Por Machado de Assis (1858)
E deste modo fala: “Grave caso
Este é, senhores; mas as vossas luzes
Tudo podem vencer. Em meu conceito
Recusar não podemos o protesto,
E muito embora formidável seja
O prelado, não creio que devamos
Sem amparo deixar as leis do Estado.
Nem poupar desta vez um grande golpe
No atrevido pastor”. Com todo o zelo
Examinado o singular assunto,
O Senado resolve em pouco tempo
Que ao regedor supremo da cidade
Os papéis se remetam com protesto
Do povo, e petição em nome dele
Por que anulada seja sem demora
A excomunhão, e feito este decreto
Voam dali aos paços do Alvarenga.
XVII
O alcaide-mor, que os meios estudava
De praticar no esmorecido povo,
Com a aguda lanceta do Senado,
Uma sangria nova, cortesmente
Os faz sentar e prazenteiro os ouve,
E depois de os ouvir com grande pausa,
A petição da Câmara recebe
Sem muita hesitação; mas porque seja
O caso novo, e caminhar convenha
Sem da igreja ferir os santos foros,
Manda o governador que se convidem
Os diversos teólogos da terra,
O reitor do Colégio, o Dom Abade,
O guardião dos filhos de Francisco,
Frei Basílio, prior dos Carmelitas,
E alguns licenciados de mão cheia,
Que o nó desfaçam deste ponto escuro.
CANTO VII
I
A Preguiça, no entanto, conduzira
Aos macios colchões o grande Almada,
E um sono amigo lhe fechara os olhos,
Enquanto os ilustríssimos amigos
Todos em volta do escrivão Cardoso,
Pela décima vez, na sala próxima,
Da excomunhão a narrativa escutam,
E com ditos de mofa, e com risadas,
A vitória celebram, na esperança
De que o prelado os ouça e lhes aceite
Agradecido esta homenagem nova.
II
Eis que um sonho, agitando as asas brancas
Leve espalha no cérebro do Almada,[19]
Como gotas de chuva rara e fina,
Um só sutil de mágicas patranhas.
Sonha... Em que há de sonhar o grão prelado?
Vê no espaço um ginete alto e possante
À solta galopando, e logo nele,
Elmo de ouro, armadura de aço fino,
A briosa figura de um guerreiro.
Tenta irritado o indômito cavalo
O cavaleiro sacudir na terra,
Mastiga o freio empina-se, escouceia,
Voa de norte a sul, de leste a oeste,
Ora, a pata veloz roça nos mares,
Ora, igual ao tufão, descose as nuvens,
Mas o galhardo cavaleiro as rédeas
Coas fortes mãos encurta, e pouco a pouco
O ríspido quadrúpede sossega
E pára no ar. No rosto do guerreiro
Vê as próprias feições o grande Almada,
Olhos, cabelos, boca, faces, tudo,
Tudo é dele. Ó prodígio! Voz solene
Do ponto mais recôndito do espaço,
Onde estrela não há, não há planeta,
Estas palavras singulares solta:
“O bravo cavaleiro és tu, prelado,
E o domado corcel é o teu rebanho,
Que embalde morde o freio e se rebela
Contra ti que hás vencido el-rei e o povo,
Tornando em cinzas o atrevido Mustre.”
III
Deste agradável sonho consolado,
Abre o pastor os olhos, vira o corpo,
E outra vez adormece. Novo quadro
E diverso lhe pinta a fantasia.
Vê-se diante de provida mesa,
À direita do papa, e come e bebe
De cem bispos servido. Entusiasmado
Com as finezas de Alexandre Sétimo,
O prelado um discurso principia
Depois de haver tossido quatro vezes.
Os olhos fita num painel que estava
Na fronteira parede; a mão do artista
O belo e forte arcanjo debuxara
Que a Satanás venceu; às plantas suas
Jaz o eterno rebelde. Entrava apenas
No magnífico exórdio do discurso
O valoroso Almada, quando a tela
A tremer começou; subitamente
O brilhante Miguel desaparece,
E o diabo que ali prostrado fora
Toma a figura do execrando Mustre,
Levanta-se do chão; e com desprezo,
E com gesto de escárnio e de ameaça,
Os turvos olhos no prelado fita
E a devassa fatal nas mãos sustenta.
Pasmam do caso os circunstantes todos,
Enquanto o forte Almada tropeçando
Nas cadeiras, nos vasos, nas cortinas,
Foge aterrado, uma janela busca,
Dela, sem ver a altura, se despenha,
E de abismo em abismo vai rolando
Até cair da própria cama abaixo.
IV
Ao som da triste queda acorrem todos.
O mísero pastor, aos pés do leito,
Vagos olhos estende aos seus amigos,
Como se inda na mente abraseada
(continua...)
ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.