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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

Os jagunços sabiam que podiam fulminar dentro dos casebres — frágeis anteparos da argila — os moradores intrusos. O coronel Antonino Néri fora ferido, justamente quando, depois de atravessar com a sua brigada a zona perigosa e aberta do combate, se acolhera a um deles. Casamataram-nos, então. Espessaram-lhes as paredes com muros interiores, de pedras, ou revestiram-nas de tábuas. E assim mais garantidos, atravessando grande parte do dia, de bruços, sobre os jiraus, olhares rasantes pelos esvãos do colmo, dedos enclavinhados nos fechos da espingarda — os vitoriosos cheios de sustos tocaiavam os vencidos...

Sobre o quartel-general, centralizado pela barraca do comandante-em-chefe, na vertente oposta, os projetis passavam inofensivos, repelidos pelo ângulo morto da colina. E aquele teve durante todo o correr da noite, que lhe fechara a jornada trabalhosa, passando-lhe em sibilos ásperos sobre a tenda, os respingos dos tiroteios que se renhiam do outro lado com as linhas avançadas. Os comandantes destas, tenentes-coronéis Tupi Caldas e Dantas Barreto, destemerosos ambos, sentiam-se todavia na iminência de um desastre, compreendendo "que um passo à retaguarda em qualquer ponto da linha central lhes seria a perdição total". Porque esta preocupação de uma catástrofe próxima, iniludível, ninguém a ocultava.

Deduziam-se irresistivelmente na seqüência de anteriores sucessos. Impunha-se. Durante muitos dias dominou todos os espíritos.

"Um inimigo habituado à luta regular que soubesse tirar partido de nossas desvantagens táticas não teria certamente deixado passar esse momento em que a vingança e a desforra teriam a conseqüência da mais requintada selvageria."

Mas o jagunço não era afeito à luta regular. Fora até demasia de frase caracterizá-lo inimigo, termo extemporâneo, esquisito eufemismo suplantando o "bandido famigerado'' da literatura marcial das ordens do dia. O sertanejo defendia o lar invadido, nada mais. Enquanto os que lho ameaçavam permaneciam distantes, rodeava-os de ciladas que lhes tolhessem o passo. Mas, quando eles, ao cabo, lhe bateram às portas e lhas arrombaram a coices de armas, aventou-se-lhe, como único expediente, a resistência a pé firme, afrontando-os face a face, adstrito à preocupação digna da defesa e ao nobre compromisso da desforra. Canudos só seria conquistado casa por casa. Toda a expedição iria despender três meses para a travessia de cem metros, que a separavam da apside da igreja nova. E no último dia de sua resistência inconcebível, como bem poucas idênticas na história, os seus últimos defensores, três ou quatro anônimos, três ou quatro magros titãs famintos e andrajosos, iriam queimar os últimos cartuchos em cima de 6 mil homens!

Aquela pertinácia formidável começou no dia 18 e não fraqueou mais. Terminara o ataque mas a batalha continuou, interminável, monótona, aterradora, com a mesma intercadência espelhada na Favela: difundida em tiros que sulcavam o espaço de minuto a minuto, ou tiroteios alastrando-se furiosamente por todas as linhas, em arrancos súbitos, repentinos combates de quartos de hora, prestes travados, prestes desfeitos, antes que terminassem as notas emocionantes dos alarmas. Esses assaltos subitâneos, intermeados de longas horas de repouso relativo, traduziam sempre uma inversão de papéis. Os assaltantes eram, por via de regra, os assaltados. O inimigo encantoado é quem lhes marcava o momento angustioso das refregas, e estas surgiam sempre de chofre.

Noite velha, às vezes quebrando um armistício de minutos, que os soldados da vanguarda aproveitavam para descanso ilusório, cabeceando abraçados às carabinas, um foguetão ascendia rechiando asperamente, feito um rasgão no firmamento escuro. E à sua luz fugaz viam-se as cimalhas das igrejas debruadas de uma orla negra e fervilhante. O combate feria-se na treva, aos fulgores intermitentes das fuzilarias.

Outras vezes, contra o que era de esperar, era ao romper do dia, em plena manhã esplendorosa e ardente, que os jagunços acometiam desassombradamente, às claras.

NOTAS DE UM DIÁRIO

Um diário minucioso da luta naqueles primeiros dias, lhe patenteia o caráter anormalmente bárbaro. Esbocemo-lo em traços largos até ao dia 24 de julho, apenas para definir uma situação que daquela data em diante não se transmudou.

Dia 19 — A fuzilaria inimiga principia às cinco horas da manhã. Prossegue durante o dia. Entra pela noite dentro. O comandante da 1.ª coluna, para revigorar a repulsa, determina a vinda de mais dois canhões Krupps, que estavam na retaguarda, a fim de serem assestados à noite. Às doze e meia foi ferido, em seu acampamento, dentro de um casebre onde descansava, numa rede, o comandante da 7.ª Brigada. Às duas horas da tarde, depois de apontar e disparar o canhão da direita para uma das torres da igreja nova, morre trespassado por uma bala o tenente Tomás Braga. À tarde descem com dificuldade da Favela algumas reses para alimento da tropa. A boiada dispersa-se, fustigada a tiros, ao atravessar o Vaza-Barris, sendo a custo reunida, perdendo-se algumas cabeças. Ao toque de recolher os jagunços investem contra as linhas, perdurando o ataque até às nove e meia e continuando, afrouxo, daí por diante. Resultado: um comandante superior ferido; um subalterno morto, dez ou doze praças fora de combate.

(continua...)

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