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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Ao ver Cristóvão, fechou o breviário – e examinou-lhe outra vez, com satisfação, os grandes membros serviçais. Depois, por um corredor, alto e fresco, levou-o a um claustro que cercava um jardim; ruas areadas contornavam os canteiros de flores; ao meio cantava um repuxo; e um espaço, entre paredes que a hera revestia, estava lajeado, como chão de igreja. Aí quatro frades, de hábitos arregaçados, jogavam a bola; outros, mais longe, conversavam ao sol; e sob um caramanchão o abade dormitava, com as mãos cruzadas no ventre.

Mas quando Cristóvão apareceu, tudo se interrompeu, todos ergueram as faces, um rumor correu de espanto: - e o guardião diante de Cristóvão, que hesitava, com o seu barrete na mão, fazia-lhe sinais para o levar até ao abade.

Sua Senhoria deu um salto na cadeira ao encarar com o monstro. Depois ergueu as mãos ao Céu, com olhos de piedade. Para mostrar a força de Cristóvão, o guardião mandou-lhe erguer uma pilastra partida que jazia no chão. Cristóvão brandiu a pilastra, como um simples cajado: e todos os frades recuaram com grandes ahs maravilhados.

Cristóvão fora trazido para servir no convento, fazendo o trabalho de muitos serventes. O rancheiro, porém, perguntava se era na realidade uma economia – porque ele igualmente comeria a ração de muitos homens. Os frades argumentavam com gravidade. O abade, porém, decidiu. Além da economia, o convento ganhava a glória de possuir o mais forte de todos os homens. E imediatamente Cristóvão foi levado às cavalariças para as limpar.

Foi o servo da comunidade – e sobre ele recaiu todo o serviço do convento, onde havia oitenta frades, trinta noviços, e dependências inumeráveis. Varria os pátios, limpava as mulas, cavava as hortas, caiava os muros, carregava os sacos de farinha, acarretava os feixes de lenha – e era ele que trazia das pedreira as grandes pedras para as obras da lavanderia . Durante longos meses os seus fortes ossos rangeram sob o trabalho violento. Substituía as cavalgaduras, puxando os carros pesados, com eixos de ferro. Todo o dia, dentro do convento, na cerca, sob o sol ou sob a chuva, a sua forte figura se movia no trabalho contínuo: só por vezes descansava, para tirar do poço um balde de água, que punha à boca, e secava de um trago. À noite, estendido sobre as lajes do pátio, dormia de um sono de animal, entre os cães soltos, que lhe punham as patas sobre o peito, como sobre um rebordo de muralhas, para ladrar contra os ruídos da noite.

Todos os anos, na véspera da Candelária, o padre-mestre reunia os serventes, e interrogava-os sobre a doutrina. Cristóvão não pôde responder, nem sequer enfiar o padre-nosso. Não sabia quem criara o Mundo – e eram-lhe desconhecidos os casos do Paraíso. Aterrado com tão negra ignorância, o abade ordenou que Cristóvão assistisse à aula de História Sagrada. O seu imenso corpo não cabia nos bancos da escola: - e o padre-mestre dispôs que Cristóvão, encostando-se ao muro do pátio, aplicasse a cabeça à janela aberta da aula.

Quando a sineta de estudo tocava, Cristóvão chegava ao muro: - e a sua imensa grenha surgia no parapeito da janela. Todos os discípulos riam – e os mais inquietos atiravam-lhe aos olhos caroços de frutos ou vibravam-lhe, como pequenas lanças, penas de pato que se lhe enterravam na grenha. Ele sorriam com paciente respeito.

Sentado no estrado o mestre ensinava – e Cristóvão, como através de um névoa, entrevia as coisas maravilhosas do começo do Mundo. Um Deus enorme, grande como ele, alargando os seus braços potentes, separava o Sol e a Lua; a sua voz era o trovão que rolava; e o seu sopro ora fazia curvar as florestas, ora encapelava as vagas. Mas os homens começavam a povoar a terra, e Deus entrava logo em grandes cóleras. Ao seu capricho as cidades tombavam, sepultando sob as ruínas as criancinhas que sorriam nos berços; vastos prados secavam, e os gados balavam lamentavelmente de fome; um grande terror tomava a terra: - e os homens viviam no terror daquela mão imensa, que só saía das nuvens para os devastar.

De noite, o doce sono fugia de Cristóvão. E encolhido, voltava para o Céu os olhos desconfiados. Se Deus reparando nele, de repente, fizesse sobre ele cair o fogo que queimara Gomorra? Todo o barulho o inquietava: e numa noite de trovoada os seus gritos acordaram todo o convento.

Mas o padre-mestre bem depressa começou a explicar os dogmas. E foi como se toda a Terra e Céu perdessem a sua realidade, ficando apenas deles baixas névoas que flutuavam. Nas alturas já não governava um homem forte e velho, de longas barbas: - mas uma trindade, que era de três, mas que formava um só, e era um Pai, um Filho, e um Espírito que tinha asas. O pecado não era fazer mal, mas nascer, e a água, escorrendo de uma concha, lavava-o como um linho sujo. Cristóvão arregalava os olhos desmedidamente – e as prédicas do padre-mestre eram como névoas que flutuavam intangíveis, logo, esvaídas apenas formadas. Sentia como uma tristeza diante daquelas coisas inacessíveis: e o suspiro que lhe fugia do peito fazia voltar os noviços, que, às escondidas do padre. lhe faziam visagens como de demônios.



(continua...)

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