Por Padre Antônio Vieira (1670)
129. Nem deve passar sem advertência a repetição enfática com que o texto sagrado, depois de dizer: Assistebant corom Salomane, acrescenta: Patre ejus. Parece desnecessário esta nova expressão, pois de toda a narração da história constava ser Salomão pai de Roboão. Mas foi nota e ponderação digníssima de se não dissimular, como de uma maior circunstância, que notavelmente agrava o caso. Porque, ainda que os ministros, de quem Salomão em sua vida se tinha servido junto à sua pessoa, por serem ministros do rei mais sábio que teve o mundo, mereciam ser estimados, honrados e conservados no lugar que com ele tinham, só por serem ministros de seu pai ainda que esse pai não fora Salomão, se devia Roboão servir deles, e tê-los sempre junto a si, e fazer maior confiança da sua fidelidade, da sua verdade, do seu zelo, e do seu amor; que do de todos os outros: Amicum tuum et amicum patris tui ne dimiseris (Prov. 27,10), diz o Espírito Santo, por boca do mesmo Salomão: O amigo que foi amigo de teu pai não o apartes de ti. – E que mais têm os amigos que foram amigos dos pais, do que os amigos novos e particulares dos filhos? Têm de mais aquela diferença que há entre o certo e o duvidoso. Os amigos novos, que os filhos elegem, poderá ser que sejam bons e fiéis amigos; mas os que foram amigos dos pais, já é certo que o são, porque estes já estão experimentados e provados; aqueles ainda não. Até em Deus tem sua força esta conseqüência. Quando Deus apareceu a Moisés na sarça, não sabendo ele quem era, disse-lhe: Ego sum Deus Patris tui (Êx. 3,6): Eu sou o Deus de teu pai; – irás libertara povo, e dir-lhe-ás, para que te dêem credito que o Deus de seus pais te manda: Deus patrum vestrorum misiti me ad vos (Êx. 3,13). Queria-os libertar do cativeiro de Faraó, e, para os assegurar deste grande benefício, não só disse que era Deus, que o podia fazer, mas que era Deus de seus pais, para que estivessem certos que o faria. Por isso disse sabiamente Isócrates que os mais seguros amigos são os que se herdaram. A amizade dos que se fazem de novo é duvidosa; a dos que se herdaram, e vem de pais a filhos, certa. E daqui conclui este famosíssimo filósofo: Liberos haeredes esse non nodo facultatum, sed amicitiarum paternarum: Que os filhos não só são e devem ser herdeiros da fazenda dos pais, senão também dos amigos. Se Roboão, assim como herdou a coroa, herdara também os amigos de seu pai, ele não perdera o reino; mas porque, herdando o reino, quis fazer novos amigos, eles o perderam.
130. Quando estes se quiseram introduzir à assistência da pessoa e lugares do lado de Roboão, facilmente, e sem os escandalizar, lhes pudera ele dizer que estavam diante os que tinham servido a seu pai, e de quem ele tinha feito eleição: Non vobis, sed quibus paratum est a Patre mea. Mas o erro de Roboão esteve em que os que se tinham criado com ele a primeira coisa que lhe persuadiram foi que as suas eleições haviam de ser melhores. Porque, se puderam tanto com as suas lisonjas, e se cegou tanto com elas o pobre moço, que se persuadiu e se atreveu a dizer que o seu anel tinha maior roda que o cinto de seu pai, como lhe não meteriam também em cabeça que, sendo seu pai Salomão, sabia mais que ele? Esta é a cegueira em que ordinariamente caem os filhos dos reis, e por isso, em sucedendo no governo, mudam criados e ofícios, e quanto seus pais tinham ordenado, não advertindo que em matéria de prover lugares, sabem mais os pais com os olhos fechados, que os filhos, por mais sábios que sejam, com eles abertos. Estava Jacó já cego com a velhice, quando seu filho José lhe presentou os dois netos, Manassés e Efraim, para que lhes lançasse a bênção. Era Manassés o maior, e por isso lho pós José à mão direita, como a Efraim, porque era o menor, à esquerda; porém Jacó cruzou e trocou as mãos, e pôs a direita sobre a cabeça de Efraim, e a esquerda sobre a de Manassés. – Não, senhor – replicou José – que este sobre que pondes a mão direita é o menor, e o maior fica à esquerda. – E que responderia Jacó? Que responderia o pai cego? Scio, fili mi, scio (Gên. 48,19): Bem sei, filho meu, qual é o maior e o menor, e bem sei também o que faço. Sei qual é o maior e o menor, porque sei o que vós vedes, e sei também o que faço, porque sei o que não vedes. Vós vedes só as idades desses dois meninos: eu vejo-lhes as idades, e mais as fortunas. E porque a fortuna de Efraim há de ser muito maior que a de Manassés, por isso ponho a mão direita sobre o que vós tendes por menor; e a esquerda sobre o outro. José era tão sábio, como todos sabem, e como experimentou e admirou o Egito, onde sucedeu este caso. E contudo Jacó, estando cego, via duas vezes mais que José, e sabia duas vezes mais que ele: Scio, fili mi, scio: porque mais sabe, como dizia, um pai com os olhos fechados, que o mais sábio filho com eles abertos. Cuidem os filhos, e não desconfiem de que se cuide que seus pais sabem mais que eles.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.