Por Eça de Queirós (1875)
Então a Carlota apareceu; e ficou atônita ao reconhecer Amaro, sem passar da cancela, com a testa franzida, a sua bela face muito grave.
- A criança? exclamou Amaro.
Depois dum momento, ela respondeu, sem perturbação:
- Nem me fale nisso, que me tem dado um desgosto... Ontem mesmo, duas horas depois de ter chegado... O pobre anjinho começa a fazer-se roxo, e ali me morreu debaixo dos olhos...
- Mente! gritou Amaro. Quero ver.
- Entre, senhor, se quer ver.
- Mas que lhe disse eu ontem, mulher?
- Que quer, senhor? Morreu. Veja...
Tinha aberto a porta, muito simplesmente, sem cólera nem receio. Amaro entreviu num relance, ao pé da chaminé, um berço coberto com um saiote escarlate.
Sem uma palavra voltou as costas, atirou-se para cima do cavalo. Mas a mulher, muito loquaz subitamente, rompeu a dizer que tinha ido justamente à aldeia para encomendar um caixãozinho decente... Como vira que era filho de pessoa de bem, não o quisera enterrar embrulhado num trapo. Mas enfim, como o senhor ali estava, parecia-lhe razoável que desse algum dinheiro para a despesa... Uns dois milréis que fossem.
Amaro considerou-a um momento com um desejo brutal de a esganar; por fim meteu-lhe o dinheiro na mão. E ia trotando no carreiro, quando a sentiu ainda correndo, gritando pst! pst! A Carlota queria-lhe restituir o capote que ele emprestara na véspera: tinha feito muito bom serviço, que a criança chegara quente como um rojãozinho... Infelizmente...
Amaro já a não escutava, esporeando furiosamente a ilharga da cavalgadura.
Na cidade, depois de apear à porta do Cruz, não entrou em casa. Foi direito ao paço do bispo. Tinha agora uma idéia só: era deixar aquela cidade maldita, não ver mais as faces das devotas, nem a fachada odiosa da Sé...
Foi só ao subir a larga escadaria de pedra do paço, que lhe lembrou com inquietação o que o Libaninho dissera na véspera da indignação do senhor vigário-geral, da denúncia obscura... Mas a afabilidade do padre Saldanha, o confidente do paço, que o introduziu logo na livraria de sua excelência, tranqüilizou-o. O senhor vigário-geral foi muito amável. Estranhou o ar pálido e perturbado do senhor pároco!...
- É que tenho um grande desgosto, senhor vigário-geral. Minha irmã está a morrer em Lisboa. E venho pedir a vossa excelência licença para lá ir, por uns dias...
O senhor vigário-geral consternou-se com bondade.
- Decerto, consinto... Ah! somos todos passageiros forçados da barca de Caronte .
Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat Et ferruginea subvectat corpora cymba.
Ninguém lhe escapa... Sinto, sinto... Não me esquecerei de a recomendar nas minhas orações...
E muito metódico, sua excelência tomou uma nota a lápis.
Amaro, ao sair do paço, foi direito à Sé. Fechou-se na sacristia, a essa hora deserta: e depois de pensar muito tempo com a cabeça entre os punhos, escreveu ao cônego Dias:
"Meu caro padre-mestre. - Treme-me a mão ao escrever estas linhas. A infeliz morreu. Eu não posso, bem vê, e vou-me embora, porque, se aqui ficasse, estalava-me o coração. Sua excelentíssima irmã lá estará tratando do enterro... Eu, como compreende, não posso. Muito lhe agradeço tudo... Até um dia, se Deus quiser que nos tomemos a ver. Por mim conto ir para longe, para alguma pobre paróquia de pastores, acabar meus dias nas lágrimas, na meditação e na penitência. Console como puder a desgraçada mãe. Nunca me esquecerei do que lhe devo, enquanto tiver um sopro de vida. E adeus, que nem sei onde tenho a cabeça. - Seu amigo do C. - Amaro Vieira."
''P.S. - A criança morreu também, já se enterrou''.
•••
Fechou a carta com uma obreia preta; e depois de arranjar os seus papéis, foi abrir o grande portão chapeado de ferro, olhar um momento o pátio, o barracão, a casa do sineiro... As névoas, as primeiras chuvas já davam àquele recanto da Sé o seu ar lúgubre de Inverno. Adiantou-se devagar, sob o silêncio triste dos altos contrafortes, espreitou à vidraça da cozinha do tio Esguelhas: ele lá estava, sentado à chaminé, com o cachimbo na boca, cuspilhando tristemente para as cinzas. Amaro bateu de leve nos vidros - e quando o sineiro abriu a porta, aquele interior conhecido, rapidamente entrevisto, a cortina da alcova da Totó, a escada que ia para o quarto, agitaram o pároco de tantas recordações e de saudades tão bruscas, que não pôde falar um momento, com a garganta tomada de soluços.
- Venho-lhe dizer adeus, tio Esguelhas, murmurou por fim. Vou a Lisboa, tenho minha irmã a morrer...
E acrescentou com os beiços trêmulos dum choro que ia romper:
- Todas as desgraças vêm juntas. Sabe, a pobre Ameliazinha lá morreu de repente...
O sineiro emudeceu, assombrado.
- Adeus, tio Esguelhas. Dê cá a mão, tio Esguelhas. Adeus...
- Adeus, senhor pároco, adeus! disse o velho com os olhos arrasados de água.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.