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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Tinha sobre o Breviário um pequeno crucifixo. E contemplava-o com amor, abismava-se enternecido na certeza da sua força, contra a qual era bem pouca a ciência do doutor e todas as vaidades da razão! Filosofias, idéias, glórias profanas, gerações e impérios passam: são como os suspiros efêmeros do esforço humano: só ela permanece e permanecerá, a cruz - esperança dos homens, confiança dos desesperados, amparo dos frágeis, asilo dos vencidos, força maior da humanidade: crux triumphus adversus demonios, crux oppugnatorum murus...

Então o doutor entrou, muito escarlate, vibrante daquela tremenda batalha que estava dando lá dentro à morte; vinha buscar outro frasco; mas abriu a janela, sem uma palavra, para respirar um momento uma golfada de ar fresco.

- Como vai ela? perguntou o abade.

- Mal, disse o doutor, saindo.

O abade, então, ajoelhou, balbuciou a oração de S. Fulgêncio:

- Senhor, dá-lhe primeiro a paciência, dá-lhe depois a misericórdia...

E ali ficou, com a face nas mãos, apoiado à beira da mesa.

A um rumor de passos na sala ergueu a cabeça. Era a Dionísia, que suspirava, recolhendo todos os guardanapos que encontrava nas gavetas do aparador. - Então, senhora, então? perguntou-lhe o abade.

- Ai, senhor abade, está perdidinha... Depois das convulsões que foram de arrepiar, caiu naquele sono, que é o sono da morte...

E olhando para todos os cantos como para se assegurar da solidão, disse muito excitada:

- Eu não quis dizer nada... Que o senhor doutor tem um gênio!... Mas sangrar a rapariga naquele estado é querer matá-la... Que ela tinha perdido pouco sangue, é verdade... Mas nunca se sangra ninguém em semelhante momento. Nunca, nunca!

- O senhor doutor é homem de muita ciência...

- Pode ter a ciência que quiser... Eu também não sou nenhuma tola... Tenho vinte anos de experiência... Nunca me morreu nenhuma nas mãos, senhor abade... Sangrar em convulsões? Até causa horror!...

Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado a criaturinha. Até lhe quisera administrar clorofórmio...

Mas a voz do doutor Gouveia berrou por ela do fundo do corredor - e a matrona abalou, com o seu molho de guardanapos.

O medonho relógio, com a sua coruja pensativa, bateu as duas horas, depois as três... O abade, agora, cedia a espaços a uma fadiga de velho, cerrando um momento as pálpebras. Mas resistia bruscamente: ia respirar o ar pesado da noite, olhar aquela treva de toda a aldeia; e voltava a sentar-se, a murmurar, com a cabeça baixa, as mãos postas sobre o Breviário:

- Senhor, volta os teus olhos misericordiosos para aquele leito de agonia...

Foi então Gertrudes que apareceu comovida. O senhor doutor mandara-a abaixo acordar o moço para pôr a égua ao cabriolé.

- Ai, senhor abade, pobre criaturinha! Ia tão bem, e de repente isto... Que foi por lhe tirarem o filho... Eu não sei quem é o pai, mas o que sei é que nisto tudo anda um pecado e um crime!...

O abade não respondeu, orando baixo pelo padre Amaro.

O doutor então entrou com o seu estojo na mão:

- Se quiser, abade, pode ir, disse.

Mas o abade não se apressava, olhando o doutor, com uma pergunta a bailar-lhe nos lábios entreabertos, e retendo-a por timidez: enfim, não se conteve, e num tom de medo: - Fez-se tudo, não há remédio, doutor?

- Não.

- É que nós, doutor, não devemos aproximar-nos duma mulher em parto ilegítimo senão num caso extremo...

- Está num caso extremo, senhor abade, disse o doutor, vestindo já o seu grande casacão.

O abade então recolheu o Breviário, a cruz - mas antes de sair, julgando do seu dever de sacerdote pôr diante do médico racionalista a certeza da eternidade mística que se desprende do momento da morte, murmurou ainda:

- É neste instante que se sente o terror de Deus, o vão do orgulho humano...

O doutor não respondeu, ocupado a afivelar o seu estojo.

O abade saiu - mas, já no meio do corredor, voltou ainda, e falando com inquietação:

- O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois dos socorros da religião, os moribundos voltarem a si de repente, por uma graça especial... A presença do médico então pode ser útil...

- Eu ainda não vou, ainda não vou, disse o doutor, sorrindo involuntariamente de ver a presença da Medicina reclamada para auxiliar a eficácia da Graça.

Desceu, a ver se estava pronto o cabriolé.

Quando voltou ao quarto de Amélia, a Dionísia e a Gertrudes, de rojos ao lado da cama, rezavam. O leito, todo o quarto estava revolvido como um campo de batalha. As duas velas consumidas extinguiam-se. Amélia estava imóvel, com os braços hirtos, as mãos crispadas duma dor de púrpura escura - e a mesma cor mais arroxeada cobria-lhe a face rígida.

E debruçado sobre ela, com o crucifixo na mão, o abade dizia ainda, numa voz de angústia:

- Jesu, Jesu, Jesu! Lembra-te da graça de Deus! Tem fé na misericórdia divina! Arrepende-te no seio do Senhor! Jesu, Jesu, Jesu!

(continua...)

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