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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

Não raro, alguns bois — rebotalhos de manadas grandes tresmalhadas pelo alvoroto da guerra — ao lobrigarem, de longe, a azáfama que movimentava de novo a paragem a que se haviam aquerenciado, o rancho tranqüilo onde tinham sofrido a primeira ferra, para lá abalavam velozmente. Vinham urrando, numa alegria ruidosa e forte. Buscavam o vaqueiro amigo que os campeara outrora e iria, de novo ao som das cantigas conhecidas ou ao toar tristonho do aboiado, levá-lo às soltas prediletas, aos logradouros fartos e às aguadas frescas.

Irrompiam, troteando, no terreiro...

E tinham recepção cruel. A turba faminta circulava-os em tumulto numa assonância de gritos discordantes. Estrondavam as espingardas. Avivados todos os corpos combalidos, arremetiam em monteria doida com os animais surpresos e refluindo logo, estonteadamente, embolados, para a trama do matagal bravio. Depois de se afadigarem em correrias exaustivas, irritando nos espinhos as chagas recém-abertas e agravando a febre, matavam afinal um, dois, três bois no máximo, em tiroteios vivos, que lembravam combates. Carneavam. E quedavam-se, após esses incidentes providenciais, fartos, quase felizes pelo contraste da própria penúria, aguardando o amanhecer para reatarem o êxodo...

Então, naquela quietude breve, salteava-os uma idéia empolgante — um assalto dos jagunços! Viam-se inermes, depauperados, andrajosos e repulsivos quase, lívidos de fome, varridos para o deserto como trambolhos inúteis — e tinham temores infantis. O adversário, que se afoitara com as brigadas aguerridas e levara os assomos cegos ao ponto de ferrar canhões a pulso, trucidá-los-ia em minutos. E a noite descia cheia de ameças...

Valentes endurados no regímen bruto das batalhas tinham sobressaltos de pavor ante as coisas mais vulgares e velavam, cautos, a despeito das fadigas, armando os ouvidos aos rumores vagos e longínquos das chapadas.

Torturavam-nos alucinações cruéis. A deiscência das vagens das

catingueiras, abrindo-se com estalidos secos e fortes, soava-lhes feito percussão de gatilhos ou estalos de espoletas, dando a ilusão de súbitas descargas de alguma algara noturna repentina; e as grinaldas fosforescentes das cumanãs irradiavam, ao longe, esbatidas nas sombras, como restos de fogueiras, em torno às quais velassem, em silêncio, espectantes, tocaias inumerosas...

A manhã libertava-os. Deixavam a paragem assombradora. Lá ficavam, porém, às vezes, rigidamente quietos, pelos cantos, os companheiros que a morte libertara. Não os enterravam. Escasseava o tempo. O chão duro, de grés, despedaçaria os alviões, opondo-lhes consistência de pedra. Alguns, depois dos primeiros passos, fraqueavam de vez. Deixavam-se ficar exaustos, pelas curvas do caminho. Ninguém lhes dava pela falta. Desapareciam, eternamente esquecidos, agonizando no absoluto abandono. Morriam. E dias, semanas e meses sucessivos, os viandantes, passando, viam-nos na mesma postura: estendidos à sombra mosqueda de brilhos das ramagens secas, o braço direito arqueando-se à fronte, como se a resguardasse do sol, com a aparência exata de combatentes fatigados, descansando. Não se decompunham. A atmosfera ressequida e ardente conservava-lhes os corpos. Murchavam apenas, refegando a pele, e permaneciam longo tempo à margem dos caminhos — múmias aterradoras revestidas de fardas andrajosas...

Por fim, não impressionavam. Quem se aventura nos estios quentes à travessia dos sertões do Norte afeiçoa-se a quadros singulares. A terra, despindo-se de toda a umidade — numa intercadência de dias adustivos e noites quase frias — ao derivar para o ciclo das secas parece cair em vida latente, imobilizando apenas, sem o decompor, os seres que sobre elas vivem. Realiza, em alta escala, o fato fisiológico de uma existência virtual, imperceptível e surda — energias encadeadas, adormecidas apenas, prestes a rebentarem todas, de chofre, à volta das condições exteriores favoráveis, originando ressurreições improvisas e surpreendedoras. E como as árvores recrestadas e nuas que, à vinda das primeiras chuvas, se cobrem, exuberando seiva, de flores, sem esperar pelas folhas, transmudando em poucos dias aqueles desertos em prados — as aves que tombam mortas dos ares estagnados, a fauna resistente das caatingas que se aniquila, e o homem que sucumbe à insolação fulminante, parecem, jazendo largo tempo intactos, sem que os vermes lhes alterem os tecidos, esperar também pela volta das quadras benfazejas. Por ali ficam, patenteando, por vezes, singulares aparências de vida: as suçuaranas — que não puderam vingar, demandando outras paragens, o círculo incandescente das secas — contorcidas, garras fincadas no chão, como em saltos paralisados; e — à beira das cacimbas extintas — o pescoço alongado, procurando um líquido que não existe, os magros bois, mortos há três meses ou mais, caídos sobre as pernas ressequidas, agrupando-se em manadas imóveis...

Os primeiros aguaceiros varrem, de pronto, esses espantalhos sinistros. A decomposição é, então, vertiginosa, como se os devorassem flamas vorazes. É a sucção formidável da terra, arrebatando-lhes, ávida, todos os princípios elementares, para a revivescência triunfal da flora.

(continua...)

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