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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Não vai, com mil diabos! É o meu filho! Há-de levar o capote! Não quero que morra de frio! Atirou-lho aos ombros com força, traçando-lho sobre o peito, agasalhando a criança; - e a mulher já enfastiada meteu rapidamente pela estrada.

Amaro ficou ali plantado no meio do caminho, vendo o vulto perder-se na negrura. Então todos os seus nervos, depois daquele choque, se relaxaram numa fraqueza de mulher sensível - e rompeu a chorar.

Muito tempo rondou a casa. Mas ela permanecia na mesma escuridão, naquele silêncio que o

aterrava. Depois, triste e fatigado, veio voltando para a cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé.

•••

A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor Gouveia ceava tranqüilamente o frango assado que lhe preparara a Gertrudes, para depois das canseiras do dia. O abade Ferrão, sentado junto da mesa, assistia-lhe à ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante as oito horas de dores a rapariga mostrara- se corajosa; o parto fora feliz, de resto, e saíra um rapagão que fazia muita honra ao papá.

O bom abade Ferrão baixava castamente os olhos àqueles detalhes, no seu pudor de sacerdote.

- E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu introduzi a criança no mundo, os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer a Igreja) apoderam-se dele e não o largam até a morte. Por outro lado, ainda que menos sofregamente, o Estado não o perde de vista... E aí começa o desgraçado a sua jornada do berço à sepultura, entre um padre e um cabo de polícia!

O abade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparando-se para a controvérsia.

- A Igreja, continuava o doutor com serenidade, começa, quando a pobre criatura ainda nem tem sequer consciência da vida, por lhe impor uma religião...

O abade interrompeu, meio sério, meio rindo:

- Ó doutor, ainda que não seja senão por caridade com a sua alma, devo adverti-lo que o sagrado Concílio de Trento, cânon décimo terceiro, comina a pena de excomunhão contra todo o que disser que o batismo é nulo, por ser imposto sem a aceitação da razão.

- Tomo nota, abade. Eu estou acostumado a essas amabilidades do Concílio de Trento para comigo e outros colegas...

- Era uma assembléia respeitável! acudiu o abade já escandalizado.

- Sublime, abade. Uma assembléia sublime. O Concílio de Trento e a Convenção foram as duas mais prodigiosas assembléias de homens que a terra tem presenciado...

O abade fez uma visagem de repugnância àquele cotejo irreverente entre os santos autores da doutrina e os assassinos do bom rei Luís XVI.

Mas o doutor prosseguiu:

- Depois, a Igreja deixa a criança em paz algum tempo enquanto ela faz a sua dentição e tem o seu ataque de lombrigas...

- Vá, vá, doutor! murmurava o abade, escutando-o pacientemente, de olhos cerrados - como significando "anda, anda, enterra bem essa alma no abismo de fogo e pez"!

- Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros sintomas de razão, continuava o doutor, quando se torna necessário que ele tenha, para o distinguir dos animais, uma noção de si mesmo e do Universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! Tão completamente, que um gaiato de seis anos que não sabe ainda o bê-a-bá tem uma ciência mais vasta, mais certa, que as reais academias combinadas de Londres, Berlim e Paris! O velhaco não hesita um momento para dizer como se fez o Universo e os seus sistemas planetários; como apareceu na Terra a criação; como se sucederam as raças; como passaram as revoluções geológicas do globo; como se formaram as línguas; como se inventou a escrita... Sabe tudo: possui completa e imutável a regra para dirigir todas as ações e formar todos os juízos; tem mesmo a certeza de todos os mistérios; ainda que seja míope como uma toupeira vê o que se passa na profundidade dos céus e no interior do globo; conhece, como se não tivesse feito senão assistir a esse espetáculo, o que lhe há-de suceder depois de morrer... Não há problema que não decida... E quando a Igreja tem feito deste marmanjo uma tal maravilha de saber, manda-o então aprender a ler... O que eu pergunto é: para quê?

A indignação tinha emudecido o abade.

- Diga lá, abade, para que os mandam os senhores ensinar a ler? Toda a ciência universal, o res scibilis, está no Catecismo: é meter-lho na memória, e o rapaz possui logo a ciência e consciência de tudo... Sabe tanto como Deus... De fato, é Deus mesmo.

O abade pulou.

- Isso não é discutir, exclamou, isso não é discutir!... Isso são chalaças à Voltaire! Essas coisas devem-se tratar mais de alto...

- Como chalaças, abade? Tome um exemplo: a formação das línguas. Como se formaram? Foi Deus, que descontente com a Torre de Babel...

Mas a porta da sala abriu-se, e apareceu a Dionísia. Havia pouco o doutor tinha-lhe dado uma desanda no quarto de Amélia; e agora a matrona falava-lhe sempre encolhida de terror.

(continua...)

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