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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

No entretanto, soubera Teodora que Afonso de Teive fora para Lisboa. Esta partida azedou-lhe a vaidade, sem embargo de ter sabido a destemperada arremetida que ele fizera contra a porteira e as vergonhas e trabalhos que lhe ia custando ao pobre moço aquela façanha. Porém, ninguém lhe dissera que dores o puseram à borda da sepultura, que saudades o crucificavam em Lisboa e que vãs solicitações fazia a mãe de Afonso para assegurar à filha da sua defunta amiga a certa realização do casamento.

Sobreveio ao despeito o enojo crescente, que mortificava a reclusa, sempre espiada, e perseguida de velhas conselheiras, que tomaram à sua conta salvá-la. despeito e ao enojo, acresceu o visitá-la com mais frequência, e um pouco melhorado de figura, seu primo Eleutério. Dantes, a cabeça exterior do moço era hórrida, toda escadeada da tesoura hábil em tosquiar reses, tufada de grenhas, com umas repas caracoladas sobre as orelhas, e aquele todo lustroso de azeite. Depois, apareceu Eleutério com o cabelo cortado à escovinha e os caracóis banidos. Depôs a casaca no gavetão-museu da família e envergou uma judia, como se usava então, com matizes e florões nas costas, e borlas de apertar no pescoço. A pantalona continuava-se em polaina até à ponta do pé e abotoava sobre meio palmo do artelho com botões de madrepérola. Além disto, o pai deulhe o relógio avoengo, que, no continente e conteúdo de caixas sobrepostas, parecia a baixela de uma família, desde a tina do banho até à bacia do lavatório. Os berloques deste tesouro, que não regulava há quarenta anos, eram placas de diferentes pedras e sinetes periformes de tal tamanho que pareciam armas de defesa.

Teodora custou-lhe a reconhecer o primo Eleutério, afora mãos e pés, que nenhuns outros podiam confundir-se com os dele, a despeito mesmo das torturas em que os trazia entalados. O rapaz tinha conquistado de sua prima uma admiração comparativa: era já grande salto dado para dentro do coração da menina.

Li em algures, e estou convencido de uma verdade que soa como paradoxo, e é que

o espirito de cada pessoa tem muito que ver com o modo como ela está entrajada. A intelectualidade apouca-se e confrange-se quando o sujeito se olha em si e se desgosta da compostura dos seus vestidos. O desaire do espírito como que se identifica ao desaire do corpo. As ideias saem coxas e esconsas do cérebro; a expressão tardia e canhestra denuncia o retraimento da alma; há o que quer que seja fenomenal que eu tivera em conta de desvario meu, se muitos sujeitos me não tivessem confessado semelhantes segredos de psicologia, em que o alfaiate exercita importante alçada.

Demonstrado isto, explica-se o atavio de palavras com que Eleutério se saiu no palratório no dia em que se mostrou desfigurado. De vez em quando, o moço baixava modestamente os olhos requebrados sobre os berloques, e ao levantá-los para sua prima já nos beiços lhe borbulhava alguma ideia bonita. Igual fortuna o bafejava quando, acaso ou por acinte, se via de polainas, abotoadas tanto ao justo da canela, que se ficava algum tempo narcisando nos pés.

Deste primeiro colóquio saiu a morgada pensativa. Algumas senhoras, grandemente e astuciosamente admiradas, entraram na cela da menina a perguntar-lhe se era, em verdade, seu primo Eleutério o peralta que a visitara. Teodora respondia que sim entre ufana e desdenhosa. As freiras benziam-se e exclamavam:

- Que perfeito rapaz ele se fez! Ninguém havia de dizer o que saia dali! Em Braga não passeia outro que o valha, nem quem o exceda.

- Seu primo é uma figura que dá na vista! - ajuntava a mais deliciosa das freiras para não ficar em pecado com a sua consciência.

Teodora, quando acordou na manhã seguinte, viu duas imagens: uma enevoar-se e esvair-se como sonho que a memória não pode já reter: era a imagem de Afonso; outra avultou-lhe completa nos menores traços, radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleutério Romão dos Santos.

Ergueu-se alegre, abriu a janela do seu cubículo, aspirou o ar do céu, que nunca lhe parecera de tão lindo azul, e invejou as aves que volitavam mui serenas gorjeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que à menina se figuraram as delicias da liberdade.

(continua...)

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