Por Eça de Queirós (1875)
Amaro fugiu para casa, contendo-se para não soluçar alto pelas ruas. Disse logo à Escolástica que ia partir nessa noite para Lisboa. O tio Cruz devia mandar-lhe um cavalo, para ir tomar o comboio a Chão de Maçãs.
- Eu não tenho senão o dinheiro que é necessário para a jornada. Mas o que aí me fica em lençóis e toalhas é para você...
A Escolástica, chorando de perder o senhor pároco, quis beijar-lhe a mão por tanta generosidade: ofereceu-se para fazer a mala...
- Eu mesmo a arranjo, Escolástica, não se incomode.
Fechou-se no quarto. A Escolástica, ainda choramigando, foi logo recolher, examinar as poucas roupas que estavam pelos armários. Mas Amaro daí a pouco gritou por ela: diante da janela uma harpa e uma rabeca, em desafinação, tocavam a valsa dos Dois mundos.
- Dê um tostão a esses homens, disse o padre furioso. E diga-lhes que vão pro inferno... Que está aqui gente doente!
E até às cinco horas a Escolástica não tomou a sentir rumor no quarto.
Quando o moço do Cruz veio com o cavalo, pensando que o senhor pároco adormecera, ela foilhe bater devagarinho à porta do quarto, choramigando já da despedida próxima. Ele abriu logo. Estava de capote aos ombros; no meio do quarto pronta e acorreada a mala de lona que devia ir à garupa da égua. Deu-lhe um maço de cartas para ir entregar nessa noite à Sra. D. Maria da Assunção, ao padre Silvério e a Natário: e ia descer, entre os prantos da mulher, quando sentiu na escada um ruído conhecido de muleta, e o tio Esguelhas apareceu muito comovido.
- Entre, tio Esguelhas, entre.
O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um momento:
- Vossa senhoria há-de desculpar, mas... Tinha-me esquecido de todo, com os desgostos que tenho passado. Já há tempo que achei no quarto isto, e pensei que...
E meteu na mão de Amaro um brinco de ouro. Ele reconheceu-o logo: era de Amélia. Muito tempo ela o procurara debalde; soltara-se decerto nalguma manhã de amor, sobre a enxerga do sineiro. Amaro então, sufocado, abraçou o tio Esguelhas.
- Adeus! adeus, Escolástica. Lembrem-se por cá de mim. Dê lembranças ao Matias, tio Esguelhas...
O moço afivelou a maleta ao selim, e Amaro partiu, deixando a Escolástica e o tio Esguelhas a chorar, ambos à porta.
Mas depois de ter passado os açudes, ao pé duma volta da estrada, teve de apear para compor o estribo: e ia montar, quando apareceram dobrando o muro o doutor Godinho, o secretário-geral e o senhor administrador do concelho, muito amigos agora, e que vinham, depois do passeio, recolhendo para a cidade. Pararam logo a falar ao senhor pároco - admirando-se de o ver ali, de maleta na garupa, com ares de jornada...
- É verdade, disse, vou para Lisboa!
O antigo Bibi e o administrador suspiraram invejando-lhe a felicidade. - Mas quando o pároco falou da irmã moribunda, afligiram-se com polidez: e o senhor administrador disse:
- Deve estar muito sentido, compreendo... De mais a mais essa outra desgraça na casa daquelas senhoras suas amigas... A pobre Ameliazinha, morta assim de repente...
O antigo Bibi exclamou:
- O quê? A Ameliazinha, aquela bonita que morava na Rua da Misericórdia? Morreu?
O doutor Godinho também o ignorava, e pareceu consternado.
O senhor administrador soubera-o pela sua criada, que o ouvira da Dionísia. Dizia-se que fora um aneurisma.
- Pois senhor pároco, exclamou Bibi, desculpe se aflijo as suas crenças respeitáveis, que são as minhas de resto... Mas Deus cometeu um verdadeiro crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da cidade! Que olhos, senhores! E depois com aquele picantezinho da virtude...
Então, num tom de pêsames, todos lamentaram aquele golpe que devia ter afetado tanto o senhor pároco.
Ele disse muito grave:
- Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com as suas boas qualidades, devia fazer, sem dúvida, uma esposa modelo... Senti-o muito!
Apertou silenciosamente as mãos em redor - e enquanto os cavalheiros recolhiam à cidade, o padre Amaro foi trotando pela estrada, que já escurecia, para a estação de Chão de Maçãs.
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(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.