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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

Emília tinha com efeito o lenço nos olhos. Chorava? É certo que quando tirou o lenço dos olhos, tinha-os úmidos. Voltou-se contra a luz e disse ao moço: 

- Qual... pode continuar. 

- Não há mais nada; foi só isto, disse Tito. 

- Estimo que a noite lhe corresse feliz... 

- Alguma cousa... 

- Mas a uma carta responde-se; por que não respondeu à minha? disse a viúva. 

- À sua qual? 

- A carta que lhe escrevi pedindo que viesse tomar chá conosco? - Não me lembro. 

- Não se lembra?

- Ou, se recebi essa carta, foi em ocasião que a não pude ler, e então esqueci, esqueci-a em algum lugar... 

- É possível: mas é a última vez... 

- Não me convida mais para tomar chá? 

- Não. Pode arriscar-se a perder distrações melhores. 

- Isso não digo: a senhora trata bem a gente, e em sua casa passam-se bem as horas... Isto é com franqueza. Mas então tomou chá sozinha? E o Diogo? 

- Descartei-me dele. Acha que ele seja divertido? 

- Parece que sim... É um homem delicado; um tanto dado às paixões, é verdade, mas sendo esse um defeito comum, acho que nele não é muito digno de censura. 

- O Diogo está vingado. 

- De que, minha senhora? 

Emília olhou fixamente para Tito e disse: 

- De nada! 

E levantando-se dirigiu-se para o piano. 

- Vou tocar, disse ela; não o aborrece? 

- De modo nenhum. 

Emília começou a tocar; mas era uma música tão triste que infundia certa melancolia no espírito do moço. Este, depois de algum tempo, interrompeu com estas palavras: 

- Que música triste! 

- Traduzo a minha alma, disse a viúva. 

- Anda triste? 

- Que lhe importam as minhas tristezas? 

- Tem razão, não me importam nada. Em todo o caso não é comigo?

Emília levantou-se e foi para ele. 

- Acha que lhe hei de perdoar a desfeita que me fez? disse ela. 

- Que desfeita, minha senhora? 

- A desfeita de não vir ao meu convite? 

- Mas eu já lhe expliquei... 

- Paciência! O que sinto é que também nesse voltarete estivesse o marido de Adelaide. 

- Ele retirou-se às dez horas, e entrou um parceiro novo, que não era de todo mau. 

- Pobre Adelaide! 

- Mas se eu lhe digo que ele se retirou às dez horas... 

- Não devia ter ido. Devia pertencer sempre à sua mulher. Sei que estou falando a um descrido; não pode calcular a felicidade e os deveres do lar doméstico. Viverem duas criaturas uma para outra, confundidas, unificadas; pensar, respirar, sonhar a mesma cousa; limitar o horizonte nos olhos de cada uma, sem outra ambição, sem inveja de mais nada. Sabe o que é isto? 

- Sei... É o casamento por fora. 

- Conheço alguém que lhe provava aquilo tudo... 

- Deveras? Quem é essa fênix? 

- Se lho disser, há de mofar; não digo. 

- Qual mofar! Diga lá, eu sou curioso. 

- Não acredita que haja alguém que possa amá-lo? 

- Pode ser... 

- Não acredita que alguém, por despeito, por outra cousa que seja, tire da originalidade do seu espírito os influxos de um amor verdadeiro, mui diverso do amor ordinário dos salões; um amor capaz de sacrifício, capaz de tudo? Não acredita! 

- Se me afirma, acredito; mas...

- Existe a pessoa e o amor. 

- São então duas fênix. 

- Não zombe. Existem... Procure... 

- Ah! isso há de ser mais difícil: não tenho tempo. E supondo que achasse, de que me servia? Para mim é perfeitamente inútil. Isso é bom para outros; para o Diogo, por exemplo... 

- Para o Diogo? 

A bela viúva pareceu ter um assomo de cólera. Depois de um silêncio disse: - Adeus! Desculpe, estou incomodada. 

- Então, até amanhã! 

Dizendo o que, Tito apertou a mão de Emília e saiu tão alegre e descuidoso como se saísse de um jantar de anos. 

Emília, apenas ficou só, caiu numa cadeira e cobriu o rosto. 

Estava nessa posição havia cinco minutos, quando assomou à porta a figura do velho Diogo. 

O rumor que o velho fez entrando despertou a viúva. 

- Ainda aqui! 

- É verdade, minha senhora, disse Diogo aproximando-se, é verdade. Ainda aqui, por minha infelicidade... 

- Não entendo... 

- Não saí para casa. Um demônio oculto me impeliu para cometer um ato infame. Cometi-o, mas tirei dele um proveito; estou salvo. Sei que me não ama. 

- Ouviu? 

- Tudo. E percebi. 

- Que percebeu, meu caro senhor? 

- Percebi que a senhora ama o Tito.

- Ah! 

(continua...)

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