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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

Dia 20 — O acampamento é subitamente atacado quando as cornetas de todos os corpos tocam a alvorada. Tiroteios durante o dia todo. Consegue-se assestar apenas um dos canhões reconduzidos. Há o mesmo número de baixas da véspera: um soldado morto.

Dia 21— Madrugada tranqüila. Poucos ataques durante o dia. Os canhões da Favela bombardeiam até à boca da noite. Dia relativamente calmo. Poucas baixas.

Dia 22 — Sem aguardar a iniciativa do adversário, a artilharia abre o canhoneio às cinco horas da manhã —provocando revide pronto e virulento de atiradores encobertos nos muros das igrejas. São penosamente conduzidos, do campo da ação para o acampamento da Favela, os últimos feridos. Segue em reconhecimento pelas cercanias o tenente-coronel Siqueira de Meneses. Ao voltar declara estar o inimigo muito forte, e que muito poucas casas de Canudos estão em nosso poder, atenta a comparação com o número das que formam o povoado. Somente à noite se torna possível distribuir parcas rações de gêneros aos soldados da linha de frente, o que foi impossível fazer durante o dia, pela vigilância dos antagonistas. Às nove horas da noite assalto violento pelos dois flancos. Resultado: 25 homens fora de combate.

Dia 23 — Alvorada tranqüila. Repentinamente, uma hora depois, às seis da manhã, os jagunços, depois de um movimento contornante despercebido, caem impetuosamente sobre a retaguarda do campo de batalha. São repelidos pelo 34.° Batalhão e Corpo Policial, deixando quinze mortos, uma cabocla prisioneira e um surrão de farinha. À noite tiroteios cerrados. Os três canhões deram apenas nove disparos por falta de munições.

Dia 24 — Começou o bombardeio ao levantar do sol. O povoado, contra o costume, suporta-o sem réplica. Os schrapnels da Favela caem lá dentro e estouram, como se batessem numa tapera deserta. Durante largo tempo trucida-o o canhoneio impunemente. Às oito horas, porém, ouvem-se alguns estampidos, raros, à direita; e logo depois são assaltados os canhões daquele flanco. Enreda-se o conflito braço a braço, carabinas esbocadas aos peitos, e generaliza-se num crescendo apavorante. Vibram de ponta a ponta dezenas de cornetas. Toda a tropa forma para a batalha. O ataque visava cortar a retaguarda da linha de frente. Um movimento temerário. Cortando-a cairiam sobre o quartel-general, e poriam os sitiantes entre dois fogos. Era um plano de Pajeú que, tendo deposto os demais cabecilhas, assumira a direção da luta. Esse assalto durou meia hora. Os jagunços repelidos, porém, volveram minutos depois, outra vez sobre a tropa, arremetendo com maior arrojo sobre a direita. A custo repelidos recuam até às primeiras casas não conquistadas de onde reatam o tiroteio, cerrado, contínuo. Tombam o comandante do 33.°, Antônio Nunes Sales, e muitos oficiais e praças. Ao meio-dia cessa a agitação.

Súbito silêncio desce sobre os dois campos. À uma hora — novo assalto, mais impetuoso ainda. Formam-se todos os batalhões. Era como a oscilação de um aríete. A nova pancada percutiu, insistente, nas linhas do flanco direito. O impetuoso Pajeú baqueia mortalmente ferido. Tombam do nosso lado muitos combatentes entre os quais, morto, o tenente Figueira, de Taubaté; feridos o comandante do 33.º, capitão Joaquim Pereira Lobo e muitos oficiais. A fim de distrair o inimigo, o comandante-em-chefe determina que atirem os corpos do flanco esquerdo, ainda não investidos. A força toda descarrega as armas contra o arraial. Segue em acelerado uma metralhadora para reforçar a direita.

Atroam no alto todas as baterias da Favela...

Repele-se ao inimigo. À noite tirotear constante até a madrugada.

No dia 25... Nesse dia, como nos outros, as mesmas cenas, pouco destoantes, imprimindo na campanha uma monotonia dolorosa. Os entrincheiramentos da linha de cerco faziam-se nesse intermitir de combates; e somente à noite podia ser distribuída a refeição insuficiente aos soldados famintos ou conseguiam estes, ajoujados de cantis e marmitas, arriscar a tentativa heróica de alguns passos até às cacimbas do Vaza-Barris, buscando a água que lhes mitigasse a sede longamente suportada. Iam-se assim os dias...

TRIUNFOS PELO TELÉGRAFO

Estes fatos chegaram às capitais da República e dos Estados inteiramente baralhados.

Do exposto pode bem inferir-se que era isto inevitável.

Quando os próprios lidadores mal rastreavam, na discordância dos sucessos, um juízo qualquer sobre a própria situação, é natural que os que atentavam, de longe, para o drama imerso na profundura dos sertões, desandassem em conjeturas, sobre instáveis, falsas. Falou-se a princípio na vitória. A travessia do Cocorobó, anteriormente sabida, pressagiava que o Exército houvesse abatido, de um salto, os rebeldes. Notícias esparsas provindas do campo de ação, ou telegramas incisivos, marcavam além disto, à luta, um desenlace em três dias.

(continua...)

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