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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Amava ela Eleutério Romão?! Não amava, disse-o ela, e eu juro nas palavras de Teodora. O que ela amava era a liberdade; os anelos de sua alma ansiavam sôfregos um viver, que o temperamento lhe estava pedindo a gritos, gritos que a sociedade não escuta, não acredita e não perdoa, O que ela via em Eleutério era o homem já.desfigurado da repulsão primária; o homem aceitável como libertador de um seio que quer encher-se de perfumes, sem se dar em servidão ao homem que lhe vai descancelar os áditos do mundo. Assim é que muitas mulheres têm amado aqueles que as salvam; deste amor assim chamado por não haver mais elástico epíteto que dar à coisa é que surdem os irremediáveis infortúnios, os ódios irreconciliáveis e as afrontas que levantam as campas, encerram algozes e vítimas e ficam ainda de pé sobre as lousas infamadas, pregoando o opróbrio dos filhos gerados no crime e amaldiçoados na infâmia de suas mães... Colho as velas; que, neste rumo, ia varar em sensaboria encapotada em moralização: coisa duas vezes importuna.

Conseguira, neste tempo, a senhora de Ruivães que uma secular das Ursulinas entregasse uma carta à morgada, carta de esperanças, alento e consolações, com miúdas noticias dos padecimentos do filho em Ruivães e das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta prometendo à menina que, antes de cumpridos dois anos, os votos de todos se haviam de realizar diante de Deus, contanto que Teodora conservasse firmeza, coragem e constância.

- Dois anos! - disse entre si a morgada. - Esperar dois anos neste purgatório... Se Afonso me ama, porque não há-de vir já roubar-me deste cárcere? Dois anos! e viveria eu aqui tanto tempo à espera de não sei quê?! Eu cativa aqui dois anos, e ele em Lisboa a divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam menos arrastados; mas, privada dos prazeres que ele está gozando, esperar um futuro talvez duvidoso... é loucura! Quem me diz a mim que Afonso, neste espaço tamanho de tempo, se não apaixona por outra? Se ele me ama, como dizia, e a mãe me diz agora, quem nos impede de casarmos já? Se somos muito novos, lá virá ocasião de envelhecermos. Oque eu tenho, meu é já; ninguém mo rouba por eu casar contra vontade do conselho de família... Dois anos!

E, naquele dia e nos dias seguintes, Teodora, de cinco em cinco minutos, dizia: Dois anos! e ficava meditativa, até de novo exclamar: Dois anos! Respondeu a morgada à mãe de Afonso que a sua saúde se havia perdido na opressão e dissabores daquela vida, em que tão contrariada se via. Dizia mais que a precisão de se livrar de tal cativeiro a obrigaria a dar-se como esposa a um homem que ela não amasse. Queixava-se da ausência e silencio de Afonso e citava o namorado da sua amiga Libana como exemplo de rapazes apaixonados. Concluía desejando a Afonso todas as venturas deste mundo, enquanto ela se deliberava a experimentar todas as desgraças. A virtuosa de Ruivães, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se à sua capela, e longo tempo esteve em joelhos pedindo à Virgem que defendesse Teodora dos seus funestos instintos.

E, desde aquela hora, a mãe de Afonso, com quanta delicadeza de admoestação e brandura afectuosa pôde, desviou o filho de pensar em Teodora como futura companheira de sua vida. Afonso pedia instantemente explicações de tal mudança no espírito de sua mãe; e ela, podendo responder com o mais idóneo documento, que era a própria carta da morgada, dilatava as suas razões para mais tarde. E, ao mesmo tempo, escrevendo a Teodora, conjurava-a a ter mão de sua imprudente mocidade, descrevialhe o quase nada que conhecia do mundo, citava-a para diante da virtuosa memória de sua mãe; mas não lhe falou de Afonso.

A morgada não deu peso a tal omissão, nem achou razoável o sentimentalismo da fidalga; irritou-se mais por lhe não responderem ao artigo essencial da sua carta, que era apressar-se o casamento, visto que a sua saúde corria perigo.

Eleutério, cada vez mais assíduo na grade, já tinha uma outra judia cor de alecrim, outras pantalonas apolainadas, um colete de veludo escarlate e um cavalo de marca,.29 aparelhado a primor e obediente ao freio para todo o género de upas e galões. Teodora gostou disto, porque um dos seus anelos era a equitação: sonhara-se muitas vezes cavalgando selim raso, trajada em amazona, com as dobras do amplo véu ondulando no frenesi de desapoderado galope. O cavalo - faz pejo dizê-lo!- foi muito no determinarse a morgada a responder categoricamente às tímidas perguntas do primo Eleutério.

Assim foi. Ajeitado o ensejo, a menina, balbuciando com artificial pudor, disse queestava disposta a tomar estado, visto que a idade lho permitia. Eleutério, perplexo de ouvi-la, sem ousar supor-se o noivo escolhido, sopesava o bofe direito cuidando que estala ali o coração; quando, porém, a prima lhe disse: "Faço aquilo que meu tio Romão quiser... Caso com quem ele determinar...", Eleutério expediu um ai de desafogo e riuse alvarmente, esfregando as mãos.

Por amor deste sucesso vim eu a desenganar-me de que a natureza anda muito abastardada e contrafeita no teatro e nos romances. Casos análogos daquele tenho-os visto remedados com trejeitos e exclamações inversas da lógica da natureza. No romance, todos os Artures ou Ernestos, ao saberem que são amados, empalidecem, suam, ajoelham, declamam, quando não podem oscular com frementes soluços a mão da mulher amada. No teatro, em lances idênticos, tenho visto desmaiar sujeitos, que matariam a futura sogra e o próprio pai se lhe atravancassem o caminho da felicidade.

Rir às cascalhadas é que eu ainda não vi amante ditoso nenhum no instante solene de se crer amado. Eleutério Romão dos Santos é o primeiro modelo que a natureza me oferece.

(continua...)

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