Por Bernardo Guimarães (1869)
O atrevido canoeiro ouviu toda aquela algazarra e logo compreendeu o iminente perigo que o ameaçava; porém já lhe não era possível recuar e continuou a vogar procurando avizinhar-se o mais possível do barranco oposto às habitações dos índios, esperando assim poder escapar à sua sanha e passar incólume. Mas a largura do rio não era suficiente para pô-lo a salvo de suas flechadas, e apenas achou-se em frente da aldeia, uma nuvem de flechas voou assobiando sobre ele; mas o destro aventureiro, deitando-se imediatamente no fundo da canoa e amparando-se com o seu largo remo, nem de leve foi tocado, antes achou-se provido de grande munição de flechas, de que tinha precisão, e que lhe iam ser de grande utilidade. Reenviou logo uma, e varou um cão, que ladrava na praia; uma segunda cravou-se no braço de um indígena; uma terceira levou a orelha de outro. E o afoito estrangeiro, entrincheirado no fundo da canoa e fazendo escudo da larga pá de remo, ia deslizando são e salvo pela torrente abaixo e fazendo estragos na linha dos inimigos com as armas que estes mesmos lhe forneciam. Felizmente para ele não tinham os selvagens ali à mão naquele momento uma canoa sequer. Mais algumas flechadas felizes do arco do intrépido canoeiro caíram sobre os índios e acabaram de os pôr em furor. Vendo que com as flechas não era possível ofender o imboaba, lançaram-se alguns ao rio armados de tacapes e dispostos a irem a nado atracar a canoa. Fácil seria ao canoeiro escapar à força de remo, se a multidão de flechas, que continuava a chover sobre a canoa, não o impedisse de remar, dando-lhe apenas tempo de resguardar-se de seus tiros e descochar de quando em quando uma ou outra flecha.
Já dois robustos nadadores com o tacape nos dentes estavam a poucas braças da canoa; um deles enfim a alcança e lança mão à borda. O canoeiro porém a corta imediatamente de um só golpe com sua grande faca de mato. O índio dando um grito horrível de dor desaparece deixando um sulco ensangüentado à flor da água, e surge instantes depois mais abaixo, rolando à mercê da corrente, enquanto os peixes saltitando disputavam entre si a mão decepada. O outro índio, vendo a sorte de seu companheiro, não se atreveu a atracar a canoa, e afastou-se; os mais que se tinham lançado ao rio, também não ousaram aproximar-se, temendo o mortífero gume daquela formidável faca. O forasteiro por um momento julgou-se salvo e fora de perigo. Mas eis que de súbito dá com os olhos em duas canoas entulhadas de índios, que surgiam da volta do rio singrando águas acima a todo remar.
Era uma turma de indígenas, que estando a pescar pelas proximidades tinham ouvido o alarido que havia nas tabas, e julgando ser algum perigo, acudiam em seu socorro. O canoeiro viu que a sua situação era desesperada e sua morte inevitável, e que seu único recurso era morrer como homem combatendo até o último alento.
À força de audácia e de esforços desesperados conseguiu encostar a canoa ao barranco oposto; tomou à pressa todas as suas armas, saltou em terra e embrenhou-se pelo mato, não para escapar aos selvagens, pois bem via que seria uma tentativa inútil, mas para escolher um lugar onde pudesse defender-se por mais tempo e vender mais cara a sua vida. Os índios em número sempre crescente saltavam na água e atravessavam o rio; os das canoas também se aproximavam rapidamente. O forasteiro bem compreendeu que qualquer resistência seria inútil, mas não era homem a deixar-se degolar como uma ovelha, e preparou-se para combater até o último trance. Depois de ter-se entranhado cerca de uns duzentos passos por um mato espesso e emaranhado, abrindo caminho com a faca por entre taquaras e cipós, escolheu posição para fazer frente aos inimigos junto a um corpulento tronco de peroba, que lhe oferecia formidável baluarte. Por detrás desse tronco estendia-se um espesso e impenetrável tabocal, que lhe protegia a retaguarda.
Ali encostou todo o seu arsenal de armas, que consistiam em um arco com algumas flechas, uma grande faca, uma foice pequena, uma pistola de dois canos e uma espingarda carregada com os últimos cartuchos que lhe restavam, e que de propósito reservava para ocasiões difíceis. Ali resolveu-se a resistir até às últimas aos seus selvagens agressores.
Estes, seguindo a batida que o estrangeiro ia fazendo com sua pequena foice, em breve chegaram a descobri-lo, e logo travou-se entre eles o combate o mais temeroso e desigual que se pode conceber. As flechas dos índios iam-se cravar no tronco, por trás do qual o imboaba se abrigava, ou entranhavam-se pelo tabocal, onde se perdiam silvando. Avançando um a um pela estreita picada praticada em um mato cerrado e atravancado de taquaras e cipós, os selvagens iam caindo também um a um aos tiros certeiros do aventureiro, que não perdia uma só flecha, nem um só tiro; aquele em quem fazia a mira caía infalivelmente, ou morto ou gravemente ferido. Os selvagens, cujo número de instante a instante se aumentava, atiravam-se furiosos para o tronco por trás do qual se defendia aquele homem terrível com a coragem do desespero; porém na confusão com que se precipitavam, caíam uns sobre os outros embaraçados na multidão de cipós e matos emaranhados que obstruíam aquele lugar.
Mais de um caiu aos pés do intrépido imboaba a um bem atirado golpe de foice ou recuou rugindo de dor com a mão decepada ou com o crânio escorchado. Parecia que o estrangeiro ia morrer oprimido debaixo de tantos cadáveres, que ele mesmo amontoava em torno de si.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.