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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Qual cama! Detesto esse móvel. O sono é uma fraqueza indigna dos homens de espírito. O sono é o resultado de uma anemia cerebral e, para as anemias, os médicos aconselham os tônicos e os exercícios. Eu já tenho os tônicos, vamos agora à outra medicação. Um poeta não dorme; o poeta é vidente e o vidente deve estar sempre com os olhos abertos. Rompeu a rir, logo, porém, muito sério, atirando uma punhada que o levou, no ímpeto, de encontro à parede, rugiu: — Eu queria andar. À noite é que a gente caminha à vontade porque as ruas estão desertas. Detesto a multidão! — e cuspiu enojado. A multidão é ignóbil! Não há como a solidão para um homem de talento. Vamos a Niterói: há ali muita poesia e eu tenho ainda uns restos de 1632... podemos fazer a travessia.

— Tiraste a sorte grande? — perguntou Ruy Vaz.

— Eu?! Deus me livre! Saiu ao Capitão Negro. Eu escrevi os versos fazendo a apologia da sorte do quiosque. Ganhei vinte mil réis. Vocês não leram os versos na Gazeta? Estão bem bons para o preço. Há apenas uma rima pobre demais para um poema da fortuna; rimei, imaginem vocês, rimei estrela com vela. O e estrela não faz boa liga com o de vela, um é grave, outro é agudo, mas também, por vinte mil réis, não posso estar a escolher rimas milionárias. Mergulho a mão no saco e o que sai é magnífico. Demais vela e estrela dão luz, ambas são luminosas. A vela é a estrela da terra, a estrela é a vela do céu, disse com ênfase. Mas o diabo é que eu empreguei o verbo. Vamos ou não a Niterói?

— Eu não vou, disse Ruy Vaz. Anselmo declarou que sentia bastante não poder acompanhar o poeta, mas tinha grandes afazeres no dia seguinte, precisava acordar cedo.

— Gente fraca! — disse ele com desprezo. Pois eu vou. Boa-noite! E, muito desequilibrado, entrou na Maison Moderne. Ruy Vaz e Anselmo seguiram.

A cidade dormia. Começavam a varrer as ruas. Densa nuvem de poeira empanava o brilho dos lampiões e, dentro dessa bruma espessa, de um tom alourado, moviam-se homens cantando e atirando vassouradas: carroças rodavam parando de quando em quando. Raras mulheres, debruçadas às janelas, cochilavam. Tílburis passavam à disparada e os dois, em passos apressados, seguiam cosidos aos muros, com os lenços à boca. Apitos trilaram ao longe e, com estrépito sonoro, os soldados da ronda passaram a toda brida através da poeira como cavaleiros fantásticos. Vinham rapazes cantando em vozeirão atroador.

Livrando-se da poeirada, os dois moderaram o andar e Ruy Vaz, queixandose da vida que levava naquela casa, onde mal podia trabalhar, à falta de conforto, quis saber onde morava o estudante. Estava provisoriamente em um cômodo, no Estácio de Sá, mas pretendia tomar todo o segundo andar de uma casa na rua Formosa, que lhe oferecera uma velha viúva por preço vantajoso, com pensão. O romancista deteve-se e, encarando o estudante, perguntou:

— Conheces os cômodos?

— Conheço: sala de frente com duas janelas para a rua e uma para o telhado, alcova, sala de jantar, outra alcova e um mirante sobre o telhado.

— E pensão?

— Sim, com pensão.

— Por quanto?

— Eu tratei para dois: duzentos mil réis.

— Isso é um achado! E se morássemos três? — aventurou o romancista.

— Posso falar à viúva.

— Para quê? Depois de lá estarmos fala-se: é questão de mais um talher à mesa. Tens mobília?

— Alguma.

— E o outro? Quem é?

— Um estudante de Medicina, meu amigo, primo deste Duarte.

— Um alto, magro, de olhos tristes: Toledo, creio.

— Esse mesmo.

— Conheço muito. — um excelente rapaz. Vamos viver magnificamente. Quando fazes a mudança?

— Vou amanhã falar à mulher e, depois de amanhã, pretendo estar instalado, mesmo porque ando com idéias de trabalho. Tenho uma peça pronta e um romance esboçado.

— Depois de amanhã que dia é?

— Sábado.

— Magnífico! Vai lá falar à mulher e depois de amanhã mudamo-nos. Vozes atroaram o silêncio e uma célebre trepidação de rebanho em marcha fez com que os rapazes parassem colando-se à parede e logo dois campeiros surgiram, a cavalo, estalando chicotes, cantarolando e, em seguida, uma boiada a trote, os animais muito juntos, em bolo, silenciosos. Os grandes chifres entrebatiam-se e homens atiravam os cavalos à calçada ou passavam por entre os mansos animais, bradando, como nos campos: "Ehôo!... toca! Junta... êeh!" E a manada seguia e perdeu-se na poeira dourada de onde apenas vinham os gritos dos guieiros.

— É o bife.

— Para onde vai isso?

— Para Niterói, creio eu. Um bêbado resmungava cambaleando, às guinadas. Ouviram tinidos de campainhas e uma tropa de burros desfilou, sacolejando serões, a caminho do mercado.

Vou-me embora... Vou-me embora!

É mentira, não vou não...

Se eu vou m'embora, faceira, Deixo aqui meu coração.

Cantava languidamente o tropeiro escarranchado na bestinha viageira, puxando a récua.

— Pleno sertão.

(continua...)

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