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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Amaro então bateu forte as palmas. Uma rola pulou assustada, dentro da sua gaiola de vime pendurada da parede. Depois chamou alto:

- Sra. Carlota!

Imediatamente do lado do pátio uma mulher apareceu, com um crivo na mão. E Amaro, surpreendido, viu uma agradável criatura de quase quarenta anos, forte de peitos, ampla de encontros, muito branca no pescoço, com duas ricas arrecadas, e uns olhos negros que lhe lembraram os de Amélia ou antes o brilho mais repousado dos da S. Joaneira.

Assombrado, balbuciou:

- Creio que me enganei... Aqui é que mora a Sra. Carlota?

Não se enganara, era ela; mas com a idéia que a figura medonha "que tecia os anjos" devia estar algures, agachada num vão tenebroso da casa, perguntou ainda:

- Vossemecê vive aqui só?

A mulher olhou-o desconfiada:

- Não senhor, disse por fim, vivo com o meu marido...

Justamente o marido saía do pátio, - medonho, esse, quase anão, com a cabeça embrulhada num lenço e muito enterrada nos ombros, a face de uma amarelidão de cera oleosa e lustrosa; no queixo anelavam-se os pêlos raros duma barba negra; e sob as arcadas fundas sem sobrancelhas, vermelhejavam dois olhos raiados de sangue, olhos de insônia e de bebedeira.

- Para o seu serviço, vossa senhoria quer alguma coisa? disse, muito colado à saia da mulher.

Amaro foi entrando pela cozinha, e tartamudeando uma história que ia forjando laboriosamente. Era uma parente que ia ter o seu bom sucesso. O marido não pudera vir falar-lhes porque estava doente... Queria uma ama para lhes ir para casa, e tinham-lhe dito...

- Não, fora de casa, não. Cá em casa - disse o anão que não se despegava das saias da mulher, mirando o pároco de lado com o seu medonho olho injetado.

Ah, então tinham-no informado mal... Sentia; mas o que o parente queria era uma ama para casa.

Veio dirigindo-se para a égua, devagar; parou, e abotoando o casacão:

- Mas em casa recebem crianças para criação?... - perguntou ainda.

- Convindo o ajuste, disse o anão que o seguia.

Amaro arranjou a espora no pé, deu um puxão ao estribo, demorando-se, rondando em tomo da cavalgadura:

- É necessário trazer-lha cá, já se sabe.

O anão voltou-se, trocou um olhar com a mulher que ficara à porta da cozinha.

- Também se lhe vai buscar, disse.

Amaro batia palmadas no pescoço da égua.

- Mas sendo a coisa de noite, agora com esse frio, é matar a criança...

Então os dois, falando ao mesmo tempo, afirmaram que não lhe fazia mal. Havendo, já se sabe, carinho e agasalho...

Amaro cavalgou vivamente a égua, deu as boas-tardes e trotou pelo córrego.

•••

Amélia agora começava a andar assustada. De dia e de noite só pensava naquelas horas, que se avizinhavam, em que devia sentir chegarem as dores. Sofria mais que durante os primeiros meses; tinha tonturas, perversões de gosto - que o doutor Gouveia observava, franzindo a testa descontente. As noites eram más, numa turbação de pesadelos. Já não eram as alucinações religiosas: isso cessara numa súbita aplacação de todo o terror devoto: não sentiria menos temor de Deus, se já fosse uma santa canonizada. Eram outros medos, sonhos em que o parto se lhe representava de modos monstruosos: ora era um ser medonho que lhe saltava das entranhas, metade mulher e metade cabra; ora era uma cobra infindável que lhe saía de dentro, durante horas, como uma fita de léguas, enrolando-se no quarto em roscas sucessivas que ganhavam a altura do teto; e acordava em tremuras nervosas que a deixavam prostrada.

Mas ansiava por ter a criança. Estremecia à idéia de ver um dia inesperadamente a mãe aparecer na Ricoça. Ela escrevera-lhe, queixando-se do senhor cônego que a retinha na Vieira, dos temporais que já reinavam, da solidão que se ia fazendo na praia. Além disso D. Maria da Assunção voltara; felizmente, uma noite providencialmente gelada dera-lhe durante a jornada uma inflamação dos brônquios - e estava de cama para semanas, segundo dizia o doutor Gouveia. O Libaninho, esse, também viera à Ricoça; e saíra lastimando-se de não ter visto a Amelinha "que tinha nesse dia enxaqueca".

- Se isto demora mais quinze dias, vem-se a descobrir tudo, dizia ela, choramigando, a Amaro.

- Paciência, filha. Não se pode forçar a natureza...

- O que tu me tens feito sofrer! suspirava ela, o que tu me tens feito sofrer!

Ele calava-se resignado - muito bom, muito temo agora com ela. Vinha-a ver quase todas as manhãs, porque não queria pelas tardes encontrar o abade Ferrão.

Tranqüilizara-a a respeito da ama, dizendo-lhe que falara à mulher da Ricoça inculcada pela Dionísia. Era uma escolha rica a Sra. Joana Carreira! Mulher forte como um carvalho, com barricas de leite, e dentes de marfim...

- Fica-me tão longe para vir ver depois a criança... - suspirava ela.

(continua...)

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