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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- É onde ainda se encontra alguma fé, é nas aldeias, considerou ela com um tom piedoso. - Queixou-se da obrigação de viver na cidade, nos cativeiros do luxo: desejaria habitar sempre na sua quinta de Carcavelos, rezar na pequena capela antiga, conversar com as boas almas da aldeia! - e a sua voz tornara-se terna.

O rapaz rechonchudo ria-se:

- Ora, prima! dizia, ora, prima! - Não, ele, se o obrigassem a ouvir missa, numa capelinha de aldeia, até lhe parecia que perdia a fé!... Não compreendia, por exemplo, a religião sem música... Era lá possível uma festa religiosa, sem uma boa voz de contralto?

- Sempre é mais bonito, disse Amaro.

- Está claro que é. É outra coisa! Tem cachet! Ó prima, lembra-se daquele tenor... como se chamava ele? O Vidalti! Lembra-se do Vidalti, na quinta-feira de Endoenças, nos Inglesinhos? O tantum ergo?

- Eu preferia-o no Baile de Máscaras, disse a condessa.

- Olhe que não sei, prima, olhe que não sei!

No entanto o rapaz louro viera apertar a mão à senhora condessa, falando-lhe baixo, muito risonho; Amaro admirava a nobreza da sua estatura, a doçura do seu olhar azul; reparou que lhe caíra uma luva, e apanhou-lha servilmente. Quando ele saiu Teresa, depois de se ter aproximado vagarosamente da janela e olhando para a rua - foi sentar-se numa causeuse com um abandono que punha em relevo a magnífica escultura do seu corpo, e voltando-se preguiçosamente para o rapaz rechonchudo:

- Vamo-nos, João?

A condessa disse-lhe então:

- Sabes que o Sr. padre Amaro foi criado comigo em Benfica?

Amaro fez-se vermelho: sentia que Teresa pousava sobre ele os seus belos olhos dum negro úmido como o cetim preto coberto de água.

- Está na província agora? perguntou ela, bocejando um pouco.

- Sim, minha senhora, vim há dias.

- Na aldeia? continuou ela, abrindo e cerrando vagarosamente o seu leque.

Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus dedos finos; disse, acariciando o cabo do guarda-

sol:

- Na serra, minha senhora.

- Imagina tu, acudiu a condessa, é um horror! Há sempre neve, diz que a igreja não tem telhado, são tudo pastores. Uma desgraça! Eu pedi ao ministro a ver se o mudávamos. Pede-lhe tu também...

- O quê? disse Teresa.

A condessa contou que Amaro requerera para uma paróquia melhor. Falou de sua mãe, da amizade que ela tinha a Amaro...

- Morria-se por ele. Ora um nome que ela lhe dava... Não se lembra?

- Não sei, minha senhora.

- Frei Maleitas!... Tem graça! Como o Sr. Amaro era amarelito, sempre metido na capela...

Mas Teresa, dirigindo-se à condessa:

- Sabes com quem se parece este senhor?

A condessa afirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou a luneta.

- Não se parece com aquele pianista do ano passado? continuou Teresa. Não me lembra agora o nome...

- Bem sei, o Jalette, disse a condessa. - Bastante. No cabelo, não.

- Está visto, o outro não tinha coroa!

Amaro fez-se escarlate. Teresa ergueu-se arrastando a sua soberba cauda, sentou-se ao piano.

- Sabe música? perguntou, voltando-se para Amaro.

- A gente aprende no seminário, minha senhora.

Ela correu a mão, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas, e tocou a frase do Rigoleto, parecida com o Minuete de Mozart , que diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro ato, da senhora de Crécy, - e cujo ritmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que findam, e de braços que se desenlaçam em despedidas supremas.

Amaro estava enlevado. Aquela sala rica com as suas alvuras de nuvem, o piano apaixonado, o colo de Teresa que ele via sob a negra transparência da gaze, as suas tranças de deusa, os tranqüilos arvoredos de jardim fidalgo davam-lhe vagamente a idéia duma existência superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em coupés acolchoados, com árias de óperas, melancolias de bom gosto e amores dum gozo raro. Enterrado na elasticidade da causeuse, sentindo a música chorar aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu cheiro de refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e, assustado, demora o seu prazer - pensando que vai voltar à dureza das côdeas secas e à poeira dos caminhos.

No entanto Teresa, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga ária inglesa de Haydn, que diz tão finamente as melancolias da separação:

The village seems dead and asleep

When Lubin is away!...

- Bravo! bravo! exclamou o ministro da Justiça, aparecendo à porta, batendo docemente as palmas. Muito bem, muito bem! Deliciosamente!

- Tenho um pedido a fazer-lhe, Sr. Correia, disse Teresa erguendo- se logo.

O ministro veio, com uma pressa galante:

- Que é, minha senhora? que é?

O conde e o sujeito de magníficas suíças tinham entrado discutindo ainda.

(continua...)

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