Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

VIOLANTE – Eu procedi assim, não para ofendê-los, mas porque tive para mim que os senhores pensavam somente em zombar de uma velha...

AUGUSTO – Perdão... eu protesto...

LEOPOLDO – Minha senhora... reitero a minha proposição...

POLIDORO – E eu também com o coração nos lábios...

VIOLANTE – Era o que desejava muito ouvir diante do meu afilhado e de minta sobrinha: obrigada! agora, e isto é irrevogável, mais três dias para que os senhores reflitam, e para que eu também assente na minha escolha; daqui a três dias pois, no domingo, os senhores terão a complacência de vir jantar conosco, e no fim do jantar dirigirei o último brinde ao preferido. (Confusão e desapontamento dos três.) BRAZ – Talvez fosse melhor fazer o brinde da preferência antes do jantar.

CLEMÊNCIA – Não, titia: os dois infelizes perderiam o apetite.

VIOLANTE – Será como disse; e até domingo reservo-me o direito de absoluto recolhimento para mais tranqüila resolver sobre a escolha.

CLEMÊNCIA – Ao menos porém até o fim do sarau... BRAZ – Ei-lo que termina a galope.

CENA XVI

VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA, AUGUSTO, POLIDORO, LEOPOLDO,

galopada geral; os pares invadem a varanda por todos os lados; LAURIANO arrebata

Clemência; MÁRIO e IRENE galopam; CASIMIRO passa e volta galopando com uma jovem; ardor na dança. Augusto, Polidoro e Leopoldo cercam Violante. BRAZ – Eu defendo a madrinha! não consinto que ela galope!...

FIM DO TERCEIRO ATO

ATO IV

Salão elegante, que abre ao fundo portas para a varanda, que se vê em parte; janelas ao lado esquerdo, abrindo para o jardim; portas ao lado direito.

CENA I

CASIMIRO e PORFÍRIO

PORFÍRIO – Isso não tem senso comum.

CASIMIRO – Digo-te que é um dever de honra, e um recurso para a felicidade da minha vida; seguindo teus conselhos, ofendi Irene, embora não ousasse deixar perceber a extrema e indigna proposição...

PORFÍRIO – Elas arrepiam-se muito no princípio, mas acabam por ceder; teima.

CASIMIRO – Não. Irene é um anjo de pureza, depois do que lhe disse, devo pedi-la em casamento; cumprirei o dever, e me farei ditoso.

PORFÍRIO – Irene tem dezoito anos; daqui a dezesseis anos terá trinta e quatro, e será ainda moça e bela; tu, então, contarás setenta, será inválido da pátria, posto fora do serviço ativo, e apesar teu contemplado na passiva.

CASIMIRO – Setenta anos!... não chego lá; quero passar em flores o resto da vida.

PORFÍRIO – Darás a Clemência madrasta dois anos mais moça.

CASIMIRO – Melhor; brincarão ambas como se fossem irmãs; elas são muito amigas; além disso... Clemência que trate de achar marido... já é tempo.

PORFÍRIO – E Mário?

CASIMIRO – Conheço-lhe o caráter; é de gênio revoltoso, mas por fim obedece-me sempre; hei de convencê-lo a entrar para o seminário de S. José, os padres lazaristas deve ganhar muito.

PORFÍRIO – Estás desarrazoando.

CASIMIRO – Nunca tive tanto juízo; olha, tudo me anda às avessas: a Acrobata adoeceu de bexigas e adeus amores! é pena: o ladrão da rapariga arrebatava! a mana Violante está doida, e quer casar; adeus herança! Eu ganho suficientemente no comércio para manter com decência e algum luxo a minha família; e até para capitalizar dois a três contos de réis por ano; mas a paixão pelo belo sexo traz-me sempre a bolsa rasa, e cria-me dificuldades. Irene é pois um sábio recurso; com os seus encantos me fará esquecer todas as Acrobatas, me consolará do casamento de Violante, e me tornará caseiro, circunspecto, grave, econômico e feliz; não achas?

PORFÍRIO – Acho que é uma grande asneira.

CENA II

CASIMIRO, PORFÍRIO, BRAZ que entra pelo fundo.

BRAZ – Qual é a asneira? são tantas! agora serão pelo menos duas.

PORFÍRIO – Que lhe importa? nós nunca podemos estar de acordo.

CASIMIRO – Ao contrário, estou certo que desta vez o Braz me apoiará. PORFÍRIO – Entende-te pois com ele. (Indo-se) CASIMIRO – Espera: não tarda o jantar...

PORFÍRIO – Com o Braz à mesa a indigestão é infalível. (Vai-se) BRAZ – Efeito do molho, tens medo da mostarda et coetera.

CENA III

CASIMIRO e BRAZ

CASIMIRO – Quero os teus conselhos; prometes ouvir-me e falar-me seriamente?

BRAZ – Conforme: eu canto segundo o gênero e o caráter da música.

CASIMIRO – Estou cansado de fazer loucuras impróprias da minha idade; ontem fiz a última.

BRAZ – Veremos, qual foi a última?

CASIMIRO – Direi depois; faço-te uma confidência de irmão: eu amo Irene...

BRAZ – Ainda hoje?

CASIMIRO – Hoje mil vezes mais.

BRAZ – Ah! de que data é a tua última loucura?

CASIMIRO – De ontem; já to disse.

BRAZ – Ah! et coetera; continua.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1415161718...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →