Por Gregório de Matos (1696)
4 Mas isso te nasceu, puta Andresona,
de seres puta vil, puta fragona:
que o falar da janela, e da varanda,
só se achará em putas de quitanda.
Cal-te, que a puta grave, qual donzela,
geme na cama e cala na janela:
mete a língua no cu, e havendo míngua
quando deres ao cu darás à língua.
5 Pois te deixas calar sempre por baixo,
e lá para calar-te tens o encaixe,
cal-te um dia por cima atroadora,
que já se enfada quem na rua mora:
e diz até uma Preta, e mais não erra,
que a ovelha ruim é, a que berra;
cal-te Andresona, que de me aturdires,
tomei eu a ocasião de hoje me ouvires.
A MORTE DE AFONÇO BARBOZA DA FRANCA AMIGO DO POETA.
Quem pudera de pranto soçobrado,
Quem pudera em choro submergido
Dizer, o que na vida te hei querido,
Contar, o que na morte te hei chorado.
Só meu silêncio diga o meu cuidado,
Que explica mais que a voz de um afligido,
Porque na esfera curta de um sentido
Não cabe um sentimento dilatado.
Não choro, amigo, a tua avara sorte,
Choro a minha desgraça desmedida,
Que em privar-me de ver-te foi mais forte.
Tu com tanta memória repetida
Acharás nova vida em mãos da morte,
Eu triste nova morte às mãos da vida.
AO MESMO ASSUMPTO.
Alma gentil, esprito generoso,
Que do corpo as prisões desamparaste,
E qual cândida flor em flor cortaste
De teus anos o pâmpano viçoso.
Hoje, que o sólio habitas luminoso,
Hoje, que ao trono eterno te exaltaste,
Lembra-te daquele amigo, a quem deixaste
Triste, confuso, absorto, e saudoso.
Tanto a tua vida ao céu subiste,
Que teve o céu cobiça de gozar-te,
Que teve a morte inveja de vencer-te.
Venceu-te o foro humano, em que caíste,
Goza-te o céu, não só por premiar-te,
Senão por dar-me a mágoa de perder-te.
ÀS DUAS MULATAS PREZAS FINGE O POETA, QUE VlSlTA NESTE DOUS SONETOS
INTERLOCUTORES. FALLA COM A MAY.
Perg. Dona Secula in seculis Ranhosa,
Por que estais aqui presa, Dona Paio?
Resp. Dizem, que por furtar um Papagaio:
Porém mente a querela maliciosa.
Perg. Estais logo por ladra, e por gulosa:
Não vos lembra o jantar de Fr. Pelaio?
Resp. Então traguei de carne um bom balaio,
e de vinha uma selha portentosa.
Perg. Para tanto pecado é curta a sala,
Ide para a moxinga florescente,
Onde tanta vidrada flor exala.
Resp. Irei, que todo o preso é paciente;
Porém se hoje furtei cousa, que fala,
Amanhã furtarei secretamente.
FALLA O POETA COM A FILHA.
Perg. Bertolinha gentil, pulcra, e bizarra,
Também vos trouxe aqui o Papagaio?
Resp. Não, Senhor: que ele fala como um raio,
E diz, que minha Mãe Ihe pôs a garra.
Perg. Isso está vossa Mãe pondo à guitarra,
E diz, que há de pagá-lo para Maio.
Resp. Ela é muito animosa, e eu desmaio,
Se cuido no Alcaide, que me agarra.
Perg. Temo, que haveis de ser disciplinante
Por todas estas ruas da Bahia,
E que vos há de ver o vosso amante.
Resp. Quer me veja, quer não: estimaria,
Que os açoutes se dêem ao meu galante,
Porque eu também sei ver, e vê-lo-ia.
PINTURA ADMIRAVEL DE HUMA BELLEZA.
Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?
O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?
Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês desse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?
Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isto bem? pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.
DESAYRES DA FORMOSURA COM AS PENSÕES DA NATUREZA PONDERADAS NA
MESMA DAMA.
Rubi, concha de perlas peregrina,
Animado Cristal, viva escarlata,
Duas Safiras sobre lisa prata,
Ouro encrespado sobre prata fina.
Este o rostinho é de Caterina;
E porque docemente obriga, e mata,
Não livra o ser divina em ser ingrata,
E raio a raio os corações fulmina.
Viu Fábio uma tarde transportado
Bebendo admirações, e galhardias,
A quem já tanto amor levantou aras:
Disse igualmente amante, e magoado:
Ah muchacha gentil, que tal serias,
Se sendo tão formosa não cagaras!
A OUTRO SUGEYTO QUE ESTANDO VARIAS NOYTES COM HUMA DAMA, À NÃO
DORMIO POR NÃO TER POTENCIA; E LHE ENSINÁRAM, QUE TOMASSE POR
BAXO HUMAS TALHADAS DE LIMÃO, E METTEO QUATRO.
1 Tal desastre, e tal fracasso,
com razão vos chega ao vivo,
que eu não vi nominativo
com tão vergonhoso caso:
do Oriente até o Ocaso,
desde o Olimpo até o Baratro,
do Orbe por todo o teatro
se diz, que sois fraca rês,
porque às três o Demo as fez
mas vós nem três, nem as quatro.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.