Por Coelho Neto (1890)
— É verdade. No Campo estava um quiosque aberto; o romancista aproximou-se e, falando, com intimidade, ao homem, pediu uma vela. Encostados às grades do parque dois sujeitos discutiam chuchurreando o café em canecas de louça e uma negra, andrajosa e trôpega, com o peito ossudo descoberto, vacilando tropeçar na barra enlameada do vestido, com a baba a escorrer-lhe da boca, ia de um a outro mastigando palavras, atirando gestos moles, risonha, de olhos quase fechados.
— Vamos?
— Vamos. Seguiram. À porta da casa o romancista despediu-se:
— Então até amanhã.
— Sim, até amanhã, no Cailtau, às três, para combinarmos.
— Ó diabo! — exclamou Ruy Vaz procurando e escarafunchando nos bolsos.
— Que é?
— Não comprei aldraba.
— Que aldraba?
— Uma bomba. É com uma bomba que bato à porta, porque o meu senhorio entende que devo recolher-me às oito da noite e ordena aos criados que me deixem ficar à porta até a hora d'alva, batendo. Com o estouro da bomba no saguão é pronto: acodem logo. Hoje já sei que vou ver a aurora. Até amanhã, ou antes: até logo.
— Até logo! E Anselmo ia seguindo quando ouviu estrondo formidável como de um desabamento; voltou-se assustado: Que é isso?
— Estou acordando o Cérbero. E, com uma grande pedra, o romancista batia fazendo estremecer o pesado portão. O estudante já ia longe e ainda ouvia as tremendas pancadas que ressoavam longamente no silêncio.
Cabisbaixo, cigarro à boca, Anselmo caminhava a passo, contente daquele triunfo. Abrira-se-lhe, enfim, a porta ebúrnea do ideal, ia entrar na ventura, na grande
vida espiritual, entre artistas: poetas e prosadores, estatuários, músicos, pintores, a legião augusta dos que eternizam o sonho... Sombras andavam-lhe em torno — rapazes e raparigas, lá iam em surdo deslize, passavam, perdiam-se. Bem os conhecia, eram eles: Rodolfe, Marcel, Coline, Schaunard, ouvia o riso de Mimi, a tosse de Francine, o alarido alegre do café Momus. E seguia alheado do real, através do silêncio, raro em raro encontrando um soldado, um ébrio aos cambaleios ou retardatários que recolhiam sonolentos.
O luar, sempre branco, caía sobre os telhados e, quando ele chegou à casa, mergulhada numa grande paz de sono, subiu ao sótão, abriu largamente a janela e, alongando os olhos, pôs-se a contemplar as fitas de luzes que se estendiam como círios de uma procissão interminável que andasse pela cidade em penitência. Mas o sonho foi-se tornando maior, em grandioso crescendo: era a festa triunfal da sua vitória: a cidade esplendia, o céu irradiava. E, ouvindo o confuso rumor que chegava de longe, na aragem, como a ressonar da cidade imensa, dormindo sob o lençol do luar, parecia-lhe o marulho longínquo dos que vinham, com luzes, arrancá-lo daquela mansarda para a apoteose.
Galos cantaram. Lançou um último olhar à cidade e ao céu e recolheu-se.
Embaixo, no silêncio da casa, um relógio lento bateu três horas.
CAPÍTULO III
Três dias depois já estavam instalados no segundo andar da casa da rua Formosa, com independência e ordem.
A sala, recebendo luz por duas largas janelas da frente e por uma outra que abria sobre o telhado vizinho, era clara e alegre, com um papel idílico reproduzindo, de alto a baixo, nas quatro faces, o encontro de amor de um pajem e de uma dama entre ramos de árvores sangüíneas, à beira de uma lagoa muito azul onde nadava um cisne, tudo isso sobre um fundo de campos perdidos com uma choupana e rebanhos. Era romântico.
Ruy Vaz e Anselmo tomaram a sala; Toledo, concentrado e casmurro, escolhendo a alcova recôndita da sala de jantar, arranjara, diante da cama esguia, a sua mesa de trabalho, sóbria e honesta, com os seus graves compêndios de Anatomia, vários ossos, um castiçal de louça, o tinteiro, o pote de fumo e, na parede caiada, muito juntos, os retratos do pai e da mãe encimados por uma gravura na qual se via Beethoven, de olhos extasiados, sonhando entre pautas e anjos com harpas e flautas, a face na mão, o cotovelo sobre o teclado de um órgão.
A sala tinha aspecto. As duas mesas, fronteiriças, um canapé, repousando sobre surrado tapete onde havia estampada uma cena de serralho, a estante alta, de Anselmo, atochada de livros, duas outras de Ruy Vaz numa desordem de brochuras de vários tamanhos, quatro cadeiras e, ao centro, larga e convidativa cadeira de balanço com estribo para os pés.
A Barricada teve o lugar de honra na parede entre dois originais preciosos representando um burgo-mestre e um pescador, telas que o romancista, com muito acatamento, atribuía a Rembrandt pelo tom obscuro que cercava as cabeças serenas dos flamengos. E um velho relógio acompanhava o trabalho com o seu tictac monótono, quando não caía em silêncio à falta de corda.
Falou-se em uma empanada para as janelas a fim de que a luz não entrasse tão vívida na sala, mas razões fortes de ordem econômica fizeram com que desistissem de tal idéia. Na alcova emparelhavam-se duas camas e, entre elas, o lavatório de vinhático, uma maravilha! Na sala de jantar a mesa de pinho solitária e lustrosa. À hora das refeições cada qual tomava a sua cadeira e levava-a de rastos pelo corredor, onde havia um socavão para jornais e ratos.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.