Por Eça de Queirós (1875)
E o bom abade respondia com paciência - contente de a ver esquecida do pároco, ocupada de João Eduardo: tinha agora a certeza que aquele casamento se faria: ela evitava, de resto, pronunciar sequer o nome de Amaro, e uma vez mesmo respondeu ao abade que lhe perguntava se o senhor pároco voltara à Ricoça:
- Ai, vem pela manhã ver a madrinha... Mas eu não lhe apareço, que nem estou decente...
Todo o tempo que podia estar de pé, passava-o agora à janela, muito arranjada da cinta para cima que era o que se podia ver da estrada - enxovalhada das saias para baixo. Estava esperando João Eduardo, os Morgados e o lacaio; e tinha de vez em quando, com efeito, o gozo de os ver passar, naquele passo bem lançado de cavalos de preço, sobretudo o da égua baia de João Eduardo, que ele defronte da Ricoça fazia sempre ladear, de chicote atravessado e perna à Marialva, como lhe ensinara o Morgado. Mas era o lacaio, sobretudo, que a encantava: e com o nariz nos vidros seguia-o num olhar guloso, até que à volta da estrada via desaparecer o pobre velho, de dorso corcovado, com a gola da farda até à nuca e as pernas bamboleantes.
E para João Eduardo que delícia aqueles passeios com os Morgaditos, na égua baia! Nunca deixava de ir à cidade: fazia-lhe bater o coração o som das ferraduras sobre o lajedo: ia passar diante da Amparo da botica, diante do cartório do Nunes, que tinha a sua banca ao pé da janela, diante da Arcada, diante do senhor administrador que lá estava na varanda de binóculo para a Teles - e o seu desgosto era não poder entrar com a égua, os Morgaditos e o lacaio pelo escritório do doutor Godinho que era no interior da casa.
Foi um dia, depois dum desses passeios triunfais, que voltando às duas horas da Barrosa, ao chegar ao Poço das Bentas e ao subir para o caminho de carros, viu de repente o Sr. padre Amaro que descia montado num garrano. Imediatamente João Eduardo fez caracolar a égua. O caminho era tão estreito, que apesar de se chegarem às sebes quase roçaram os joelhos - e João Eduardo pôde então, do alto da sua égua de cinqüenta moedas, agitando ameaçadoramente o chicote, esmagar com um olhar o padre Amaro que se encolhia muito pálido, com a barba por fazer, a face biliosa, esporeando ferozmente o garrano ronceiro. No alto do caminho João Eduardo ainda parou, voltou-se sobre a sela, e viu o pároco que apeava à porta do casebre isolado onde há pouco, ao passar, os Morgaditos tinham rido "do anão".
- Quem vive ali? perguntou João Eduardo ao lacaio.
- Uma Carlota... Má gente, Sr. Joãozinho!
Ao passar na Ricoça, João Eduardo, como sempre, pôs a passo a égua baia. Mas não viu por trás dos vidros a costumada face pálida sob o lenço escarlate. As portadas da janela estavam meio cerradas; e ao portão, desatrelado com os varões em terra, o cabriolé do doutor Gouveia.
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É que tinha chegado enfim o dial Nessa manhã viera da Ricoça um moço da quinta com um bilhete de Amélia quase ininteligível - Dionísia depressa, a coisa chegou! Trazia ordem também de ir chamar o senhor Gouveia. Amaro foi ele mesmo avisar a Dionísia.
Dias antes, tinha-lhe dito que D. Josefa, a própria D. Josefa, lhe inculcara uma ama - que ele já ajustara, grande mulher, rija como um castanheiro. E agora combinaram rapidamente que nessa noite Amaro se postaria com a ama à portinha do pomar, e Dionísia viria dar-lhe a criança bem atabafada.
- Às nove da noite, Dionísia. E não nos faça esperar! - recomendou-lhe ainda Amaro vendo-a abalar num espalhafato.
Depois voltou a casa e fechou-se no quarto, face a face com aquela dificuldade que ele sentia como uma coisa viva fixá-lo e interrogá-lo: - Que havia de fazer à criança? Tinha ainda tempo de ir aos Poiais ajustar a outra ama, a boa ama que a Dionísia conhecia; ou podia montar a cavalo e ir à Barrosa falar à Carlota... E ali estava, diante daqueles dois caminhos, hesitando numa agonia. Queria serenar, discutir aquele caso como se fosse um ponto de teologia, pesando-lhe os prós e os contras: mas tinha temerariamente diante de si, em lugar de dois argumentos, duas visões: - a criança a crescer e a viver nos Poiais, ou a criança esganada pela Carlota a um canto da estrada da Barrosa... - E, passeando pelo quarto, suava de angústia, quando no patamar a voz inesperada do Libaninho gritou:
- Abre; parocozinho, que sei que estás em casa!
Foi necessário abrir ao Libaninho, apertar-lhe a mão, oferecer-lhe uma cadeira. Mas o Libaninho felizmente não se podia demorar. Passara na rua, e subira a saber se o amigo pároco tinha noticia daquelas santinhas da Ricoça.
- Vão bem, vão bem, disse Amaro que obrigava a face a sorrir, a prazentear.
- Eu não tenho podido ir lá, que tenho andado mais ocupado!... Estou de serviço no quartel... Não te rias, parocozinho, que estou lá fazendo muita virtude... Meto-me com os soldadinhos, falo-lhes das chagas de Cristo...
- Andas a converter o regimento, disse Amaro que mexia nos papéis da mesa, passeava, numa inquietação de animal preso.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.