Por Eça de Queirós (1875)
- Senhor doutor, disse ela no silêncio que se fez, a menina acordou e diz que quer o filho.
- E então? A criança levaram-na, não?
- A criança levaram-na... disse a Dionísia.
- Bem, acabou-se...
Dionísia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.
- Ouça lá, diga-lhe que a criança vem amanhã... Que amanhã sem falta lha trazem. Minta. Minta como um cão; aqui o senhor abade dá licença... Que durma, que sossegue.
A Dionísia retirou-se. Mas a controvérsia não recomeçou: diante daquela mãe que acordava depois da fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho que lhe tinham levado para longe e para sempre, os dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a formação das línguas. O abade, sobretudo, parecia comovido. Mas o doutor não tardou, sem piedade, a lembrar-lhe que eram aquelas as conseqüências da situação do padre na sociedade...
O abade baixou os olhos, ocupado na sua pitada, sem responder, como ignorando que houvesse um padre naquela história infeliz.
O doutor, então, segundo a sua idéia, discursou contra a preparação e educação eclesiástica.
- Aí tem o abade uma educação dominada inteiramente pelo absurdo: resistência às mais justas solicitações da natureza, e resistência aos mais elevados movimentos da razão. Preparar um padre é criar um monstro que há-de passar a sua desgraçada existência numa batalha desesperada contra os dois fatos irresistíveis do Universo - a força da Matéria e a força da Razão!
- Que está o senhor a dizer? exclamou assombrado o abade.
- Estou a dizer a verdade. Em que consiste a educação dum sacerdote? Primo: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto é, para a supressão violenta dos sentimentos mais naturais. Secundo: em evitar todo o conhecimento e toda a idéia que seja capaz de abalar a fé católica; isto é, a supressão forçada do espírito de indagação e de exame, portanto de toda a ciência real e humana...
O abade erguera-se, ferido duma piedosa indignação:
- Pois o senhor nega à Igreja a ciência?
- Jesus, meu caro abade, continuou tranqüilamente o doutor, Jesus, os seus primeiros discípulos, o ilustre S. Paulo representaram em parábolas, em epístolas, num prodigioso fluxo labial, que as produções do espírito humano eram inúteis, pueris, e sobretudo perniciosas...
O abade passeava pela sala, indo contra um e outro móvel como um boi espicaçado, apertando as mãos na cabeça na desolação daquelas blasfêmias: não se conteve, gritou:
- O senhor não sabe o que diz!... Perdão, doutor, peço-lhe humildemente perdão... O senhor fazme cair em pecado mortal... Mas isso não é discutir... Isso é falar com a leviandade dum jornalista...
Lançou-se então com calor numa dissertação sobre a sabedoria da Igreja, os seus altos estudos gregos e latinos, toda uma filosofia criada pelos santos padres...
- Leia S. Basílio! exclamou. Lá verá o que ele diz dos estudos dos autores profanos, que são a melhor preparação para os estudos sagrados! Leia a História dos mosteiros na meia-idade! Era lá que estava a ciência, a filosofia...
- Mas que filosofia, senhor, mas que ciência! Por filosofia meia dúzia de concepções dum espírito mitológico, em que o misticismo é posto em lugar dos instintos sociais... E que ciência! Ciência de comentadores, ciência de gramáticos... Mas vieram outros tempos, nasceram ciências novas que os antigos tinham ignorado, a que o ensino eclesiástico não oferecia nem base nem método, estabeleceu-se logo o antagonismo entre elas e a doutrina católica!... Nos primeiros tempos, a Igreja ainda tentou suprimi-las pela perseguição, a masmorra, o fogo! Escusa de se torcer, abade... O fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas agora não o pode fazer e limita-se a vituperá-las em mau latim... E no entanto continua a dar nos seus seminários e nas suas escolas e ensino do passado, o ensino anterior a essas ciências, ignorando-as, e desprezando-as, refugiando-se na escolástica... Escusa de apertar as mãos na cabeça... Estranha ao espírito moderno, hostil nos seus princípios e nos seus métodos ao desenvolvimento espontâneo dos conhecimentos humanos... O senhor não é capaz de negar isso! Veja o Syllabus no seu cânone décimo terceiro...
A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionísia:
- A pequena está a choramigar, diz que quer a criança.
- Mau, mau! disse o doutor.
E depois dum momento:
- Que tal aspecto tem ela? Está corada? Está inquieta?
- Não senhor, está bem. Só a choramigar, a falar no pequeno...
Diz que o quer hoje por força...
- Converse com ela, distraia-a... Veja se ela adormece...
A Dionísia retirou-se; e o abade logo com cuidado:
- Ó doutor, supõe que lhe possa fazer mal o afligir-se?
- Pode-lhe fazer mal, abade, pode - disse o doutor que rebuscava na sua farmácia portátil. Mas eu vou-a fazer dormir... Pois é verdade, a Igreja hoje é uma intrusa, abade!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.