Por Lima Barreto (1921)
Os colégios militares são sobremodo um atentado ao nosso regime democrático; é preciso extingui-los e aproveitar os respectivos professores e material, na instrução da maioria.
Pelo menos, a República devia fazer isso.
Correio da Noite, Rio, 13-3-1915
A FILOMENA
Desde o carnaval, que as crianças, as moças, os barbados, as velhas de todas as condições sociais, não falam senão na Filomena.
Tivemos ocasião de ir ouvir tão conspícua pessoa que nos recebeu prazenteiramente, em sua choça lá pelas bandas de Campo Grande.
Filomena, apesar do que toda a gente pode julgar, não é lá muito velha, não conheceu d. João VI, nem Pedro I; e, conquanto seja preta, nunca foi escrava.
– Que me diz, da. Filomena, dessas cantigas que andam por aí com o seu nome?
– Tenho ouvido falar nelas, meu filho ; mas nada tenho a ver com Dudu73; não sou íntima dele, não o conheço quase. Meu marido foi soldado e certa vez, quando ele era ministro, fui procurá-lo, mas ele, não deixou que eu entrasse no salão de espera.
– Mas a que atribui essa mistura de seu nome com as coisas dele?
– Ouve, meu filho; quero crer que seja devido ao fato de já ter sido empregada da rainha-mãe; mas, quando o fui, não conhecia bem ele, conhecia-lhe a concunhada e os cunhados e com eles me dei muito bem.
– Pretende protestar?
– Qual, meu filho! Eu não protesto. Não digo nada. Estou até colecionando as cantigas para publicar um volume.
– Não tem medo do Bicudo?
– Quem é esse homem?
– Aquele senador da roça que, em São Paulo, prendeu um vendedor das Últimas d’Ele.
– Não conheço; mas agora os tempos são outros e nos aproveitam.
– Deve fazer umas quadrinhas novas... Porque não faz?
– Fiz já.
– Pode recitar?
– Pois não.
– Diga lá.
– Lá vai:
Se eu fosse como tu,
Punha uma máscara
Na cara do Dudu
– Está bem.
Despedimo-nos, agradecendo muito.
Careta, Rio, 10-4-1915.
CARTA DE UM PAI DE FAMÍLIA AO DOUTOR CHEFE DE POLÍCIA
Senhor doutor chefe de Polícia. Permita vossa excelência que um elho chefe de família, pai de três filhas moças e dois rapazes, se dirija a vossa excelência, no intuito de esclarecer o espírito de vossa excelência que parece só ver as coisas por uma face só.
“Moro excelentíssimo doutor, há quase trinta anos na Rua Joaquim Silva, aí nas fraldas de Santa Teresa, rua plácida, sossegada, que vossa excelência talvez não conheça como bom chefe de polícia que é do Rio de Janeiro, mas natural da Bahia.75
“Não digo tal coisa para censurar vossa excelência, mas simplesmente para lembrar que os antigos chefes de polícia da minha leal e heróica cidade conheciam todos os seus meandros, becos, bibocas, etc. Os antecessores de vossa excelência, como o Vidigal, o dos granadeiros, e o Aragão, o do sino de recolher honestas, conheciam o Rio como qualquer malandro; mas, desde que inventaram a polícia científica, por sinal que fez aumentar os crimes misteriosos, desde então, dizia eu, os chefes ficaram dispensados de conhecer o Rio de Janeiro, inclusive vossa excelência.
“Moro, ia dizendo, na Rua Joaquim Silva há mais de vinte anos, com minha família, em casa própria, que foi a do pai de minha mulher e é agora nossa. Confesso a vossa excelência que me casei, contando (é preciso não esquecer a mulher) com a casa, pois naquele tempo era amanuense e sem a casa não poderia constituir família. De uma casa dessas, boa, sólida, ampla, arejada, cheia de recordações de família, a gente, há de concordar vossa excelência, não se muda assim. Ela faz parte da família, se não é a própria família. vossa excelência que é lido em direito, será certamente lido em sociólogos e sabe perfeitamente que quase todos cogitam na posse normal do domicílio familiar, coisa que consegui graças à minha prudência e às economias do madeireiro português, pai da minha mulher. Não posso, nem me devo mudar, isto diante de todas as leis que não são votadas pelo congresso.
“Acontece excelência, que de uns dias a esta parte vieram para a minha vizinhança umas ‘moças’ que não são bem parecidas com as minhas filhas nem com as primas delas. Eu conheço mal essas coisas da vida do Rio, e nem por isso quero ser chefe de polícia; e andei indagando de que pessoas se tratava e soube que eram ‘meninas’, moradoras nas ruas novas, que a polícia estava tocando de lá, por causa das famílias.
“Mas, doutor, eu não tenho também família? Porque é que só as famílias daquelas ruas não podem ter semelhante vizinhança e eu posso?
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.