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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

A Rua do Padre Homem da Costa desde 1749 não teve mais prolongamento a aspirar; ainda, porém, era cedo para as glórias que a esperavam com outro nome.

De 1770 a 1791 a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro se transformou como por metamorfose rápida. Era feia lagarta, e o Vice-Rei Marquês de Lavradio fez sair do casulo a borboleta, asseando, calçando as ruas e praças, abrindo novas ruas, banindo as rudes peneiras das portas e janelas, e removendo para longe dos centros urbanos a aglomeração pestífera dos míseros negros trazidos da África para imundos recintos de mercado de escravos.

O Vice-Rei Luís de Vasconcelos, achando a borboleta fora do casulo e a ensaiar as asas de seda, deu-lhe água e flores em chafarizes, na Fonte das Marrecas, e no Jardim Público, e deu ainda à cidade novas ruas, uma das quais foi a das Belas Noites, então a romanesca das noites de luar crescente e pleno.

A Rua do Padre Homem da Costa não recebeu nesses vinte e um anos de florescimento na cidade melhoramento algum, à exceção do banimento das peneiras que a afeavam, como as outras; dois anos porém, depois do começo do vice-reinado de Luís de Vasconcelos, perdeu o nome que lhe tinham dado em 1659.

Escapara à denominação de Rua do Lobisomem no vice-reinado do Conde da Cunha, e como se vai ver, escapou de outras que lhe quiseram dar, para denominar-se Rua do Ouvidor.

O Marquês de Lavradio, o Vice-Rei estadista, era varão de alto saber, de grande experiência e de virtudes; tinha, porém, a fraqueza de Henrique IV, e pecou não pouco por apaixonado do belo sexo. No seu tempo o doido Romualdo dizia que o vice-rei limpava as ruas e sujava as casas.

O ilustre Marquês estava muito longe de ser ostentoso, delirante e corrompido perversor, como fora o ajudante da sala do Conde da Cunha; foi, porém, conquistador famoso, e teve ligações amorosas que o prenderam muito, e amores furtivos e passageiros que autorizaram o mordaz epigrama do doido Romualdo.

A princípio, e a supor-se cauto, ele dissimulou suas fraquezas de um modo singular e espirituoso.

O Marquês adotara o costume de sair sob diversos disfarces depois das dez horas da noite em passeio pela cidade para zelar a polícia e ver com os seus olhos o que se passava, e ouvir com os seus ouvidos o que se dizia.

Em suas rondas ou passeios levava ele sempre por companheiro único um oficial de milícias, o Tenente João Moreira, conhecido pela alcunha de Amotinado pelos fáceis arrebatamentos de seu gênio ardente e desordeiro.

O Tenente Amotinado era de prodigiosa força, de ânimo inflamável e talvez o mais antigo capoeira do Rio de Janeiro, Jogando perfeitamente a espada, a faca, o pau e ainda e até de preferência a cabeçada e os golpes com os pés.

Não se temia de dois ou de dez inimigos, multiplicava-se na defesa e ataque pela agilidade. Tinha medo somente do Vice-Rei e do Ouvidor da comarca.

Era delicadíssimo como ufanoso escravo do Marquês de Lavradio, a cujo serviço não punha limites.

O Marquês, quando tinha de pescar por devoção ao belo sexo, aproveitava para isso os seus disfarces e horas de passeio noturno, pondo em ridículo e abusivo tributo a baixa condescendência do Tenente.

À noite e a prazo dado, batendo de leve à porta que havia de se abrir a sinal de ajuste, se fraca voz perguntava:

- Quem é?...

- Tenente Amotinado, respondia sempre o Marquês.

E o Tenente não protestava.

Durante alguns meses por isso, e pelos falsos boatos que se faziam espalhar para explicação de amorosas travessuras, cujo mistério era malguardado, ou por acaso descoberto, o Tenente Amotinado gozou na cidade do Rio de Janeiro imerecida celebridade de feliz conquistador de invejados amores e de traquinas beija-flores inconstantes em jardins pouco vedados.

Em breve, porém, o ardil foi conhecido e o Tenente Amotinado caiu no ridículo, que devia ser o seu primeiro castigo.

O povo que amava o seu bom e sábio vice-rei era indulgente, repetindo a rir as notícias indiscretas de suas travessuras amorosas, e, a zombar do cúmplice desbrioso, continuava já então malicioso a nomear como autor das noturnas traquinadas o Tenente Amotinado.

Mas todos sabiam bem que nome e que titulo se escondiam na pobre alcunha do Amotinado.

Mas acontecem coisas neste mundo!...

O Tenente João Moreira, o Amotinado, o companheiro ou caudatário do Marquês de Lavradio em seus passeios noturnos, era casado e tinha em sua companhia uma cunhada, Josefa, chamada em família Zezé, viúva há um ano.

A esposa do Amotinado era bonita e jovem; mas a Zezé, dois anos mais moça, mais bonita ainda.

O Tenente morava à Rua do Padre Homem da Costa, um pouco acima da dos Ourives, e sua casa de um só pavimento tinha além da porta da entrada uma outra em curto muro contíguo, a qual só se abria para o serviço dos escravos.

(continua...)

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