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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

E Gonçalo retomara as suas recordações, repassava tristezas que depois caíram sobre a Torre. Vicente Ramires morrera numa tarde de agosto, sem sofrimento, estendido na sua poltrona à varanda, com os olhos cravados na velha Torre, murmurando para o Padre Soeiro: - "Quantos Ramires verá ela ainda, nesta casa, e à sua sombra?" Todas essas férias as consumiu Gonçalo no escuro cartório, desajudado (porque o procurador, o bom Rebelo, também Deus o chamara), revolvendo papéis, apurando o estado da casa - reduzida aos dois contos e trezentos mil réis que rendiam os foros de Craquede, a herdade de Praga, e as duas quintas históricas, Treixedo e Santa Irenéia. Quando regressou a Coimbra deixou Gracinha em Oliveira, em casa de uma prima, D. Arminda Nunes Vilegas, senhora muito abastada, muito bondosa, que habitava no Terreiro da Louça um imenso casarão cheio de retratos de avoengos e de árvores de costado, onde ela, vestida de veludo preto, pousada num canapé de damasco, entre aias que fiavam, perpetuamente relia os seus Livros de Cavalaria, o Amadis, Leandro o Belo, Tristão e Brancaflor; as Crônicas do Imperador Clarimundo... Foi aí que José Barrolo (senhor duma das mais ricas casas de Amarante) encontrou Gracinha Ramires, e a amou com uma paixão profunda, quase religiosa - estranha naquele moço indolente, gorducho, de bochechas coradas como uma maçã, e tão escasso de espírito que os amigos lhe chamavam "o José Bacoco". O bom Barrolo residira sempre em Amarante com a mãe, não conhecia o traído romance da "Flor da Torre" - que nunca se espalhara para além dos cerrados arvoredos da quinta. E, sob o enternecido e romanesco patrocínio de D. Arminda, noivado e casamento docemente se apressaram, em três meses, depois duma carta de Barrolo a Gonçalo Mendes Ramires jurando "que a afeição pura que sentia pela prima Graça, pelas suas virtudes e outras qualidades respeitáveis, era tão grande que nem achava no Dicionário termos para a explicar..." Houve uma boda luxuosa: e os noivos (por desejo de Gracinha, para se não afastar da querida Torre), depois duma jornada filial a Arnarante, armaram o seu ninho" em Oliveira, à esquina do largo de El-Rei e da rua das Tecedeiras, num palacete que o Bacoco herdara, com largas terras, do seu tio Melchior, Deão da Sé. Dois anos correram, mansos e sem história. E Gonçalo Mendes Ramires passava justamente em Oliveira as suas últimas férias de Páscoa quando André Cavaleiro, nomeado Governador Civil do Distrito, tomou posse, estrondosamente, com foguetes, filarmônicas, o Governo Civil e o Paço do Bispo iluminados, as armas dos Cavaleiros em transparentes no café da Arcada e na Recebedoria!... Barrolo conhecia o Cavaleiro quase intimamente, admirava o seu talento, a sua elegância, o seu brilho Político. Mas Gonçalo Mendes Ramires, que dominava soberanamente o bom Bacoco, logo o intimou a não visitar o Sr. Governador Civil, a não o saudar sequer na rua, e a partilhar, por dever de aliança, os rancores que existiam entre Cavaleiros e Ramires! José Barrolo cedeu, submisso, espantado, sem compreender. Depois uma noite, no quarto, enfiando as chinelas, contou a Gracinha "a esquisitice de Gonçalo":

- E sem motivo, sem ofensa, só por causa da Política!... Ora, vê tu! Um belo rapaz como oCavaleiro! Podíamos fazer um ranchinho tão agradável!...

Outro sereno ano passou... E nessa primavera, em Oliveira, onde se demorara para a festa dos anos de Barrolo, eis que Gonçalo suspeita, fareja, descobre uma incomparável infâmia! O empertigado homem da bigodeira negra, o Sr. André Cavaleiro, recomeçara com soberba impudência a cortejar Gracinha Ramires, de longe, mudamente, em olhadelas fundas, carregadas de saudade e langor, procurando agora apanhar como amante aquela grande fidalga, aquela Ramires, que desdenhara como esposa!

Tão levado ia Gonçalo pela branca estrada, no rolo amargo destes pensamentos, que não reparou no portão da Torre, nem na portinha verde, à esquina da casa, sobre três degraus. E seguia, rente do muro da horta, quando Videirinha, que estacara com os dedos mudos nos bordões do violão, o avisou, rindo:

- Oh, Sr. Doutor, então larga assim a estas horas de corrida para os Bravais?

Gonçalo virou, bruscamente despertado, procurando na algibeira, entre o dinheiro solto, a chavinha do trinco:

- Nem reparava... Que lindamente você tem tocado, Videirinha! Com lua, depois de ceia, não hácompanheiro mais poético.. Realmente você é o derradeiro trovador português!

Para o ajudante de Farmácia, filho de um padeiro de Oliveira, a familiaridade daquele tamanho Fidalgo, que lhe apertava a mão na botica diante do Pires boticário e em Oliveira diante das Autoridades, constituía uma glória, quase uma coroação, e sempre nova, sempre deliciosa. Logo sensibilizado, feriu os bordões rijamente:

- Então, para acabar, lá vai a grande trova, Sr. Doutor!

Era a sua famosa cantiga, o Fado dos Ramires, rosário de heróicas Quadras celebrando as Lendas da Casa ilustre que ele desde meses apurava e completava, ajudado na terna tarefa pelo saber do velho Padre Soeiro, capelão e arquivista da Torre.

(continua...)

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