana-se - disse eu, quando conheci a cozinheira ao clarão da lua.
Mal proferidas estas palavras, o vulto deu um grito de surpresa e fugiu, deixando aberta a grade.
A este tempo, ouvi passos na estrada, e, sem reflectir, entrei no jardim e sumi-me por entre a espessura dos arbustos. Pouco depois, vi entrar um vulto do homem no jardim, caminhar afoitamente, subir a um patim e empurrar de manso uma porta, que não se abriu. Mais tarde, correu-se uma janela superior à porta e travou-se este diálogo:
- Caetano!
- Eufémia!
- És?
- Sou. Abres?
- Não; tenho medo.
- Ora!, ainda estão a pé?
- Não é isso... Estava ali à porta do jardim um homem. Cuidei que eras tu. Não o viste? - Isso havia de ser para a fidalga: não vi ninguém.
- Não pode ser para a fidalga.
- Pois então quem era, senão o conde?
- Não era, que esse entrou às onze horas e está cá.
- Seja quem for; abre a porta.
- Hoje não: vai-te embora. Olha... tinha-se ali um franguinho assado... queres que to dei-te?
- Então é certo que não abres?
- Estou a tremer com medo. Será alguma espera para o Sr. Conde?
- Será...
- A fidalga é uma doidivanas... Será ele o do periquito?
- Lá se avenham... Então até amanhã.
- E o frango, quer-lo?
- Bota cá.
Pouco depois, o homem saiu, e eu, com o rosto entre as mãos, fiquei o tempo que pode gastar uma alma em descer ao Inferno e voltar ao mundo com uma brasa eterna nos seios.
Sai do jardim; fitei os olhos na lua: levei a mão convulsiva à testa e exclamei: “Anátema!” Dito isto, vim para Lisboa.
VI
Decorreram três meses, durante os quais fui à província vender uma parte da minha legítima paterna. Cuidava minha extremosa mãe que eu, dois anos ausente dela, ia enfim adoçar-lhe os últimos anos e resgatar os empenhos a que sacrificara os bens. Não a desenganei logo por compaixão; mas o aspecto melancólico da minha aldeia, o silêncio, a quietação penosa do lar doméstico e a sensaboria das práticas monótonas de quatro clérigos das partidas da minha mãe tornaram-me as saudades de Lisboa em profundo tédio da minha terra.
Liquidada a venda de algumas propriedades, que minha boa mãe, com engenhosa compaixão de meus desatinos, fez comprar por terceira pessoa, voltei a Lisboa.
Como disse, tinham passado três meses sobre o meu coração. Aquela eterna brasa que eu, por amor da retórica, há pouco disse que trouxera do Inferno nos seios da alma, estava quase apagada, como todas as brasas que a gente inflama com assopros de estilo. Pelo modo como o homem e o amor estão feitos neste tempo, três meses de ausência correspondem àqueles dilatados anos dos amores da Idade Média, que traziam da Palestina à castelã saudosa o coração leal do seu cavaleiro. Peitos de ferro deviam albergar corações de férrea tenacidade. Agora, é mais íntimo e doravante o amor, mais combustível o coração; a chama, batida por variados ventos, ateia-se mais enfurecida e o elemento dos afectos volatiza-se rapidamente. A mais aumenta a versatilidade humana, quando o amor-próprio sai anavalhado destas lutas, em que é grande parte o orgulho. Assim se explica o quase esquecimento de Paula quando voltei a Lisboa; e, se de todo não a esquecera, fora a curiosidade de saber a conta em que o mundo a tinha que me levava a indagar os pormenores da sua vida.
O boleeiro, que já o não era da casa de Benfica, deu-me alguns, os mais agravantes à honra da menina; os outros comunicaram-mos as suas amigas, os seus turibulários, os poetas que a traziam em letra redonda nas décimas dos folhetins e os noticiaristas que a vinham sempre aclamando rainha dos bailes.
As minhas averiguações vieram aos seguintes resultados: Paula estava prometida a um fidalgo do Alentejo, seu primo segundo, e amava com quantas provas se justifica o amor, um conde. Este conde devia ser o sujeito mencionado no diálogo de Eufémia e Caetano, aquele fino amante que levou o frango assado com recheio dos suspiros da cozinheira. O conde pensava que a dedicação de Paula sem reserva lhe assegurava um casamento rico; ela, porém, do sacrifício reservara o que não podia dar nem tinha para dar - o coração.
Um indivíduo que por nome não perca requestou Paula, quando o conde a julgava mais avassalada e perdida de amor. Não sei se a comoveu com
Festões, grinaldas, passarinhos, frutos.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.