Por Eça de Queirós (1940)
O outro livro, Frutos da Filosofia, de que se tem vendido, diz-se, milhões de exemplares, é uma exposição semimédica e semiobscena dos meios de impedir a gravidez! Com um impudor estupendo, este folheto que a Inglaterra inteira está neste momento devorando começa por dizer que nada mais desagradável do que ter filhos; em primeiro lugar, que é um terrível encargo individual, em segundo lugar, porque o aumento da população, em desproporção com os meios de subsistência em Inglaterra, pode trazer a ruína do país. E daí segue-se, num estilo bem trabalhado e técnico, uma série de receitas medonhas para esterilizar a mulher, ou pior ainda... A gravidade do facto – é que este livro vende-se aos milhões de exemplares e que a avidez do público mostra que ele está convencido da sua utilidade e deseja aprender os seus processos. Os autores, ou antes os reprodutores, porque o livro é quase todo composto por um especialista americano, foram condenados; mas o escândalo e a publicidade do processo tiveram apenas como resultado dar ao livro uma fama insensata e enriquecer os editores, e espalhá-lo de tal modo que é raro encontrar um sujeito que não o tenha no bolso da sobrecasaca, como um manual cómodo e à mão de desmoralização e de deboche.
Passemos à sociedade. O leão do dia em Londres é o general Grant, ex-presidente dos Estados Unidos. Festas, bailes, recepções, solenidades, tudo o que se pode fazer para celebrar um herói lhe tem sido prodigalizado, com uma abundância forçada, ia quase a dizer afectada. O ministro dos Estados Unidos deu-lhe um grande jantar, a que assistiu o príncipe de Gales. A feição característica deste jantar foi que, sendo dado pelo ministro americano, na legação americana, a um presidente americano, havia tudo, excepto americanos! Diz-se que a razão é que o ministro não encontrara em toda a colónia americana que habita Londres ninguém à altura de se sentar à mesa com o príncipe de Gales! Isto tem causado em Londres uma doce hilaridade. O que mais impressiona, parece, no general Grant é a sua taciturnidade. E quase impossível arrancar-lhe uma palavra. Tem atravessado as festas, os bailes, os jantares, com os lábios cerrados como um trapista. No jantar que lhe deu o duque de Wellington esteve, até à sobremesa, imóvel e mudo: e de repente, dirigindo-se ao duque, perguntou-lhe no meio de um silêncio solene:
– Qual foi o maior número de soldados que seu pai comandou, duque?
O duque disse que, aproximadamente, duzentos mil homens.
– E eu meio milhão – respondeu Grant.
E desde então, há quinze dias, não tornou a falar.
Madame Grant tem divertido a sociedade inglesa com alguns equívocos que se tornarão históricos. Há dias dizia no salão do príncipe de Gales:
– Tive ontem o prazer de conhecer um dos grandes homens de Inglaterra, ao que me dizem, o senhor Blackstone.
Todo o mundo arregalou os olhos. Blackstone! Quem seria?
Descobriu-se, depois de grandes averiguações, que Blackstone era simplesmente – Gladstone!
Um cancã de sociedade: diz-se que o príncipe de Gales estivera há dias para morrer. Depois da corrida de Ascot, tinha ido visitar um amigo a Temple House, um esplêndido parque, ao pé de Ascot.
Tinha estado a fumar um cigarro, conversando à sombra de um cedro do Líbano – e acabava de se levantar quando, com um estalo formidável, o cedro partiu e desabou!
Um minuto mais cedo e o príncipe de Gales estava com os seus antepassados. Será agoiro?
O imperador do Brasil continua a ser favorito, como aqui se diz, da sociedade de Londres. A sua actividade sobretudo é admirada: a pé desde as seis da manhã, não há instituição, museu, galeria, biblioteca, palácio, hospital, curiosidade, homem ilustre, que não visite, que não estude.
Em todas as sociedades de que é feito membro tem sempre uma palavra interessante a dizer, uma comunicação curiosa a fazer. Com tudo isto, uma simplicidade quase plebeia. A sua comitiva, porém, que ele traz nesta roda-viva há um ano, começa a perder a cabeça, de fadiga e de estonteamento: no dia em que suas majestades tomavam o trem de Paris para Londres, a alguém da comitiva ia esquecendo na plataforma da estação uma pequena mala contendo jóias no valor de cento e vinte mil libras! Felizmente, segundos antes da partida do trem, a imperatriz deu pela falta, e as jóias continuam a adornar as toilettes de sua majestade.
Diz-se geralmente que, em Portugal, o público tem ideia de que o Governo deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo; tira-se daqui a conclusão que somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade e inaptos para a independência. A nossa pobreza relativa é atribuída a este hábito político e social de depender para tudo do Governo, e de volver constantemente as mãos e olhos para ele como para uma Providência sempre presente. Pois bem: em Inglaterra, país de iniciativa individual, de alta independência pessoal, o público considera o parlamento como uma espécie de pai benévolo que tudo deve fazer, tudo remediar, tudo compor. As petições feitas por indivíduos ao parlamento sobre negócios particulares – contam-se por milhares e milhares em cada sessão.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.