Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Já escurecia quando entrou em casa. A Escolástica queixou-se da demora que lhe esturrara o jantar. Mas Amaro tomou apenas um copo de vinho e uma garfada de arroz, que engoliu de pé, olhando com terror pela janela a noite que impassivelmente caia.

Entrava no quarto a ver se os candeeiros já estavam acesos, quando o coadjutor apareceu. Vinha falar-lhe sobre o batizado do filho do Guedes, que estava marcado para o dia seguinte às nove horas. - Trago luz? - disse de dentro a criada sentindo a visita.

- Não! gritou logo Amaro.

Temia que o coadjutor visse a alteração que sentia nas faces, ou que se instalasse para toda a noite.

- Diz que vem na Nação de anteontem um artigo muito bom - observou o coadjutor, grave.

- Ah! fez Amaro.

Passeava no seu trilho costumado, do lavatório para a janela; parava às vezes a rufar nos vidros; já se tinham acendido os candeeiros.

Então o coadjutor, chocado com aquela treva do quarto e aquele passear de fera numa jaula, ergueu-se, e com dignidade:

- Estou a incomodar talvez...

- Não!

E o coadjutor satisfeito sentou-se, com o seu guarda-chuva entre os joelhos.

- Agora anoitece mais cedo, disse.

- Anoitece...

Enfim Amaro desesperado declarou-lhe que tinha uma enxaqueca odiosa, que se ia encostar: e o homem saiu, depois de lhe lembrar ainda o batizado do menino do seu amigo Guedes.

Amaro partiu logo para a Ricoça. Felizmente a noite estava tenebrosa e quente, anunciando chuva. Ia agora tomado duma esperança que lhe fazia bater o coração: era que a criança nascesse mortal E era bem possível. A S. Joaneira em nova tivera duas crianças mortas; a ansiedade em que vivera Amélia devia ter perturbado a gestação. E se ela morresse também? Então a esta idéia, que nunca lhe acudira, invadiu-o bruscamente uma piedade, uma ternura por aquela boa rapariga que o amava tanto, e que agora, por obra dele, gritava dilacerada de dores. E todavia, se ambos morressem, ela e a criança, era o seu pecado e o seu erro que caíam para sempre nos escuros abismos da eternidade... Ele ficava, como antes da sua vinda a Leiria, um homem tranqüilo, ocupado da sua igreja, duma vida limpa e lavada como uma página branca!

Parou junto ao casebre em ruínas à beira da estrada, onde devia estar a pessoa que da Barrosa vinha buscar a criança: não se tinha decidido se seria o homem ou a Carlota: e Amaro receava encontrar o anão, para lhe levar o filho, com aqueles olhos raiados dum sangue mau. Falou para dentro, para as trevas do casebre.

- Olá!

Foi um alívio quando a clara voz da Carlota disse na negrura:

- Cá está!

- Bem, é esperar, Sra. Carlota.

Estava contente: parecia-lhe que não tinha nada a temer, se o filho partisse aninhado contra aquele robusto seio de quarentona fecunda, tão fresca e tão lavada.

Foi então rondar a casa. Estava apagada e muda, como um empastamento mais denso de sombra naquela lúgubre noite de Dezembro. Nem uma fenda de luz saía da janelas do quarto de Amélia. No ar muito pesado nenhuma folhagem ramalhava. E a Dionísia não aparecia.

Aquela demora torturava-o. Podia passar gente e vê-lo rondar na estrada. Mas repugnava-lhe ir ocultar-se no casebre em ruínas ao pé de Carlota. Foi andando ao comprido do muro do pomar, voltou, - e viu então na porta envidraçada do terraço uma claridade de luz aparecer.

Correu para a portinha verde do pomar que quase imediatamente se abriu; e a Dionísia, sem uma palavra, pôs-lhe nos braços um embrulho.

- Morta? perguntou ele.

- Qual! Vivo! Um rapagão!

E fechou a porta devagarinho, quando os cães, farejando rumor, começavam a ladrar.

Então o contato do seu filho, contra o seu peito, desmanchou como um vendaval todas as idéias de Amaro. O quê! ir dá-lo àquela mulher, à tecedeira de anjos, que na estrada o atiraria a algum valado, ou em casa o arremessaria à latrina? Ah! não, era o seu filho!

Mas que fazer, então? Não tinha tempo de correr aos Poiais e acordar a outra ama... A Dionísia não tinha leite... Não o podia levar para a cidade... Oh! que desejo furioso de bater àquela porta da quinta, precipitar-se para o quarto de Amélia, meter-lhe o pequerruchinho na cama, muito agasalhado, e todos três ficarem ali como no conchego dum céu! Mas quê, era padre! Maldita fosse a religião que assim o esmagava!

De dentro do embrulho saiu um gemido. Correu então para o casebre - quase esbarrou com a Carlota, que se apoderou logo da criança.

- Aí está, disse ele. Mas ouça lá. Isto agora é sério. Agora é outra coisa. Olhe que o não quero morto... É para o tratar. O que se passou não vale... É para o criar! é para viver. Você tem a sua fortuna...

Trate dele!...

- Não tem dúvida, não tem dúvida, dizia a mulher apressada.

- Escute... A criança não vai bem agasalhada. Ponha-lhe o meu capote.

- Vai bem, senhor, vai bem.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...159160161162163...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →