Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
A rua manteve a sua denominação de Padre Homem da Costa; mas parece que a proposição do pasquim e a alcunha sarcástica dada por aqueles mancebos destemidos já eram prenúncios da próxima deposição do Padre Homem da Costa no seu domínio denominativo da rua, que começava a ser anacrônica pela batina e o solidéu que ele usara.
A rua vai receber nome novo, e é de honra e de etiqueta que o receba em novo capítulo nestas Memórias.
CAPÍTULO 5
Como a Rua do Padre Homem da Costa chegou pele lado de terra em seu - plus ultra abrindo-se na atual Praça de S. Francisco de Paula: referem-se os tormentos de Cabido de Rio de Janeiro, e a história da Sé Nova, que nunca chegou a ser Sé. Transformação da cidade de Rio de Janeiro nos vice-reinados do Marquês de Lavradio e de Luís de Vasconcelos; diz-se como a Rua do Padre Homem da Costa andou, ou permaneceu pouco lembrada até que e Marquês de Lavradio que, como Henrique IV, era devoto do belo sexo, fez nela das suas costumadas proezas noturnas, amando a viuvinha Zezá, cunhada de Amotinado verdadeiro, que foi logrado pelo falso Amotinado. Como houve idéia e questão de mudança da denominação da rua, que acabou chamando-se do Ouvidor, em honra de Dr. Berquó. Anuncia-se a festa do primeiro centenário da Rua do Ouvidor e promete-se e programa da grandiosa solenidade.
Quando o Tenente-Coronel Alexandre Cardoso, oficial de sala, perseguido como lobisomem na noite desastrosa, caiu dentro da vala no encruzamento da rua deste nome com a do Padre Homem da Costa, já esta há dezessete ou dezoito anos tinha pelo lado de terra chegado à extrema, onde pudera escrever - plus-ultra -; pois que acabara em sua embocadura na atual Praça de S. Francisco de Paula.
Breves explicações me parecem necessárias.
A Rua do Padre Homem da Costa fora obrigada a fazer alto quando chegou a Rua da Vala (hoje Uruguaiana): porque, além desta, o campo era do logradouro público, e não se permitiu o prolongamento da rua, e nem ainda um pouco mais tarde, bem que perto do campo que lhe vedavam já estivesse edificada a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de particular devoção dos homens pretos livres, libertos e escravos.
Mas enfim veio o Cabido do Rio de Janeiro resolver o problema da revogação daquele logradouro público.
O Cabido do Rio de Janeiro desde muito que reclamava Sé própria e condigna.
Arruinada a Sé primitiva, a Igreja de S. Sebastião do Castelo, hospedou-se o Cabido na então simples Capela de S. José; mas, faltando-lhe aí cômodos, invadiu quase à força a Igreja da Santa Cruz dos Militares.
É curiosa, mas triste, a história da campanha dos cônegos contra as irmandades donas da casa, estas a empurrar para fora os hóspedes, e os hóspedes a resistir, e opor-se à despedida; não cabe, porém, nestas Memórias a narração de quanto se passou nesse longo pleito.
Vencido na luta, e perdida a esperança de estabelecer-se na Igreja da Candelária, o Cabido acolheu-se a pesar seu na de Nossa Senhora do Rosário.
A prova do pesar do Cabido é dada pelo Monsenhor Pizarro, que em suas Memórias repete sem caridade a queixa do forçado e inevitável contato com os pretinhos, aliás seus e nossos irmãos em Deus.
Mas o governo da Metrópole (reinado de D. João V), aprovando o plano apresentado, mandou construir nova igreja para Sé do Rio de Janeiro, e o Governador Gomes Freire de Andrade, o bispo, e o engenheiro diretor das obras de acordo escolheram para o templo lugar no Campo do Rosário a curta distância da Rua da Vala, defronte da extrema imposta à Rua do Padre Homem da Costa.
No assinalado histórico dia aniversário, 20 de janeiro de 1749, foi lançada com aparatosa solenidade a primeira pedra da Sé nova, cujos alicerces e grossas paredes haviam de servir não para ela, vic vos nos vobis, mas para o edifício de que é última herdeira a Escola Politécnica do Rio de Janeiro.
Para o solene lançamento da primeira pedra limpara-se, aterrara-se em alguns pontos, e todo se igualara o terreno fronteiro à futura igreja, o qual, ou no mesmo dia 20 de janeiro, ou pouco depois, recebeu a denominação de Largo da Sé Nova.
E então a Rua do Padre Homem da Costa, vendo um largo aberto no campo do logradouro público, usou do seu bom direito, saltando a vala, e estendendo ou continuando suas duas filas de casas até abrir-se no Largo da Sé Nova.
As obras da Sé, que ficaram em provérbio popular perpetuadas, após ativo ardor dos primeiros meses, caíram em desalento, e ora interrompidas, por faltar azeite à lâmpada, ora continuadas muito preguiçosamente, chegaram por isso a excitar o ridículo que feriu a negligência e a desídia do governo com aquele provérbio fulminador das obras em que se consome o dinheiro público e nunca chegam ao fim.
Mais afortunada que a Sé, a Igreja de S. Francisco de Paula, começada a construir-se em 1759 (dez anos depois daquela) no mesmo largo, em 1801 já estava acabada pelos seus Mínimos, que assim deram quinau aos máximos do governo, e em prêmio do seu zelo o povo mudou o nome do largo, que ficou sendo chamado de S. Francisco de Paula.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.