Por Eça de Queirós (1875)
- Ah! não me parece bem, não. Que eu podia falar à ama... Mas bem vê, são coisas muito sérias... O senhor pároco é que se encarregou de tudo...
- É infame!
Além disso ela descuidara-se do enxoval - e ali estava na véspera de ter a criança, sem um trapo para a cobrir, sem dinheiro para lho comprar! A Dionísia tinha-lhe mesmo oferecido algumas peças de enxoval, que uma mulher que ela tivera em casa lhe deixara empenhadas. Mas Amélia recusara-se a que o seu filho usasse cueiros alheios, trazendo-lhe talvez um contágio de doença ou uma sorte infeliz.
E por orgulho não queria escrever a Amaro.
Além disso as impertinências da velha tornavam-se odiosas. A pobre D. Josefa, privada dos auxílios devotos dum padre, um verdadeiro padre (não um abade Ferrão), sentia a sua velha alma indefesa exposta a todas as audácias de Satanás: a visão singular que tivera de S. Francisco Xavier nu, repetia-se agora com uma insistência pavorosa a respeito de todos os santos: era toda uma corte do Céu, arrojando túnicas e hábitos, e bailando-lhe na imaginação sarabandas em pêlo: e a velha estava morrendo da perseguição destes espetáculos dispostos pelo demônio. Reclamara o padre Silvério, mas parecia que um reumatismo geral tolhia todo o clero diocesano; desde o princípio do Inverno o Silvério estava também de cama. O abade da Cortegassa, chamado urgentemente, veio - mas para lhe comunicar a receita nova que descobrira de fazer bacalhau à biscainha... Esta falta dum padre virtuoso dava-lhe um humor feroz, que recaia sobre Amélia numa chuva de impertinências.
E a boa senhora estava pensando seriamente em mandar a Amor pelo padre Brito - quando uma tarde, ao fim do jantar, inesperadamente, o senhor pároco apareceu!
Vinha magnífico, trigueiro do sol e do ar do mar, de casaco novo e botins de verniz. E palrando longamente acerca da Vieira, dos conhecidos que estavam, da pesca que fizera, dos soberbos quinos, fazia passar naquele triste quarto de doente velha todo um sopro vivificante da vida divertida à beira-mar. D. Josefa tinha duas lágrimas nas pálpebras do gozo de ver o senhor pároco, de o ouvir.
- E a mamã passa bem, disse ele a Amélia. Já tem os seus trinta banhos. Ganhou outro dia quinze tostões a uma batotinha que se arranjou... E por cá que têm feito?
Então a velha rompeu em queixumes amargos: Uma solidão! Um tempo de chuva! Uma falta de amizades! Ai! ela estava ali a perder a sua alma naquela quinta fatal...
- Pois eu, disse o padre Amaro traçando a perna, dei-me tão bem que estou com idéias de voltar para a semana.
Amélia, sem se conter, exclamou:
- Ora essa! outra vez!
- Sim, disse ele. Se o senhor chantre me der uma licença de um mês, vou lá passá-lo... Fazem-me uma cama na sala de jantar do padre-mestre, e tomo um par de banhos... Estava farto de Leiria, e daquele aborrecimento... '
A velha parecia desolada. O quê, voltar! Deixá-las ali a estarrecer de tristeza!
Ele galhofou:
- Ora, as senhoras não precisam cá de mim. Estão bem acompanhadas...
- Eu não sei, disse a velha com azedume, se os outros - acentuou com rancor a palavra - se os outros não precisam do senhor pároco... Eu é que não estou bem acompanhada, estou aqui a perder a minha alma... Que as companhias que ai vêm não dão honra nem proveito.
Mas Amélia acudiu para contrariar a velha:
- E de mais a mais o Sr. abade Ferrão tem estado doente... Está com reumatismo. Sem ele a casa parece uma prisão.
D. Josefa deu um risinho de escárnio. E o padre Amaro, erguendo- se para sair, lamentou o bom abade.
- Coitado! Santo homem... Hei-de ir vê-lo em tendo vagar. Pois amanhã cá apareço, D. Josefa, e havemos de pôr essa alma em paz... Não se incomode, Sra. D. Amélia, eu sei agora o caminho.
Mas ela insistiu em o acompanhar. Atravessaram o salão sem uma palavra. Amaro calçava as suas luvas novas de pelica preta. E no alto da escada, muito cerimoniosamente, tirando o chapéu:
- Minha senhora...
E Amélia ficou petrificada vendo-o descer muito tranqüilo - como se ela lhe fosse mais indiferente que os dois leões de pedra, que embaixo dormiam com o focinho nas patas.
Foi para o quarto chorar de bruços sobre a cama, de raiva e de humilhação. O infame! E nem uma palavra sobre o filho, sobre a ama, sobre o enxoval! Nem um olhar de interesse para o seu corpo desfigurado por aquela prenhez que ele lhe dera! Nenhuma queixa irritada por todos os desprezos que ela lhe mostrara! Nada! Calçava as luvas, com o chapéu do lado. Que indigno!
Ao outro dia o padre voltou mais cedo. Esteve muito tempo fechado no quarto com a velha.
Amélia, impaciente, rondava no salão com os olhos como carvões. Ele apareceu enfim, como na véspera, calçando as suas luvas com um ar próspero.
- Então já? disse ela numa voz que tremia.
- Já, sim, minha senhora. Estive numa praticazinha com a D. Josefa.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.