Por Eça de Queirós (1875)
Tirou o chapéu, cumprimentando muito profundamente:
- Minha senhora...
Amélia, lívida, murmurou:
- Infame!
Ele olhou-a, como assombrado:
- Minha senhora... - repetiu.
E, como na véspera, desceu vagarosamente a larga escadaria de pedra.
O primeiro pensamento de Amélia foi denunciá-lo ao vigário-geral. Depois passou a noite escrevendo-lhe uma carta - três páginas de acusações e de lástimas. Mas toda a resposta de Amaro, ao outro dia, mandada verbalmente pelo Joãozito da quinta, foi "que talvez aparecesse por lá na quintafeira".
Teve outra noite de lágrimas - enquanto na Rua das Sousas o padre Amaro esfregava as mãos, no regozijo do seu "famoso estratagema". E todavia não o concebera ele mesmo; tinha-lhe sido sugerido na Vieira, onde fora para desabafar com o padre-mestre e espalhar a mágoa nos ares da praia; fora lá que ele o aprendera, "o famoso estratagema", numa soirée, ouvindo dissertar sobre o amor o brilhante Pinheiro, premiado em direito e glória de Alcobaça.
- Eu nisso, minhas senhoras, dizia o Pinheiro, passando a mão pela cabeleira de poeta, ao semicírculo de damas que pendiam dos seus lábios de ouro - eu nisso sou da opinião de Lamartine (era alternadamente da opinião de Lamartine ou de Pelletan). Digo como Lamartine: a mulher é igual à sombra: se correis atrás dela, foge-vos; se fugis dela, corre atrás de vós!
Houve um muito bem, exclamado com convicção: mas uma senhora de grandes proporções, mãe de quatro deliciosos anjos todos Marias (como dizia o Pinheiro), quis explicações, porque nunca tinha visto fugir uma sombra.
O Pinheiro deu-as, cientificamente:
- É muito fácil de observar, Sra. D. Catarina. Coloque-se vossa excelência na praia, quando o sol começa a declinar, com as costas para o astro. Se vossa excelência caminha em frente, perseguindo a sombra, ela vai-lhe adiante, fugindo...
- Física recreativa, muito interessante! murmurou o escrivão de direito ao ouvido de Amaro.
Mas o pároco não o escutava; bailava-lhe já na imaginação "o famoso estratagema". Ah! mal voltasse a Leiria, havia de tratar Amélia como uma sombra e fugir-lhe para ser seguido... - E o resultado delicioso ali estava - três páginas de paixão, com manchas de lágrimas no papel.
Na quinta-feira apareceu, com efeito. Amélia esperava-o no terraço, donde estivera desde manhã vigiando a estrada com um binóculo de teatro. Correu a abrir-lhe o portãozinho verde no muro do pomar. - Então, por aqui! disse-lhe o pároco, subindo atrás dela ao terraço.
- É verdade, como estou sozinha...
- Sozinha?
- A madrinha está a dormir e a Gertrudes foi à cidade... Tenho estado toda a manhã aqui ao sol. Amaro ia penetrando pela casa, sem responder; diante duma porta aberta parou, vendo um grande leito de dossel, e em redor cadeiras de couro de convento.
- É o seu quarto aqui, hem?
- É.
Ele entrou familiarmente, com o chapéu na cabeça.
- Muito melhor que o da Rua da Misericórdia. E boas vistas... São as terras do Morgado, além...
Amélia cerrara a porta, e indo direita a ele, com os olhos chamejantes: - Por que não respondeste a minha carta?
Ele riu:
- É boa! E por que não respondeste tu às minhas? Quem começou?
Foste tu. Dizes que não queres pecar mais. Também eu não quero pecar mais. Acabou-se...
- Mas não é isso! exclamou ela pálida de indignação. É que há a pensar na criança, na ama, no enxoval... Não é abandonar-me para aqui!...
Ele pôs-se sério, e com um tom ressentido:
- Peço perdão... Eu prezo-me de ser um cavalheiro. Tudo isso há-de ficar arranjado antes de voltar para a Vieira...
- Tu não voltas pra Vieira!
- Quem é que diz isso?
- Eu, que não quero que vás!
Pusera-lhe fortemente as mãos nos ombros, retendo-o, apoderando-se dele: e ali mesmo, sem reparar na porta apenas cerrada, abandonou-se-lhe como outrora.
•••
Dai a dois dias o abade Ferrão apareceu restabelecido do seu ataque de reumatismo. Contou a Amélia a bondade do Morgado, que chegara a mandar-lhe todas as tardes, num aparelho de lata com água quente, uma galinha cozida em arroz. Mas era sobretudo a João Eduardo que devia a caridade melhor; todas as suas horas vagas as passava ao pé da cama, lendo-lhe alto, ajudando-o a voltar, ficando com ele até à uma hora da noite num zelo de enfermeiro. Que rapaz! Que rapaz!
E de repente, tomando as mãos ambas de Amélia, exclamou:
- Diga-me, dá licença que eu lhe conte tudo, que lhe explique?... Que arranje que ele perdoe, e esqueça... E que se faça este casamento, se faça esta felicidade?
Ela balbuciou espantada, toda escarlate:
- Assim de repente... Não sei... Hei-de pensar...
- Pense. E Deus a alumie! disse o velho com fervor.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.