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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Ao do fero ouvidor, se no conflito,

Que há muito trazem com o grande Almada

O jus do povo defender quiserem,

Quando na sala entrando furioso

A sua excomunhão refere o Mustre,

E lhes pede em defesa da coroa

O braço popular. Todo o congresso

Gelado fica. Súbito as cadeiras

Pela terra deitando, às portas correm

Os graves camaristas, e fugindo

Ao mísero ouvidor excomungado,

Para casa se lançam. Da pedreira,

Lançado o fogo à mina, a toda a pressa

Da mesma sorte os cavouqueiros fogem

Receosos de avulsos estilhaços.

XII

Em vão a Ira, com diversas formas,

A todos busca, e amaciando a fala,

A lembrança do afeto lhes desperta,

Os jantares comidos noutro tempo,

Os festivos saraus, cartas de empenho,

Mil finezas, em suma, sepultadas

No vasto cemitério da memória...

A filha do diabo então sacode

Irritada a cabeça, e do mais fundo

Das entranhas um grito de ameaça

E frio escárnio solta: “Homens! (exclama)

Lacaios da fortuna! Eu terei armas

Com que de ingratos corações triunfe!”

XIII

Isto dizendo, mais ligeira voa

Que o soberbo condor, quando do cimo

Dos Andes rompe o assustado espaço,

E vai surgir além das altas nuvens.

- Voa, e chega aos domínios da Lisonja.

Os flóridos umbrais transpõe de um salto.

Logo em frente lhe surge extensa e bela

Uma alameda de árvores copadas,

Que, para a terra os galhos recurvando,

Com singular donaire e afável gesto

Cortejá-la parecem respeitosas.

Caminha, e fina relva os pés lhe afaga;

Respira, e um doce aroma o peito lhe enche.

A tão brando contacto, a tais delícias,

Ó milagre! um sorriso prazenteiro

Logo vem desbrochar-lhe à flor dos lábios

Que eterna raiva aperta. Segue avante,

A branca e longa escadaria sobe,

A varanda atravessa alcatifada

De brancas flores e cheirosa murta.

Já rendida de gosto, entra na sala,

Dá dous passos, e a recebê-la chegam

Vinte ou trinta Zumbaias, que vergando

Pela cintura o corpo delicado,

Beijar o chão parecem; após delas,

Com dourados turíbulos acesos,

Vêm quatro Rapapés; fechando tudo

Extensa procissão de Cortesias.

XIV

De tais recebimentos namorada,

O primeiro salão transpõe a culpa,

Entra no camarim, forrado todo

De flores, de arabescos, laçarias,

Que enche contínuo, tépido perfume

De seis grandes caçoulas de alabastro.

Entra, e defronte de um pomposo espelho

A Lisonja descobre, que risonha

Mil cumprimentos novos ensaiava

E mil versos rasteiros repetia.

Ao ver a feroz culpa a dona amável

Uma grande mesura em quatro tempos

Graciosa faz, e diz: “A que milagre

Devo eu esta visita? Acaso o orbe,

Que ao peso treme de tuas nobres armas,

Estreito campo é já para teus feitos?

Vens o peito acender da serva tua?

Bem cruel me há de ser esse desastre,

Mas se é teu gosto, sofrerei contente,

A terra beijarei que tu pisares

E acharei na desgraça a glória minha”.

A ardilosa Lisonja assim falando

Toda se curva, e a orla do vestido

Da culpa chega aos lábios; mas a Ira

Prontamente a levanta, e nos seus braços,

Com meneios benévolos, a aperta,

E logo fala: “A tua paz respeito:

Turvar não venho a deliciosa corte

Donde o mundo governas; mas auxílio

Do teu engenho quero”. Aqui lhe conta

A famosa aventura do prelado,

A angústia do ouvidor, e a covardia

Dos ingratos amigos de outro tempo,

E pede que a Lisonja as armas suas

Contra estes empregue. “Que mesquinho

Serviço exiges! (a Lisonja exclama).

Eu podia mandar quatro Zumbaias;

Tanto bastava por vencer o ânimo

Dos rebeldes; mas sendo a vez primeira

Que vens honrar estes quietos paços,

Abater-lhes o colo irei eu mesma

E levá-los de rojo aos pés do Mustre”.

XV

Com diligente mão os filtros busca,

E seguida da hóspede no espaço

Voa ligeira à plaga fluminense.

À casa dos rebeldes se encaminha,

E a todos, um por um, pela alma dentro,

O seu doce veneno lhes entorna.

De baixa adulação logo tomados,

Vestem-se a toda a pressa, e não podendo

Conter o intenso fogo que os devora,

Aos criados de casa e às quitandeiras

Vão fazendo profundas barretadas.

Tanto a Lisonja vã governa os homens!

XVI

Abre a sessão de novo o presidente,

(continua...)

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