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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Não é para as minhas forças, pároco, que se eu pudesse!... Olha, agora vou eu levar a um sargento uns bentinhos... Foram benzidos pelo Saldanhinha, vão cheios de virtude. Ontem dei outros iguais a um anspeçada, perfeito rapaz, um amor de rapaz. Pus-lhos eu mesmo por baixo da camisola. Perfeito rapaz!...

- Devias deixar esses cuidados pelo regimento ao coronel, disse Amaro abrindo a janela, abafando de impaciência.

- Credo, olha o ímpio! Se o deixassem desbatizava o regimento. Pois adeus, parocozinho. Estás amarelinho, filho... Precisas purga, eu sei o que isso é.

Ia a sair, mas à porta, parando:

- Ai, dize cá, parocozinho, dize cá: tu ouviste alguma coisa?

- De quê?

- Foi o padre Saldanha que mo disse. Diz que o nosso chantre declarara (palavras do Saldanhinha) que lhe constava que ia na cidade um escândalo com um senhor eclesiástico... Mas não disse quem nem o quê... O Saldanha qui-lo sondar, mas o chantre diz que recebera só uma denúncia vaga, sem nome... Tenho estado a pensar: quem será?

- Pataratas do Saldanha...

- Ai, filho ! Deus queira que sejam. Que quem folga, são os ímpios... Quando fores pela Ricoça dá recados àquelas santinhas...

E pulou pelos degraus a ir levar "a virtude" ao batalhão.

Amaro ficara aterrado. Era ele decerto, eram os seus amores com Amélia que já iam chegando ao vigário-geral em denúncias tortuosas! E ali vinha agora aquele filho, criado a meia légua da cidade, ficar como uma prova viva!... Parecia-lhe extraordinário, quase sobrenatural, ter o Libaninho, que em dois anos não lhe viera a casa duas vezes, ter o Libaninho entrado com aquela nova terrível, quando ele estava ali numa batalha com a consciência. Era como a Providência, que sob a forma grotesca do Libaninho, vinha trazer-lhe o seu aviso, murmurar-lhe: "Não deixes viver quem te pode trazer o escândalo! Olha que jà se suspeita de ti!".

Era decerto Deus apiedado que não queria que houvesse na terra mais um enjeitado, mais um miserável, - e que reclamava o seu anjo!...

Não hesitou: partiu para a estalagem do Cruz, e daí a cavalo para a casa de Carlota.

Demorou-se lá até às quatro horas.

De volta a casa atirou o chapéu para cima da cama, e sentiu enfim um alívio de todo o seu ser. Estava acabado! Lá falara à Carlota e ao anão; lá lhe pagara um ano adiantado; agora era esperar pela noite!

Mas na solidão do quarto toda a sorte de imaginações mórbidas o assaltavam: via a Carlota a esganar a criancinha roxa; via os cabos de polícia mais tarde a desenterrar o cadáver, o Domingos da administração redigindo sobre um joelho o auto de corpo de delito, e ele, de batina, arrastado para cadeia de S. Francisco, em ferros, ao lado do anão! Tinha quase vontade de montar a cavalo, voltar à Barrosa desfazer o ajuste. Mas uma inércia retinha-o. Depois, nada o forçava à noite a entregar a criança à Carlota... Podia levá-la bem agasalhada à Joana Carreira, a boa ama dos Poiais...

Para escapar àquelas idéias que lhe faziam sob o crânio um ruído de tormenta, saiu, foi ver Natário que já se erguia - e que lhe gritou imediatamente do fundo da poltrona:

- Então você viu, Amaro? O idiota, de lacaio atrás!

João Eduardo passara-lhe na rua, na égua baia, com os Morgadinhos; e Natário desde então rugia de impaciência de estar ali amarrado à cadeira e não poder recomeçar a campanha, expulsá-lo por uma boa intriga da casa do Morgado, arrancar-lhe a égua e o lacaio.

- Mas não as perde, em Deus me dando pemas...

- Deixe lá o homem, Natário, disse Amaro.

Deixá-lo! quando tinha uma idéia prodigiosa - que era provar ao Morgado, com documentos, que o João Eduardo era um beato! Que lhe parecia, ao amigo Amaro?

Era engraçado, com efeito. O homem não deixava de o merecer, só pela maneira como olhava para a gente de bem, do alto da égua... - E Amaro fazia-se vermelho, ainda indignado do encontro, de manhã, no caminho de carros da Barrosa.

- Está claro! exclamou Natário. Para que somos nós sacerdotes de Cristo? Para exaltar os humildes e derrubar os soberbos.

Dali, Amaro foi ver D. Maria da Assunção - que já se erguera também - que lhe fez a história da sua bronquite e a enumeração dos últimos pecados: o pior era que, para se distrair um bocado na convalescença, recostava-se por trás da vidraça, e um carpinteiro que morava defronte embasbacava para ela; e por influência do maligno, não tinha forças para se retirar. para dentro, e vinham-lhe pensamentos maus...

- Mas vossa senhoria não está com atenção, senhor pároco.

- Ora essa, minha senhora!

E apressou-se a pacificar-lhe os escrúpulos - porque a salvação daquela alma idiota era para ele um emprego melhor que a mesma paróquia.

(continua...)

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