Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Portanto, Honorina, a tua educação fez-te muito mais nova do que eu; vi o mundo desde que raciocinei, e tu até agora somente ouviste falar dele; tu temes o vício pelos seus espinhos, oh! Honorina, é preciso temê-lo ainda mais pelas suas flores!... e então este nosso mundo, que hoje nos está beijando os pés para amanhã cuspir-nos no rosto!... este mundo, em que as mulheres são sempre nossas rivais, que nos observam, e estudam para morder-nos, e perdernos; os homens quase sempre sacerdotes de um culto horrível que nos ornam as cabeças com flores insanas, para logo depois imolar-nos no altar do seu deus de torpezas!...
Honorina respondeu a essas palavras de Raquel com um pungente gemido. Nos seus feiticeiros sonhos de moça ela tinha imaginado modesto e nobre, virtuoso e alegre esse mesmo mundo, cuja descrição, talvez exagerada, lhe fazia agora estremecer de espanto e de horror.
Raquel ainda prosseguiu:
— Que pensarás tu, minha Honorina, ou ainda melhor, que pensa a rica herdeira a quem se corteja num sarau?... oh!... se acredita somente na décima parte do que lhe dizem... é já uma louca.
— Como!
— É quase impossível não enlouquecer, Honorina; porque ali cerca-se de todos os lados uma moça rica; não se lhe fala senão com a linguagem da adulação; trata-se de afogar-lhe o bom senso com o fumo perfumado da lisonja; vêm dez, vinte, cem elegantes mancebos jurar-lhe amor e ternura... e ela... ela, já louca, conta por vitórias dos seus olhos os triunfos do seu dinheiro!...
— Portanto, só as ricas são amadas?... perguntou ingenuamente Honorina.
— Oh! lá não se perde nada!... senhora de grande dote é o amor... o cálculo do futuro; a bela jovem de fracos teres é o amor... o passatempo do presente. Vivemos num século de frias idéias, em uma época de algarismos; tudo é positivo... o comércio tem invadido tudo; negoceia-se também com o sentimento.
— Ah Raquel! e, no entanto, tu estás sempre alegre!
— Porque é preciso rir, Honorina, já que o chorar não dá remido... e também com ânimo e virtude assoberba-se a tempestade. Olha, nós somos amigas dos primeiros anos; caminhemos, pois, juntas, e nos ajudaremos mutuamente; além de que, Honorina, e para tornar ao ponto donde saímos, nós pertencemos ao pequeno círculo das mais felizes: eu te dizia, temos ricos dotes.
— Mas essa idéia de devermos tudo ao nosso dinheiro não te acanha, Raquel?
— Eu sei, Honorina; porém, nesta vida não nos dão licença de pensar, senão no casamento; e a esperança deste está mais em um bom dote do que em dois bonitos olhos; portanto, demos graças à providência, já que nem por feias espantamos, nem por pobres desesperamos.
— Oh! porém é torpe, Raquel, disse com entusiasmo Honorina; é torpe, que um homem venda o seu coração, ou pelo menos a liberdade, por um cofre cheio de ouro! é um horrível sacrilégio ir um homem ajoelhar-se aos pés do altar, receber a bênção do sacerdote, estender a mão para uma triste mulher, com os olhos no seu rosto e o pensamento no dinheiro!... e mais baixo e mais torpe que tudo isso é um homem negociar com a desgraçada simpatia que lhe tributa uma infeliz mulher, enganá-la quando ela conta com o seu amor; quando a conduz do templo para casa, antes de outorgar-lhe o primeiro beijo de esposo, correr ao seu escritório a escrever no livro das suas contas mais uma parcela na coluna dos rendimentos!... Raquel, se eu me casasse com um homem desses, daria todo o dote que tivesse de meu pai, para que ele se não assentasse junto de mim; porque teria nojo da sua alma!... Raquel, dize que zombavas de mim, quando falavas há pouco, ou então eu te juro que melhor me fora ser pobre!...
— E pensas, Honorina, que ganharias muito com isso?...
— Pelo menos, Raquel, quando eu chegasse a ser amada teria a certeza de sê-lo por mim mesma.
— No entanto, com esse tão belo rosto, mais que a nenhuma outra, te armariam traições e cavariam debaixo de teus pés um abismo de que escaparias, eu sei, com a tua virtude, mas também com trabalhos, sofrimentos e lágrimas. Honorina, o pensamento dos homens a respeito de nós outras é este: “venda-se o homem pelo ouro da mulher rica, para com esse ouro tentar perder a mulher pobre”, repito, o nosso mundo é este; vivamos, pois, com ele, e tanto mais que não vejo razão para a celeuma que tens feito.
— Oh! Raquel! quando se nos quebra contra o coração o único sentimento que pode fazer a ventura da mulher neste mundo!... quando se nos apaga no espírito a única luz que nos pode tornar brilhante o caminho da vida!... quando parece que nos estão dizendo: mulher! não ames!...
— Meu Deus!... mas tu és romântica, Honorina!...
— O amor!... o amor!... o amor!... exclamou Honorina com sentimento e fogo.
— Amor, minha cara amiga, é uma vã mentira; amor não é mais que uma das muitas quimeras com que a fantasia nos entretém na vida, como a boneca que se dá à criança para conservá-la quieta no berço... o amor não é mais que a flor de um só dia, que abre de manhã e antes da noite está murcha...
— Raquel!... pensar assim com dezesseis anos!... dizer que o amor é uma quimera!... flor de um dia!... oh! pois bem! mas essa flor tem um aroma que há de embriagar; que deve adormecer-nos num belo sono cheio de sonhos, do qual só deveríamos acordar para passar de suas delícias para as do paraíso!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.