Por Bernardo Guimarães (1869)
Nada mais terrível do que a onça, quando, sendo mal atirada, se precipita abaixo do tronco em que é acuada pelos cães; assenta-se sobre os quadris rosnando e apresentando as agudas e monstruosas presas, e a cada bote que dá com as formidáveis patas atabafa e esmaga um cão, e em poucos instantes se vê rodeada de um lastro de cadáveres. Pois assim estava aquele sanhudo aventureiro ceifando e derribando a granel os imprudentes selvagens que ousavam avizinhar-se-lhe. Estes, já transidos de terror supersticioso, pensando que não combatiam contra um homem, mas contra algum espírito ou ente sobrenatural, sentiam falecer-lhes a coragem e começaram a recuar espavoridos diante de tão descomunal denodo e valentia.
Um deles porém, que parecia comandar aos outros, com um grito fez recuar todos aqueles combatentes estouvados e imprudentes, e seguido somente de um companheiro avançou resolutamente para o tronco.
O estrangeiro já tinha descarregado todas as suas armas de fogo e despedido todas as suas flechas. Este último combate portanto foi dado corpo a corpo sobre cadáveres e em um lamaçal de sangue. Ainda que extremamente fatigado e todo crivado de golpes, o forasteiro ainda deu que fazer a seus adversários. Um golpe de tacape descarregado sobre a nuca o fez titubear; outro imediatamente foi desfechado, e Gonçalo, pois era ele, caiu sobre um lago de sangue por ele mesmo derramado.
CAPÍTULO II
A TABA DO CACIQUE
Uma prolongada e imensa grita aplaudiu aquela vitória a tanto custo alcançada por uma multidão sobre um só homem. Os selvagens em seu furor de vingança já iam arrojar-se sobre o cadáver, esquartejá-lo e devorá-lo ali mesmo. Mas o jovem guerreiro que descarregara o último golpe sobre Gonçalo, e que parecia ser o chefe ou cacique daquela horda, opôs-se-lhes energicamente bradando em voz irada:
— Ai daquele que ousar tocar naquele corpo!... O cadáver de um tão feroz e valente inimigo é um troféu, que deve ser apresentado ao nosso velho e venerando chefe. Este espetáculo por certo lhe aquecerá e regozijará o coração murchado pelos anos. E quem vos diz que esse estrangeiro não está vivo ainda?... Se assim é, se ainda temos de vê-lo tornar à vida, acrescenta o jovem guerreiro em tom menos severo e quase risonho, mais escolhida vítima, sacrifício mais excelente não poderá ser oferecido a Tupá no dia de minha feliz união com a formosa Guaraciaba, esse raio de luz descido do céu para iluminar-me o coração.
O chefe, que assim falava, e que tinha prostrado a golpes de tacape o sanhudo imboaba, chamava-se Inimá. A ele estava prometida a gentil e mimosa Guaraciaba, filha do velho e poderoso cacique Oriçanga, e a mais encantadora dentre as filhas da floresta.
O fato de ter vibrado o golpe de morte sobre o formidável estrangeiro era para Inimá uma proeza que ia ainda exaltar o seu merecimento e enchê-lo de glória aos olhos do velho cacique, da danosa Guaraciaba e da tribo inteira. Pelo menos ele assim o esperava, e já de antemão se regozijava interiormente de seu triunfo.
— Foi Tupá, exclamava ele em transportes de alegria, foi Tupá que aqui nos enviou este estrangeiro; e foi sua voz que me chamou para nos libertar de um monstro, enviado por Anhangá para maquinar a nossa perdição. Guerreiros, vamos dar graças aos céus e oferecer sacrifícios aos manitós de nossas tabas por este sucesso de tão feliz agouro.
Inimá ajuntou as armas do aventureiro, contemplou-as com admiração e curiosidade, e mandando conduzi-las com o corpo de Gonçalo em uma canoa, apressou-se em ir depor cheio de orgulho aqueles troféus, tão facilmente conquistados, aos pés do poderoso Oriçanga e da formosa Guaraciaba.
A taba do velho cacique Oriçanga, mais vasta e mais sólida que todas as outras, com sua porta guarnecida de flechas e lanças enfeitadas de vistosos penachos, com seu teto de palmas de baguçu tingidas de oca e de urucu, miravase galhardamente na torrente do Tocantins, e elevava-se entre as outras cabanas como a garça, rainha dos lagos, entre um bando de pequenas aves. A noite se aproximava. Sentado à porta da taba sobre a pele enorme de uma onça negra, Oriçanga esperava com impaciência que lhe trouxessem vivo ou morto o audacioso estrangeiro que assim ousava resistir a seus guerreiros, indignado de que tantos combatentes gastassem tanto tempo e achassem tamanha dificuldade em matar ou prender um só homem. Em pé junto dele, como tímida corça junto ao leão deitado, a gentil Guaraciaba tinha também os olhos fitos com ansiosa curiosidade nas canoas, que da outra margem vinham ligeiramente singrando.
Dentro em poucos minutos o corpo de Gonçalo inanimado e banhado em sangue, conduzido em uma rede com todas as suas armas, foi posto aos pés do velho cacique. Inimá e seus companheiros precediam o cadáver, soltando clamores de feroz alegria. O cacique porém os recebeu com semblante torvado, e ouviu com impaciência a narração que lhe fez Inimá do combate e da desesperada resistência do estrangeiro, e dos estragos que fez em sua gente. Depois abanando a cabeça com ar descontente e gesto merencório exclamou:
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.