Por Eça de Queirós (1875)
E foi grande a sua alegria quando lhe pareceu que enfim z paixão por Amaro já não era na alma dela um sentimento vivo; mas estava morto, embalsamado, arrumado no fundo da sua memória como num jazigo, escondido já sob a delicada florescência duma virtude nova. Assim julgava pelo menos o bom Ferrão - vendo-a agora aludir ao passado com o olhar tranqüilo, sem aqueles rubores que outrora lhe escaldavam a face ao simples nome de Amaro.
Ela, com efeito, já não pensava no senhor pároco com a comoção de outrora: o terror do pecado, a influência penetrante do abade, aquela brusca separação do meio devoto em que o seu amor se desenvolvera, o gozo que sentia numa serenidade maior, sem sustos noturnos e sem a inimizade de Nossa Senhora, tudo concorrera para que o fogo ruidoso daquele sentimento se fosse reduzindo a alguma brasa que ainda rebrilhava surdamente. O pároco estivera ao princípio na sua alma com o prestígio dum ídolo coberto de ouro; mas tantas vezes, desde a sua gravidez, sacudira, nas horas de terror religioso ou de arrependimento histérico, aquele ídolo, que todo o dourado lhe ficara nas mãos, e a forma trivial e escura que aparecia por baixo já a não deslumbrava; viu por isso o abade derrubar-lho inteiramente, sem chorar e sem lutar. Se ainda pensava em Amaro, é porque não podia deixar de pensar na casa do sineiro; mas o que a tentava ainda era o prazer e não o pároco.
E com a sua natureza de boa rapariga tinha um reconhecimento sincero pelo abade. Como dissera a Amaro naquela tarde, "devia-lhe tudo". Era o que sentia agora também pelo doutor Gouveia, que vinha regularmente ver a velha de dois em dois dias. Eram os seus bons amigos, como dois papás que o Céu lhe mandava - um que lhe prometia a saúde, outro a graça.
Refugiada naquelas duas proteções, gozou uma paz adorável nas últimas semanas de Outubro. Os dias iam muito serenos e muito tépidos. Era bom estar no terraço, pelas tardes, naquela serenidade outonal dos campos. O doutor Gouveia às vezes encontrava-se com o abade Ferrão; ambos se estimavam; depois da visita à velha, iam para o terraço, e começavam logo as suas eternas questões sobre Religião e sobre Moral.
Amélia, com a costura caída nos joelhos, sentindo os seus dois amigos ao pé, aqueles dois colossos de ciência e de santidade , abandonava-se ao encanto da hora suave, olhando a quinta onde as árvores jà empalideciam. Pensava no futuro; ele aparecia-lhe agora fácil e seguro; era forte, e o parto, com a presença do doutor, seria apenas uma hora de dores; depois, livre daquela complicação, voltaria para a cidade e para a mamã... E então uma outra esperança, que nascera das conversas constantes do abade sobre João Eduardo, vinha bailar-lhe na imaginação. Por que não?... Se o pobre rapaz a amasse ainda, e perdoasse!... Ele nunca lhe repugnara como homem, e seria um casamento esplêndido agora que ele tinha a amizade do Morgado. Dizia-se que João Eduardo ia ser o administrador da casa... E entrevia-se vivendo nos Poiais, passeando na caleche do Morgado, chamada para jantar por uma campainha, servida por um escudeiro de libré... Ficava muito tempo imóvel, banhada na doçura desta perspectiva, enquanto o abade e o doutor ao fundo do terraço pelejavam sobre a doutrina da Graça e da Consciência, e monotonamente a água das regas murmurava no pomar.
Foi por este tempo que D. Josefa, inquieta de não ver aparecer o senhor pároco, mandara expressamente o caseiro a Leiria, pedir a sua senhoria a esmola duma visita. O homem voltara com a espantosa notícia de que o senhor pároco partira para a Vieira, e não viria senão daí a duas semanas. A velha choramigou de desgosto. E Amélia, nessa noite, no seu quarto, não pôde adormecer - na irritação que lhe dava aquela idéia do senhor pároco a divertir-se na Vieira, sem pensar nela decerto, chalaceando com as senhoras na praia, e andando de serão em serão...
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Com a primeira semana de Novembro vieram as chuvas. A Ricoça parecia agora mais lúgubre naqueles dias curtos, banhados de água, sob um céu de tempestade. O abade Ferrão, tolhido de reumatismo, já não aparecia na quinta. O doutor Gouveia, depois da visita de meia hora, abalava no seu velho cabriolé. A única distração de Amélia era estar à janela por dentro dos vidros: três vezes vira passar João Eduardo na estrada; mas ele ao avistá-la baixava os olhos ou refugiava-se mais sob o guarda-chuva.
A Dionísia vinha também freqüentemente: devia ser a parteira, apesar do doutor Gouveia ter aconselhado a Micaela, matrona duma experiência de trinta anos. Mas Amélia "não queria mais gente no segredo", e além disso Dionísia trazia-lhe as notícias de Amaro, que ela sabia pela cozinheira. O senhor pároco tinha-se achado tão bem na Vieira que se ia demorar até Dezembro. Aquele "procedimento infame" indignava-a: não duvidava que o pároco queria estar longe quando chegassem os transes, os perigos do parto. Além disso era decidido de há muito que a criança havia de ser entregue a uma ama de ao pé de Ourém, que a criaria na aldeia: c agora o tempo chegava, c a ama não estava falada, e o senhor pároco apanhava conchinhas à beira-mar!...
- É indecente, Dionísia, exclama Amélia furiosa.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.