Por Eça de Queirós (1875)
Tinha tomado afeição a João Eduardo, o abade Ferrão: e sabendo por Amélia a famosa legenda do Comunicado quisera, segundo a sua expressão querida, "folhear o homem aqui e além". Conversava com ele tardes inteiras na rua de loureiros da quinta, na residência onde João Eduardo se ia fornecer de Iivros; e sob o "exterminador de padres", como dizia o Morgado, encontrara um pobre moço sensível, com uma religião sentimental, ambições de paz doméstica, e prezando muito o trabalho. Então viera-lhe uma idéia que, sobretudo por lhe ter acudido num dia que saia das suas devoções ao Santíssimo, lhe parecia descida de cima, da vontade do Senhor: era o casá-lo com Amélia. Não seria difícil levar aquele coração fraco e terno a perdoar o erro dela; e a pobre rapariga, depois de tantos transes, extinta aquela paixão que lhe entrara na alma como um sopro do demônio, levando-lhe a vontade, a paz e o pudor de empurrão para o abismo, encontraria na companhia de João Eduardo todo um resto de vida calmo, e contente, um canto suave de interior, refúgio doce e purificação do passado. Não falou nem a um, nem a outro, nesta idéia que o enternecia. Não era o momento agora, que ela trazia nas entranhas o filho do outro. Mas ia preparando com amor aquele resultado, - sobretudo quando estava com Amélia, contandolhe as suas conversas com João Eduardo, algum dito muito sensato que ele tivera, os bons cuidados de preceptor que estava desenvolvendo na educação dos Morgaditos.
- É um bom rapaz, dizia. Homem de família... Destes a quem uma mulher pode realmente confiar a sua vida e a sua felicidade. Se eu pertencesse ao mundo, se tivesse uma filha, dava-lha...
Amélia não respondia, corando.
Já não podia objetar àqueles elogios persuasivos a antiga, a grande objeção - o Comunicado, a impiedade! O abade Ferrão destruíra-lha um dia, com uma palavra:
- Eu li o artigo, minha senhora. O rapaz não escreveu contra os sacerdotes, escreveu contra os fariseus!
E para atenuar este julgamento severo, o menos caridoso que tivera havia muitos anos, acrescentou:
- Enfim, foi uma falta grave... Mas está muito arrependido. Pagou-o com lágrimas, e com fome. E isto enternecia Amélia.
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Fora também por esse tempo que o doutor Gouveia começara a vir à Ricoça, porque D. Josefa tinha piorado com os dias mais frios do Outono. Amélia, ao princípio, à hora da visita, fechava-se no seu quarto, tremendo à idéia de ver o seu estado descoberto pelo velho doutor Gouveia, o médico da casa, aquele homem duma severidade legendária. Mas enfim fora necessário aparecer no quarto da velha, para receber as suas instruções de enfermeira sobre as horas dos remédios e as dietas. E um dia que acompanhara o doutor até à porta, ficou gelada, vendo-o parar, voltar-se para ela cofiando a sua grande barba branca que lhe caía sobre o jaquetão de veludo, e dizer-lhe sorrindo:
- Eu bem tinha dito a tua mãe que te casasse!
Duas lágrimas saltaram-lhe dos olhos.
- Bem, bem, pequena, não te quero mal por isso. Estás na verdade. A natureza manda conceber, não manda casar. O casamento é uma fórmula administrativa...
Amélia olhava-o, sem o compreender, com as duas lágrimas muito redondinhas a correrem-lhe devagar pela face. Ele bateu-lhe com os dedos no queixo, muito paternal:
- Quero dizer que, como naturalista, regozijo-me. Acho que te tornaste útil à ordem geral das coisas. Vamos ao que importa...
Deu-lhe então conselhos sobre a higiene que devia ter.
- E quando chegar a ocasião, se te vires atrapalhada, manda-me chamar...
Ia descer; Amélia deteve-o, e com uma suplicação assustada:
- Mas o senhor doutor não vai dizer nada na cidade...
O doutor Gouveia parou:
- Então não é estúpida?... Está bom, também to perdôo. Está na lógica do teu temperamento. Não, não digo nada, rapariga. Mas para que diabo, então, não casaste tu com esse pobre João Eduardo? Fazia-te tão feliz como o outro, e já não tinhas de pedir segredo... Enfim, isso para mim é um detalhe secundário... O essencial é o que te disse... Manda-me chamar. Não te fies muito nos teus santos... Eu entendo mais disso que Santa Brígida ou lá quem é. Que tu és forte, e hás-de dar um bom mocetão ao Estado.
Todas estas palavras que em parte não compreendera bem, mas em que sentia uma vaga justificação e uma bondade de avô indulgente, sobretudo aquela ciência que lhe prometia a saúde e a que as barbas grisalhas do doutor, umas barbas de Padre Eterno, davam um ar de infalibilidade, reconfortaram-na, aumentaram a serenidade que havia semanas gozava, desde a sua confissão desesperada na capela dos Poiais.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.