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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

O abade tornou a levar as mãos á cabeça.

- Escusa de ir mais longe, abade. Veja a Igreja em Portugal. É grato observar-lhe o estado de decadência...

Pintou-lho a largos traços, de pé, com o seu frasco na mão. A Igreja fora a Nação; hoje era uma minoria tolerada e protegida pelo Estado. Dominara nos tribunais, nos conselhos da Coroa, na fazenda, na armada, fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da maioria tinha mais poder que todo o clero do reino. Fora a ciência no país; hoje tudo o que sabia era algum latim macarrônico. Fora rica, tinha possuído no campo distritos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje dependia para o seu triste pão diário do ministro da Justiça, e pedia esmola à porta das capelas. Recrutara-se entre a nobreza, entre os melhores do reino; e hoje, para reunir um pessoal, via-se no embaraço e tinha de o ir buscar aos enjeitados da Misericórdia. Fora a depositária da tradição nacional, do ideal coletivo da pátria; e hoje, sem comunicação com o pensamento nacional (se é que o há) era uma estrangeira, uma cidadã de Roma, recebendo de lá a lei e o espírito...

- Pois se está assim tão prostrada, mais uma razão para a amar! - disse o abade, erguendo-se escarlate.

Mas a Dionísia tinha de novo aparecido à porta.

- Que temos mais?

- A menina está-se a queixar dum peso na cabeça. Diz que sente faíscas diante dos olhos...

O doutor então imediatamente, sem uma palavra, seguiu a Dionísia. O abade, só, passeava pela sala ruminando toda uma argumentação erriçada de textos, de nomes formidáveis de teólogos, que ia fazer desabar sobre o doutor Gouveia. Mas, meia hora passou, a luz do candeeiro ia esmorecendo, e o doutor não voltou.

•••

Então aquele silêncio da casa, onde só o som dos seus passos sobre o soalho da sala punha uma nota viva, começou a impressionar o velho. Abriu a porta devagarinho, escutou; mas o quarto de Amélia era muito afastado, ao fim da casa, ao pé do terraço; não vinha de lá nem rumor nem luz. Recomeçou o seu passeio solitário na sala, numa tristeza indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir ver também a doente; mas o seu caráter, o pudor sacerdotal não lhe permitiam aproximar-se sequer duma mulher no leito, em trabalho de parto, a não ser que o perigo reclamasse os sacramentos. Outra hora mais longa, mais fúnebre, passou. Então, em pontas de pés, corando na escuridão daquela audácia, foi até ao meio do corredor: agora, aterrado, sentia no quarto de Amélia um ruído confuso e surdo de pés movendo-se vivamente no soalho, como numa luta. Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu à sala, e abrindo o seu Breviário começou a rezar. Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem rapidamente, numa carreira. Ouviu uma porta a distância bater. Depois o arrastar no soalho duma bacia de latão. E enfim o doutor apareceu. A sua figura fez empalidecer o abade: vinha sem gravata, com o colarinho espedaçado; os botões do colete tinham saltado; e os punhos da camisa, voltados para trás, estavam todos manchados de sangue.

- Alguma coisa, doutor?

O doutor não respondeu, procurando rapidamente pela sala o seu estojo, com a face animada dum calor de batalha. Ia já sair com o estojo, mas lembrando-lhe a pergunta ansiosa do abade:

- Tem convulsões, disse.

O abade então deteve-o à porta, e muito grave, muito digno:

- Doutor, se há perigo, peço-lhe que se lembre... É uma alma cristã em agonia, e eu estou aqui.

- Certamente, certamente...

O abade tomou a ficar só, esperando. Tudo dormia na Ricoça, D. Josefa, os caseiros, a quinta, os campos em redor. Na sala, um relógio de parede, enorme e sinistro, que tinha no mostrador a carranca do sol e em cima sobre o caixilho a figura esculpida em pau de uma coruja pensativa, um móvel de castelo antigo, bateu meia-noite, depois uma hora. O abade a cada momento ia até ao meio do corredor: era o mesmo rumor de pés numa luta; outras vezes um silêncio tenebroso. Voltava então para o seu Breviário. Meditava naquela pobre rapariga que, além no quarto, estava talvez no momento que ia decidir da sua eternidade: não tinha ao pé nem a mãe, nem as amigas: na memória apavorada devia passar-lhe a visão do pecado: diante dos olhos turvos aparecia-lhe a face triste do Senhor ofendido: as dores contorciam o seu corpo miserável: e na escuridão em que ia penetrando, sentia já o hálito ardente da aproximação de Satanás. Temeroso fim do tempo e da carne! - Então rezava fervorosamente por ela.

Mas depois pensava no outro que fora uma metade do seu pecado, e que agora na cidade, estirado na cama, ressonava tranqüilamente. E rezava então também por ele.

(continua...)

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