Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

Cinco minutos justos, disse ele.

Até aquela casa que ali está com uma bandeira azul.

Havia, efetivamente, cerca de quatro minutos adiante, à esquerda da estrada, uma casa de insignificante aparência, sobre cujo telhado flutuava uma bandeira azul presa a uma vara. Estácio conhecia a casa, mas era a primeira vez que via a bandeira. Helena pediu-lhe a explicação daquele apêndice.

Vá lá saber, disse o irmão rindo.

Helena deu de rédea à égua e adiantou-se alguns passos. Estácio apertou o animal e alcançou-a.

Não vá fazer tolices! disse ele em tom de branda repreensão. Aquilo é fantasia do morador, ou algum sinal de pássaros, ou qualquer outra coisa que não vale a pena de uma travessura. Contemplemos antes a manhã, que está deliciosa.

Helena não atendeu à proposta do irmão e foi andando, a passo lento, na direção da casa. A casa era velha, abrindo por uma porta para o alpendre antigo que lhe corria na frente. As colunas deste estavam já lascadas em muitas partes, aparecendo, aqui e ali, a ossada de tijolo. A porta estava meio aberta. Havia absoluta solidão, aparente ao menos. Quando eles lhe passaram pela frente, a porta abriu-se, mas se alguém espreitava por ela, ficou sumido na sombra, porque ninguém de fora o viu.

Cerca de cinco braças adiante, Estácio resolveu definitivamente regressar, e Helena não opôs objeção nenhuma. Torceram a rédea aos animais e desceram.

Não poderei falar à bandeira? perguntou a moça. Deixe-me ao menos dizer-lhe adeus.

Tinha já tirado da algibeira o seu fino lenço de cambraia; agitou-o na direção da casa.

Quis o acaso que a bandeira, até então quieta, se movesse ao sopro de uma aragem que passou.

Vê como ela me respondeu? Não se pode ser mais cortês! exclamou Helena, rindo.

Estácio riu também da lembrança da irmã, e ambos desceram, a passo lento, como haviam subido. Helena vinha taciturna e pensativa. Os olhos, cravados nas orelhas de Moema, não pareciam ver sequer o caminho que o animal seguia. Estácio, para arrancá-la ao silêncio, fez-lhe uma observação acerca de um incidente do caminho. Helena respondeu distraidamente.

Que tem você? perguntou ele.

Nada, disse ela; ia. . . ia embebida naquela toada. Não ouve?

Ouvia-se, efetivamente, a algumas braças adiante, uma cantiga da roça, meio alegre, meio plangente. O cantor apareceu, logo que os cavaleiros dobraram a curva que a estrada fazia naquele lugar. Era o preto, que pouco antes tinham visto sentado no chão.

Que lhe dizia eu? observou a irmã de Estácio. Ali vai o infeliz de há pouco. Uma laranja chupada no capim e três ou quatro quadras, é o bastante para lhe encurtar o caminho. Creia que vai feliz, sem precisar comprar o tempo. Nós poderíamos dizer o mesmo?

Por que não?

A moça recolheu-se ao silêncio.

Helena, isso que você acaba de dizer... Vamos, estamos sós; confesse alguma tristeza que tenha.

Nenhuma, respondeu a moça. Peço-lhe, entretanto, uma coisa.

Diga.

Peço-lhe que me comunique todas as más impressões que tiver a meu respeito. Explicarei umas, procurarei desvanecer-lhe outras, emendando-me. Sobretudo, peço-lhe que escreva em seu espírito esta verdade: é que sou uma pobre alma lançada num turbilhão.

Estácio ia pedir explicação mais desenvolvida daquelas últimas palavras; mas Helena, como se esperasse a pergunta, brandira o chicote, e deitou a égua a correr. Estácio fez o mesmo ao cavalo; daí a alguns minutos entravam na chácara, ele aturdido e curioso, ela com a face vermelha e a bater-lhe violentamente o coração.


CAPÍTULO VII


Apearam-se os dois no terreiro e dirigiram-se para a escada que ia ter à varanda.

Pisando o primeiro degrau, disse Estácio:

Helena, explique-me suas palavras de há pouco.

Quais?

E como Estácio levantasse os ombros, com ar de despeito, continuou Helena:

Perdoe-me; a pergunta não tem nem podia ter outra resposta mais do que a simples recusa. Não lhe direi mais nada. Nunca se devem fazer meias confissões; mas, neste caso, a confissão inteira seria imprudência maior. Se se tratasse de fatos, creia que a ninguém melhor podia confiá-los do que a você; mas por que motivo irei perturbar-lhe o espírito com a narração de meus sentimentos, se eu própria não chego a entender-me?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1314151617...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →