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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Disse, e fui procurar o cavalo. Tinha-se desprendido e estava a espolinhar-se em regaladas cambalhotas.

As cilhas do selim estavam partidas; as rédeas também; a cabeçada tinha apenas duas correias úteis.

Rugi de cólera, e o cavalo, espavorido, fugiu a desapoderado galope, caminho de Lisboa.

A providência é mestra do ridículo, quando quer. O meu rancor repartiu-se entre amante de Paula e o quadrúpede fugitivo. Depois, sentei-me esbofado num degrau de escada, olhei para a lua, olhei para mim, olhei para o selim que eu trouxera debaixo do braço, e ri-me.

E o meu riso era um espirro de ferocidade, uma destas coisas que sente o Lúcifer quando sacode a vertigem da raiva impotente contra Deus.

Eram quatro horas da manhã quando emergi do meu letargo. Vi um padeiro, que me contemplava assustado: pedi-lhe que me levasse o selim entre a carga; e eu caminhei, admirando a impassibilidade da natureza, que parecia zombar de mim, pela voz dos seus rouxinóis, dos seus cochichos e das suas calhandras.

V

O meu cavalo, afrontando-se com a barreira, parou. Quando eu cheguei, estava ele amarrado com um cabresto às grades da porta, e os guardas escreviam um ofício ao respectivo comandante, participando a presa que haviam feito e pedindo ordens sobre o destino do vadio.

Convenci-os de que o cavalo oficiado era meu pelo testemunho convincente da sela e dos fragmentos d cabeçada; mas, como não quisessem perder o ofício, obrigaram-me a esperar a resposta da autoridade que houve a bem julgar-me o legal proprietário da besta. Receei que a lógica da sela não persuadisse o chefe daqueles sujeitos.

Estas miudezas podem enfastiar os espíritos frívolos; mas para mim tenho que os menores episódios das vidas, predestinadas a grandes destinos, são fatos ponderáveis nos ânimos reflexivos.

Recolhi-me ao meu quarto, sondei as profundezas da minha alma, e deste mergulho à consciência saí com má cara e ideias sinistras.

Eu tinha um par de pistolas de coldres, carregadas muitos meses antes. Para as carregar com a certeza de levar nelas a morte, desfechei-as contra o saguão da casa. A detonação fez grande estrondo e causou grande susto a uma senhora grávida, que perdeu os sentidos. O marido desta matrona era cunhado do regedor, e foi queixar-se de mim, como causa dum abalo que podia trazer as funestas consequências dum motivo e a perda do menino, em que ele fiava as alegrias da sua velhice. A dona do hotel, quando tal soube, disse que eu era muito feliz em ter contra mim as queixas de um só dos pais daquele menino possível. Parece-me que esta mulher, com tal juízo sobre paternidades, ia de encontro às ideias que tenho sobre o fenômeno da geração.

Ora o regedor, nesse mesmo dia, fez-me intimar para ir à sua presença, e interrogou-me, dali fui com um cabo e um ofício ao administrador, que me mandou com um ofício e um cabo ao Governo Civil. Aqui me foi pedida a licença de usar de pistolas; e, como eu não a tivesse, ia ser metido em processo, a não me valerem alguns amigos que podiam muito com a autoridade. Vejam que trabalhos!

O menino da mulher do meu vizinho vingou, segundo vi passados tempos. Na minha vida não há sequer o pesar dum infanticídio involuntário.

Carreguei as pistolas e fui na noite do seguinte dia a Benfica. A poucos passos distante do palacete de Paula apeei e fiz retroceder o criado com o cavalo a esperar-me em determinado ponto.

Soou meia-noite.

A folhagem dos álamos rumorejava nas asas das brisas. A Lua, coada por entre os dosséis de trepadeiras, mosqueava a relva dos pradozinhos ajardinados de Paula. Lá do interior vinha uma toada suave de fonte que mais parecia um gemer de saudade.

A intervalos, as lufadas da viração rolavam as folhas secas, e a cigarra e o grilo pareciam calar-se para ouvi-las.

Este ouvir e sentir refrigerou-me a febre da alma. Contemplei-me em minhas ferozes intenções, no centro dum espetáculo tão majestoso de poesia e inspirador de pensamentos afetuosos. A razão, resgatada momentaneamente pelos bons instintos e moralizadora educação que meus pais me deram, sopesou os ímpetos do coração vingativo. Desceu o anjo da paz à minha alma, e renasceu-me lá a esperança de encontrar alguma vez a mulher digna de mim, cuja posse me não custasse o sangue do meu semblante.

Ergui-me no intuito de abandonar para sempre à vingança da providência a mulher fementida e o vitorioso rival; ao dar, porém, os primeiros passos, relaceei os olhos ao jardim e vi um vulto vestido de branco, branco do mármore das estátuas tumulares. Estaquei, e o vulto caminhou direito à grade. “É ela”, disse o meu coração em ânsias. “Que veio aqui fazer Paula? Enganar-se-ia ela comigo?”

Retirei-me a um lado para ficar encoberto pelo muro. O vulto acelerou o passo, abriu subtilmente a grade, meteu fora a cabeça e murmurou:

- Já estão a dormir todos: podes entrar. Fiz-te esperar muito tempo?

(continua...)

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