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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Tomavam-na agora pela primeira vez entusiasmos de mãe. Desesperava-se em não poder ela mesma costurar o resto do enxoval. Queria que o rapaz - porque havia de ser um rapaz! - se chamasse Carlos. Cismava-o já homem, e oficial de cavalaria. Enternecia-se com a esperança de o ver gatinhar...

- Ai, eu é que o queria criar, se não fosse a vergonha!...

- Vai muito bem para onde vai, dizia Amaro.

Mas o que a torturava, a fazia chorar todos os dias era a idéia de ele ser um enjeitadinho!

Um dia veio ao abade com um plano extraordinário "que Lhe inspirara Nossa Senhora": ela casaria já com João Eduardo, mas o rapaz devia por uma escritura adotar o Carlinhos! Que para que o anjinho não fosse um enjeitado, casava até com um calceteiro da estrada! E apertava as mãos do abade, numa suplicação loquaz. Que convencesse João Eduardo, que desse um papá ao Carlinhos! Queria ajoelhar aos pés dele, do senhor abade, que era o seu pai e o seu protetor.

- Oh, minha senhora, sossegue, sossegue. Esse é também o meu desejo, como lhe disse. E há-de arranjar-se, mas mais tarde, disse o bom velho, atarantado daquela excitação.

Depois, daí a dias, foi outra exaltação: descobrira de repente, uma manhã, que não devia trair Amaro, "porque era o papá do seu Carlinhos". E disse-o ao abade; fez corar os sessenta anos do bom velho, palrando muito convencidamente dos seus deveres de esposa para com o pároco.

O abade, que ignorava as visitas do pároco todas as manhãs, assombrou-se.

- Minha senhora, que está a dizer? que está a dizer? Caia em si... Que vergonha!... Imaginei que lhe tinham passado essas loucuras.

- Mas é o pai do meu filho, senhor abade, disse ela, olhando-o muito séria.

Fatigou então Amaro toda uma semana com uma ternura pueril. Lembrava-lhe cada meia hora que era o "papá do seu Carlinhos".

- Bem sei, filha, bem sei, dizia ele impaciente. Obrigado. Não me gabo da honra...

Ela chorava, então, aninhada no sofá. Era necessária toda uma complicação de carícias para a calmar. Fazia-o sentar num banquinho junto dela; tinha-o ali como um boneco, contemplando-o, coçandolhe devagarinho a coroa; queria que se tirasse a fotografia ao Carlinhos para a trazerem ambos numa medalha ao pescoço; e se ela morresse, ele havia de levar o Carlinhos à sepultura, ajoelhá-lo, pôr-lhe as mãozinhas, fazê-lo rezar pela mamã. Atirava-se então para a almofada, tapando o rosto com as mãos:

- Ai, pobre de mim, meu querido filho, pobre de mim!

- Cala-te, que vem gente! dizia-lhe Amaro furioso.

Ah, aquelas manhãs na Ricoça! Eram para ele como uma penalidade injusta. Ao entrar tinha de ir à velha escutar-lhe as lamúrias. Depois, era aquela hora com Amélia, que o torturava com as pieguices dum sentimentalismo histérico, - estirada no sofá, grossa como um tonel, com a face intumescida, os olhos papudos...

Numa dessas manhãs, Amélia, que se queixava de cãibras, quis dar um passeio pelo quarto apoiada a Amaro: e ia-se arrastando, enorme no seu velho robe-de-chambre, quando se sentiram, embaixo no caminho, passos de cavalos; chegaram à janela - mas Amaro recuou vivamente, deixando Amélia que embasbacara com a face contra a vidraça. Na estrada galhardamente montado numa égua baia, passava João Eduardo de paletó branco e chapéu alto; ao lado trotavam os dois Morgaditos, um num pônei, outro acorreado num burro; e atrás, a distância, num passo de respeito e de cortejo, um criado de farda, de bota de cano e esporões enormes, com uma libré muito larga que lhe fazia na ilharga rugas grotescas, e no chapéu a roseta escarlate. Ela ficara assombrada, seguindo-os até que as costas do lacaio desapareceram à esquina da casa. Sem uma palavra, veio sentar- se no sofá. Amaro, que continuava passeando pelo quarto, teve então um risinho sarcástico:

- O idiota, de lacaio à retaguarda!

Ela não respondeu, muito escarlate. E Amaro, chocado, saiu atirando com a porta, foi para o quarto de D. Josefa contar-lhe a cavalgada, e vituperar o Morgado.

- Um excomungado de criado de farda! exclamava a boa senhora, com as mãos apertadas na cabeça. Que vergonha, senhor pároco, que vergonha para a nobreza destes reinos!

Desde esse dia Amélia não tornou a choramigar, se pela manhã o senhor pároco não vinha. Quem esperava agora com impaciência era o Sr. abade Ferrão, pela tarde. Apoderava-se dele, queria-o numa cadeira junto ao canapé: e depois de rodeios demorados de ave que tenteia a presa, caía sobre a pergunta fatal - se tinha visto o Sr. João Eduardo?

Queria saber o que ele dissera, se falara nela, se a avistara à janela. Torturava-o com curiosidades sobre a casa do Morgado, a mobília da sala, o número de lacaios e de cavalos, se o criado de farda servia à mesa...

(continua...)

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