Por Euclides da Cunha (1902)
' Seccion Buenos-Aires de la unión internacional de los amigos del imperio del Brasil' comunicando-nos, por ordem da seção executiva em Nova York, que a referida União tem ainda uma reserva de não menos 15 mil homens — só no Estado da Bahia — para reforçar em caso de necessidade o exército de fanáticos; além de 100 mil em vários Estados do Norte do Brasil e mais 67 mil em certos pontos dos Estados Unidos da América do Norte, prontos a sair em qualquer momento para as costas do ex-Império, todos muito bem armados e preparados para a guerra. Também temos, ajuntam as missivas, armas dos mais modernos sistemas, munições e dinheiro em abundância."
De uma redação, caligrafia e ortografia corretas, estas enigmáticas comunicações trazem à sua frente a mesma inscrição que as subscreve, escrita com tinta que faz recordar a violácea cor dos mortos, destacando-se as maiúsculas em vermelho, na vermelha cor do sangue.
Ante o quadro formidável de homens e armas que nos oferecem os misteriosos amigos do Império, de forma não menos misteriosa, não sabemos se pensar em uma daquelas terríveis associações que forjam nas trevas seus planos de destruição ou em alguns cavalheiros dados à mistificação do próximo.
Entretanto, pelo que possa haver no fundo de tudo isto, é que fazemos constar e acusamos recebimento das repetidas missivas.
Acreditava-se. A quarta expedição ilhara-se de todo, no território conflagrado, a pique de uma catástrofe. Diziam-no insuspeitos informes. Só do município de Itapicuru, garantia-se, haviam partido 3 mil fanáticos para Canudos, conduzidos por um padre que, aberrando dos princípios ortodoxos, lá se ia comungar das tolices abstrusas do cismático. Pela Barroca passavam centenares de quadrilheiros armados, seguindo o mesmo rumo. Citavam-se nomes de novos cabecilhas. Apelidos funambulescos, como o dos chouans: Pedro, o Invisível, José Gamo, Caco de Ouro, e outros.
Agravando estas conjeturas vinham notícias verdadeiras. Os sertanejos dispartiam pelo sertão em algaras atrevidas: atacaram o termo de Mirandela, guiados por Antônio Fogueteiro; investiram, tomaram e saquearam a vila de Santana do Brejo; irradiavam para toda a banda. Alargavam o âmbito da campanha, revelando mesmo lineamentos firmes de estratégia segura. Além do arraial duas novas posições de primeira ordem e defensáveis estavam guarnecidas: as vertentes caóticas do Caipã e as cordas de cerros em torno da Várzea da Ema. Desbordando de Canudos, a insurreição espraiava-se desta maneira pelos lados de um triângulo enorme, em que podiam inscrever-se 50 mil baionetas. Alastrava-se.
Os comboios que partiam de Monte Santo, ainda que reforçados, não por batalhões mas por brigadas, tinham viagem acidentada, tolhida de constantes assaltos. Atingido o Aracati, era indispensável que viessem de Canudos dois ou três batalhões a protegê-los. O sinistro trecho de estrada entre o rancho do Vigário e as Baixas, tornara-se o pavor dos mais provados valentes. Era o lugar clássico do estouro das boiadas e da dispersão dos cargueiros, espantados pelos tiroteios vivos e atropelando pelotões inteiros no recuar precípite da fuga.
E nesses recontros sucessivos, adrede feitos à pertubação das marchas, começara-se a lobrigar, por fim, uma variante do jagunço, auxiliando-o, indiretamente, com outros intuitos. Distinguiam-se entre os claros das galhadas rarefeitas, passando, céleres, no vertiginoso pervagar das guerrilhas, brilhos de botões de fardas, loivos rubros de calças carmesins...
O desertor faminto atacava os antigos companheiros.
Era um lastimável sintoma, completando com um outro caráter a campanha, cuja feição dia a dia se agravava num episodear extremado dos sucessos mais triviais.
Os soldados enfermos, em perene contato com o povo, que os conversava, tinham-se, ademais, constituído rudes cronistas dos acontecimentos e confirmavam-nos mercê da forma imaginosa por que a própria ingenuidade lhes ditava os casos, verídicos na essência, mas deformados de exageros, que narravam. Urdiam-se estranhos episódios. O jagunço começou a aparecer como um ente à parte, teratológico e monstruoso, meio homem e meio trasgo; violando as leis biológicas, no estadear resistências inconceptíveis; arrojando-se, nunca visto, intangível, sobre o adversário; deslizando, invisível, pela caatinga, como as cobras; resvalando ou tombando pelos despenhadeiros fundos, como espectro; mais leve que a espingarda que arrastava; e magro, seco, fantástico, diluindo-se em duende, pesando menos que uma criança, tendo a pele bronzeada colada sobre os ossos, áspera como a epiderme das múmias ...
A imaginação popular, daí por diante, delirava na ebriez dos casos estupendos, apontoados de fantasias.
Alguns eram rápidos, espelhando incisivamente a energia inamoldável daqueles caçadores de exércitos.
"Viva o Bom Jesus !"
Numa das refregas subseqüentes ao assalto, ficara prisioneiro um curiboca ainda moço que a todas as perguntas respondia automaticamente, com indiferença altiva:
"Sei não !"
Perguntaram-lhe por fim como queria morrer.
"De tiro !"
"Pois há de ser a faca !" contraveio, terrivelmente, o soldado.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.