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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

A CERTO HOMEM DE DISTINÇÃO QUE SE COSTUMAVA EMBEBEDAR E
QUEIMANDO-SE-LHE A CASA FICOU ELLE ILLEZO, E TODA A FAMILIA.

1 O vício da Sodomia
em Gomorra, e em Sodoma
Lavrava como carcoma,
e como traça roía:
quis Deus arrancar num dia,
e arrancou de um lanço só,
porque reduzindo em pó
a cidade, e sua gente,
livrou do incêndio somente
toda a família de Lot.

2 Segundo Lot ao burlesco
temos hoje em Andrezão,
como sodomita não,
como bebedor tudesco:
estava dormindo ao fresco,
e roncando a seu prazer
para a cachaça cozer,
e por mais que a palhoça arda,
Deus Ihe defende, e resguarda,
ele, família, e mulher.

3 O vulgo, que é todo asnal,
tem este caso horroroso
por prodígio milagroso,
sendo cousa natural:
porque tomado um sendal,
ou qualquer lenço tomado,
e em jeribita ensopado,
se o fogo se Ihe puser,
a jeribita há de arder,
sem ser o lenço queimado.

4 Assim o nosso Andrezão
de jeribita atacado
não podia ser queimado
num fio do casacão:
a palhoça ardeu então
porém a pele maldita
seria cousa esquisita,
que pudesse em fogo arder,
porque a pele vinha a ser
o lenço da jeribita.

5 E suposta esta livrança
entre Sodoma, e Tudesco
ou há grande parentesco,
ou mui grande semelhança:
quem quiser com confiança
entrar no fogo veemente,
escuse o ser inocente,
como os Moços do Salmista,
trate de ser flautista,
e beba muita aguardente.

6 Lá no forno do Pombal
Vila do Conde Valido,
quando está mui acendido
entra (prodígio fatal!)
um vilão de ânimo tal,
que dentro vira a fogaça,
com que a todo o povo embaça,
sem o mistério alcançar,
e eu agora venho a dar,
que vai cheio de vinhaça.

7 E pois o nosso Andrezão
leva o fogo de vencida,
para toda a sua vida
temos nele um borrachão:
e como é mui asneirão,
e em tudo tão material,
fará um discurso tal,
que a beber, e mais beber
há de escapar, e viver
no dilúvio universal.

8 Engana-se o asneirão,
porque no final juízo
há de acabar, que é preciso,
vinho, vide, cepa, e chão:
tudo há de acabar então,
e quando ache o Brichote
escondido algum pipote,
como é tão geral a mágoa,
porque morra, dar-lhe-ão água,
que é veneno de um vinhote.

LAMENTA A MULHER DESTE MESMO SUGEYTO A MÁ SORTE,QUE TEVE EM SE
CASAR COM HOMEM DETALCONDIÇÃO, PORQUE ACTUALMENTE ESTAVA
BEBADO.

MOTE

Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.

1 Coitada de quem
teve tal marido,
que bebe o vestido,
e sem ele vem:
porventura alguém
pode tal sofrer?
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.

2 Mofina de mim,
nunca eu fora feita
por não ser sujeita
a um vilão ruim:
Até o chapim
me foi já beber.
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.
3 Melhor me tivera
meu Pai encerrada,
num canto fechada
melhor estivera,
e não conhecera,
quem me há de beber!
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.

4 Sobre camarões
Sem comer mais nada
Só de uma assentada
bebe dez tostões:
vendeu os calções,
só para beber.
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.

5 Darei um pregão:
sabia todo o mundo,
que é poço sem fundo
este Beberrão:
com tal condição
há de já morrer.
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.

A AMAZIA DÊSTE SUJEITO QUE FIADA NO SEU RESPEITO SE FAZIA SOBERBA, E
DESAVERGONHADA.

1 Puta Andresona, eu pecador te aviso,
que o que amor te tiver, não terá siso;
tu te finges não ser senão honrada
e nunca vi mentira mais provada:
porque de mui metida, e atrevida
te vieste a sair com ser saída;
mas quando de ti, Puta, não cuidara,
fazeres tais baratos de tal cara!

2 Esse vaso encharcado, qual Danúbio
dá a crer, que és puta inda antes do dilúvio:
tão velha puta és, que ser podias
Eva das putas, mãe das putarias,
e por puta antiquíssima puderas
dar idade às idades, e era às eras;
e havendo feito putarias artas,
inda hoje dás a crer, que te não fartas.

3 Entram na tua casa a seus contratos
Frades, Sargentos, Pajens, e Mulatos
porque é tua vileza tão notória,
que entre os homens não achas mais que escória:
a todos esses guapos dás a língua,
e por muito que dês não te faz míngua:
antes és linguaraz, e a mim me espanta,
que dando a todos, tenhas língua tanta.

(continua...)

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